quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

I ain't ever giving up


Dê adeus.
Acene levemente e de repente, talvez, quem sabe, mande um beijo na direção do horizonte.
Suas pétalas impregnadas pela estagnação errônea e todo aquele sentimentalismo bobo nutrido por anos, já se desfizeram na cacofonia de sons que se tornou o seu desejo, o seu mártir. E dentre as vertentes da ilusão, do esquecimento e do que outrora fora chamado de verdade, as mentiras se perdem, se refazem, encontram e se despedem da saudade, tão logo se vão, deixam de existir para todo o sempre, eis a ironia do querer, esquecer-se daquilo que um dia tanto almejou.
 Eis do que se trata o recomeço, não se muda, nada se altera além do cenário que o rodeia, aqueles que te cercam e o quanto isso te influencia, como isso te influencia.
Você ainda é o mesmo e até o fim de sua existência, assim o será.
 Se pecando uma vez se sacia a vontade, se assim, culpando-se e negando a si mesmo se cria o problema, o que aconteceria, se por ocasião do destino, negasse tão somente, o próprio caminho?


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SHAKE, SHAKE, SHAKE~ 


Cheeeegamos até o último dia do ano, ora ora... Quem diria que o blog chegaria tão longe, ein?
Eu com toda a certeza não.
Foi um ano de altos e baixos, bad's espetaculares que me fizeram quase desistir de tudo e apagar não só as redes sociais mas também o meu amado Albatroz Humanizado, foi quase, ein?
 Conheci muita gente bacana, perdi contato com alguns filhos de uma boa put... Digo, perdi contato com gente que me fazia mal e com algumas pessoas que me faziam bem também (faz parte, né?).
 O que importa é que chorando ou sorrindo, o ano acabou e... O A.H. SOBREVIVEU! (de alguma forma pouco crível, eu diria),

Então, sobre você, solene leitor... Que acompanha as aleatoriedades estranhas daqui:
I PUT A SPELL ON YOU AND NOOOOOOOOOW YOU'RE MINE! (brincadeiras a parte, o post continua)



 Queria agradecer a galerinha que me apoiou esse ano e me foi de muita ajuda pra não pirar e me ajudaram a manter a cabeça no lugar, preciso citar nomes? Vocês sabem que estou falando de vocês.
 Os textos daqui continuam inacabados, e, bem, assim eu sigo. Como citado aí em cima, a gente não muda. Eu não acredito na mudança, entendem? Então, não vou dizer que não haverão surtos de TPM e vontade desumana de me apagar de tudo em 2016, assim como não vou garantir que eu termine os textinhos.
Querem promessas? Estão no lugar errado.


O A.H. prossegue, não sei dizer por quanto tempo, o motivo de prosseguir ou mesmo se vai seguir em frente, o que posso dar a total e absolutamente certeza é que ele sobreviveu 2015 e que hoje, está de pé.




Obrigada pelo apoio,
K <3

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cupid



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Crane se sentou de forma ereta e pouco confortável na poltrona que outrora fora seu lugar de maior conforto em meditações. Todo o burburinho criado pela vila devido os recentes acontecimentos, agora lhe pareciam longínquos e o único som que lhe ocupava os ouvidos era o da madeira úmida crepitando devagar enquanto o fogo da lareira pouco a pouco tomava forma.
 Quantas vezes avisara Harold que a lenha deveria ser trazida antes da tardezinha, quando o sol se punha no horizonte e o crepúsculo trazia consigo a insistente névoa? Quantas vezes lhe orientara a pegar ao menos meia dúzia de toras e trazê-las ao canto da sala, antes da alta madrugada e do cruel orvalho da manhã?
 Harold era o que se podia chamar de inconsequente, ou talvez, distraído. Não poderia culpá-lo, afinal, se fosse pesar os pecados e erros cometidos em profissões, o do pobre rapaz eram leves como plumas, enquanto os seus... Bem, talvez as âncoras dos barcos de seu tio afundassem de forma mais lenta do que sua culpa.
 O homem coçou a barba, moveu os ombros em círculos por duas ou três vezes e se decidiu. Algo precisava ser feito, não havia mais em si o ceticismo que outrora falara tão alto, com tanto orgulho e imponência, não, agora Crane tinha plena certeza de que algo deveria ser feito e que rumores ou não, magia ou não, alguém seria enforcado e esse alguém sem sombra de dúvidas, não seria ele.
Ora, não era exatamente sua culpa que crianças estavam sumindo com a mesma rapidez que a água escoa pelos cantos das mãos. Não era ele quem as estava sequestrando e matando, nem de crianças gostava, para ele, o quão mais longe possível das pequenas criaturinhas endiabradas, melhor.
   Ainda assim a culpa tornava a cair sobre o chefe da vila que, por palavras dos aldeões "não dá a miníma para todos" ou "pouco se importa", mas é claro que se importava, ora que disparate! Como não se importaria se ao sair de sua casa, era golpeado com os olhos raivosos e ressentidos das mães das crianças levadas "pela bruxa"?
Bruxa.
Essa talvez fosse a maior piada de todo o ocorrido. Não duvidaria que um lobo ou animal selvagem estivesse devorando os pequeninos. A mata por aquelas bandas era densa e as crianças brincavam sem proteção alguma nas encostas dos riachos e espelhos d'água. Por vezes vira a pequena Emilía Torns ou seja lá qual era o seu sobrenome, burlar as regras, ignorar a trilha criada com tanta dificuldade pelos caçadores e se embrenhar no mato para pegar flores, frutas ou seja lá o que aquela criança fazia.
Particularmente não via sentido, se ela queria morrer nas garras e dentes de alguma fera, o problema era unicamente dela (e da mãe irresponsável, claro). Quem em sã consciência deixava de uma menina de sete ou oito anos sozinha numa floresta?
 Vê? Não era sua culpa. Quanto mais meditava a respeito do desaparecimento das crianças, mais tinha a certeza de que a razão de tanta desgraça, eram os pais que não davam a devida atenção aos diabinhos. Ora, eles fizeram, eles que olhassem. Por que diabos, ele, Crane, um senhor tão distinto e ocupado, forçado a cuidar dos assuntos políticos da vila pela capital, teria que se responsabilizar por isso?

 Ele não era bruxo.
 Ele não era pedófilo.
 Ele não era canibal.
 Ele não via utilidade alguma em crianças.

Pronto! Problema resolvido!
Não era assunto seu, os pais que se revezassem na construção de caixões e dessem conta dos velórios, enterros, papeladas e toda aquela burocracia ridícula que a morte envolvia em seus braços quando teimava em levar entes queridos.
Novamente, nada que lhe dissesse respeito.
Tudo seria tão mais simples se as pessoas tomassem partido naquilo que lhes é de respeito, tudo seria tão, tão mais pacato, se entendessem que bruxas e coisas do gênero, faziam parte apenas do imaginário infame de fantasia deles.
 Mas não, nunca era simples. Nunca era fácil. Como líder e representante formal, ele, solteiro, sem filhos que lhe atormentasse, sem esposa que lhe cobrasse qualquer responsabilidade, com um salário pouco reconfortante e vários cabelos brancos, teria que sair em busca da tal bruxa com um grupo de aldeões assim que o sol rompesse o horizonte.

- Magnífico! -, disse em voz alta, praguejando em seguida um palavrão. - Harold! - mordeu o interior da boca e apertou as mãos uma na outra, estralando os dedos nervosos enquanto os passos apressados do rapaz de quase quinze anos se aproximava, - Mande a senhora Harmon preparar o jantar, se vou morrer nas mãos de um lobo cinzento ou de uma foice de caçador pela manhã, ao menos terei uma última refeição decente. Não precisa se dar ao trabalho de me responder, mande-a cozinhar, mande-a trazer bebida e não falem comigo, se vou ser um homem morto pela manhã, tenho direito a todo o silêncio que quiser, saia. - o dispensou com um aceno de mão sem nem se dar ao trabalho de avistar a careta assustada que o menino fazia toda vez que o via.

Idiotas. Idiotas por todos os lados.

Crane retirou do bolso um charuto e o acendeu sem muita empolgação, finalmente retirando as botas pesadas dos pés calejados e relaxando sua postura. Será que era muito tarde pra aprender a atirar?

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Continua?
E há ainda quem duvide do poder da palavra.
Há ainda aquele que duvida do quão forte e eloquente, 
Ilusória, mentirosa, convincente, 
Pode ser um simples entoar de frases.


domingo, 22 de novembro de 2015

Torch


Por qual razão renega teu eu?
Por qual motivo, me diga
Se esconde em tantas máscaras de marfim e madeira,
Que só te fazem ferir ainda mais?

Por qual razão renega teu sentir?
Teu pensar?
Por qual motivo oprime tua própria liberdade,
Esconde de si mesmo as sensações, o amar?

Por qual razão tinge de negro o rubro,
Mata as cores com essa brancura que não te pertence,
Se pinta de bom ou mal, vilão ou mocinho
Quando na profundidade vasta dos teus olhos, posso ver o pedido de socorro?

O que te faz pensar que não seria aceito?
O que em ti, tanto a si mesmo renega?
O que em mim, sua natureza lupina
Solitária, esguia e rude
Tanto fascina?

Driven like the snow


Refletidos nas janelas d'sua alma,
Em seus ternos e pacatos espelhos d'água,
Lanço meus encantos e feitiços,
Em cristais que quicam na transparência perturbadora,
Da sua inquieta consciência. 
Fosse apenas o deleite do licor,
O delírio do ópio ou o aroma do incenso.
Fosse apenas bem ou mal,
Sem um meio termo, sem um mesclado desigual.
Fosse apenas você, e não fosse também o eu
Que na mais doce e pungente amargura se banha,
Não haveria sentido em lutar,
Não haveria pois, uma razão por mais infantil que fosse
De em você, a loucura criar.


Flood II


No seu caminhar rebelde e enfurecido,
Me sinto perdido, atordoado.
Confuso, diria até mesmo curioso,
Sobre uma natureza indomável em um ser tão contraditório.

No seu olhar rodeado pelo negrume grudento da maquiagem que diz repudiar, 
Nos seus cabelos coloridos, desfocados, quebradiços,
Curtos ou compridos.

Na disfunção inteira que é seu corpo desnudo ou coberto, limpo, tatuado, de pintinhas, lisos ou não,
 E na confusão que é sua presença
Estranha, diferente, austera, rude e inconsequente.
Me sinto cada vez mais enojado, até qual ponto sua ignorância pode chegar?

Preso no mistério que te leva a ser assim, julgo abruptamente. 
O que se passa nos labirintos sujos da sua mente? Qual a razão pra tanta fúria?
Brota a risada, brota o asco.
Brota o cansaço e até mesmo o repúdio.

Se fosse apenas o visual,
Se fosse apenas a atitude,
Mas são também os pensamentos,
São também as palavras, ações e gestos.

Tudo em você é uma incógnita.
Se para bem ou para mal, 
De si mesma e do geral,
Cabe ao talvez responder, me resigno agora
Para minha própria paz, deixo de te ver,
Viro o rosto.

Deixo que o mundo se encarregue de saciar sua revolta,
De amenizar sua ira,
Ou de te tornar, de repente
Mais consciente, já que no atual você não é nem de longe
Um alguém com uma razão real.

Não digo não lutar por seus direitos,
Mas não faz sentido.
Se odeiam todas as rosas, se em uma
E apenas um, se ferir nos espinhos?

Pra que se intitular? 
Pra que se revoltar com algo assim, quando há tanto mais pra se mudar na humanidade? 
Como é que dizem mesmo? Esse título vulgar que ostenta no peito com tanto glamour, 
Esse ódio aos outros sem razão, essa generalização escrota de quem não tem educação?
Ah, é mesmo, é somente essa bobagem toda de se chamar...
Feminista.

1959


Imaculadas asas de anjo,
Que se abrem inquietas e se movem,
Tão plenas e majestosas
Na amplidão celeste.

Que de tão sutis e leves,
Desfazem a névoa e nuvens adentram.
Imaculadas asas de anjo,
Que paraísos perpetuam, que luz pela luz, criam.

Imaculadas asas de anjo,
De onde penas soltas brotam como o mais puro cristal,
E de lá se desfazem como poeira no ar,
Como mágica.

As imaculadas asas de anjos,
Em sorrisos e lágrimas infiéis,
Abrangem no universo como se nada fossem,
E desaparecem conforme a melodia do destino ecoa.

Abrasam-se nas chamas crepitantes da angústia, do viver
E não mais podem ser vistas.

Agora, maculadas asas de anjo
Por sonhos tão distantes da realidade,
Por desejos tão longínquos e por vezes mesquinhos,
Por sentimentos que jamais deveriam sentir.

Maculadas as asas dos anjos,
Que sem livre arbítrio,
Nos invejam, admiram e
Nos cobrem de preces e calentos, ao dormir.
  

Dominion


Outrora se pôs a madressilva.
Tão agarrada em pensamentos infantis,
Que mal entendia seu próprio sufocar.
Na ânsia de ser a melhor e mais bela,
A mais adorada, amada e admirada 
Tornou-se fútil, oh, tão abobada...
Carente e desolada.
Outrora se pôs a madressilva.
E nem mesmo foi capaz de entender,
O motivo que causara sua infame queda.
Depois de ter em suas pétalas dezenas de digitais,
Marcas de tantos que sequer de fato conhecia,
Se pôs a madressilva.
Se pôs a chorar e pedir clemência,
Cedeu ao esquecimento que tanto almejava,
E em seu reino de fantasia, de princesas e fadas
A escuridão não foi capaz de fazer nela, surgir a consciência. 
Outrora e quem sabe mesmo agora,
Se põe a madressilva.
Minutos depois se ergue, erra novamente todos os erros
Que sua beleza e estupidez causa.
Outrora, agora e quem sabe daqui algumas horas
Vai se pôr a madressilva.
Com seus olhos chorosos, pele marcada,
Voz machucada e coração partido,
Buscando o amor da forma errada,
Buscando ser a rainha, a melhor, a maior,
Quando tudo o que deveria querer,
Era ser verdadeiramente capaz de sentir.
Clamo pra que se afaste de mim,
Enquanto a abraço devagar e me deixo sentir por ela,
Sabendo que dentro de si, ela continua incessantemente 
Buscando ser apenas, de todas
A mais bela.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015


Que o resguardo após o ocorrido, dure bem menos do que o merecido.
Que a melancolia se desfaça por completo em novos horizontes,
E que tudo, tudo se refaça na infinita ampulheta do tempo.

Adelaide


Me apague.
Me delete da sua memória,
Me tire da sua lista de contatos,
Desapegue.
Se esqueça.
Se esqueça de todo e qualquer carinho,
Das frases, dos sorrisos e das besteiras.
Esqueça as desavenças.
Me apague. 
Não me odeie, me esqueça.
E faça com que assim,
Eu também te esqueça.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Whoooa! : Parte 1 - Hospitais infernais

"Odeio hospitais"
        Você com toda a certeza já ouviu algum comentário do tipo, talvez ele tenha vindo até mesmo de você e venhamos e convenhamos, hospitais são realmente uma droga. Depois de várias etapas burocráticas entre fazer fichas, responder perguntas idiotas para atualizar seu cadastro, esperar pelo atendimento médico e finalmente a medicação, existe uma longa brecha temporal que parece durar séculos e essa brecha é como uma fenda, um buraco entre as dimensões da paciência, do sono, da estagnação e finalmente... Da coragem. É como se vinte minutos demorassem anos e tudo citado anteriormente (principalmente a paciência) fossem sugados pelo buraco negro dos corredores, piso e teto perfeitamente brancos e impecáveis.
      "Impecável", esse é outro detalhe que me desanima. Não é como se a clínica, as cadeiras, o bebedouro, as torneiras, as maçanetas, corrimão e até mesmo o balcão de atendimento, fossem limpos. Muito pelo contrário, se fôssemos calcular a quantidade de gente que frequenta hospitais tanto públicos quanto particulares diariamente, levando em consideração que dois entre cinco indivíduos tem o mesmo vírus/problema, ainda teríamos uma taxa alarmante de infecção evidente! É assustador! 
       Então se você me perguntar por qual motivo estou sentada em um corredor comprido, de braços e pernas cruzadas, movendo um dos pés no ritmo de uma batida que só existe na minha cabeça, bem, o motivo é claro: eu sou do tipo que odeia hospitais e não estou aqui por querer. Diria obrigação se não estivesse realmente precisando tomar o bendito sorinho pra regular minha pressão. O que nos leva a outro tópico de ódio aparente: cólicas. Se você é um homem ou uma garota que nunca sentiu cólicas na vida, (talvez você tenha uma leve ideia) mas nunca vai entender de fato como você é sortudo (ou sortuda). 
       A cólica é o mal de todos os séculos, a origem de todo o desgosto, mau humor e rugas. Ela surge do nada, vem como um golpe duro no pé da barriga e simplesmente cria vida! Ela se propaga em fisgadas latentes pelas laterais e região central do ventre, fazendo todo o seu corpinho se retorcer de dor e desejar uma morte rápida e piedosa.
       Acha que fui dramática? Muito bem, pode me chamar de Drama Queen, não é como se eu me importasse, meu irmão adora me chamar disso e adotou a ofensa como apelido. Ele inclusive poderia facilmente ser apelidado de Mestre dos Imbecis, mas não quero propagar mais ódio e rancor, até porque não vale muito a pena falar do meu irmão, ele é inútil, quebra tudo em que suas mãos tocam, sua voz é irritante e eu juro que não entendo como esse bosta conseguiu uma namorada. Certo, falei demais. O ponto é, ter um irmão mais velho bosta não ajuda em nada, torna sua vida mais complicada e infernal mas pode ser divertido as vezes, tipo... Muito raramente, quase nunca.
      Ouço meu nome ser chamado na enfermaria e me levanto depressa, a tontura me pega desprevenida e vejo tudo ao meu redor girando depressa como num brinquedo frenético do parque de diversões da cidade vizinha, fecho os olhos e levo as mãos até a testa, respiro fundo duas, três, cinco vezes ou mais e finalmente caminho até a portinhola branca aberta. Meus olhos não conseguem distinguir ou ainda formar uma imagem clara, tudo o que vejo é a silhueta da enfermeira de pé, preparando algo (provavelmente meu soro) e vários pontinhos coloridos num negrume estupendo me roubando a sanidade.
- Está sozinha, meu bem? - ela pergunta, sua voz é firme apesar de tranquila. - Pode se deitar, você vai ficar sonolenta durante o processo, seria bom que alguém viesse te buscar.
- Não precisa, moro aqui perto. - emendo sem muita vontade de conversar e me deito, sinto a língua grudando no céu da boca, fecho os olhos enquanto ela procura uma veia, enfia a agulha e se despede, saindo da sala e me deixando ali, mofando, quase morta, mais branca do que porcelana e tão drogada quanto uma barata depois de um belo jato de veneno.
       Quanto tempo passei naquele estado semi-vegetativo, pseudo-zumbi e drogada? Não faço ideia. Mas quando acordei com a gritaria desumana que mais parecia a torcida do Corinthians vs a do Palmeiras dentro da clínica, pude ver que o soro já estava seco e o sangue subira por parte do canudo de silicone. Pisco atordoada, o gosto amargo na boca seca e tudo piscando, espera... Piscando? Isso não é efeito colateral do soro, tem algo errado no hospital, eu estou completamente sozinha e a gritaria parece cada vez mais próxima. De repente um hospital nunca tinha parecido tanto com o inferno.



Whoooa!


Sentiu o golpe duro da lateral do próprio rosto chocar-se contra o azulejo branco da sala, tão logo caiu, pôs ambas as mãos no mesmo e impulsionou o corpo para cima, chutando com força o ar na uma tentativa inútil de afastar seu agressor. Cogitou a hipótese de gritar por socorro mas quem a ouviria no tumulto que se seguia no hospital naquele momento? Quem iria em seu auxilio e necessitado socorro, quando todos ali precisavam ser salvos?
 Diziam que toda sua vida passava diante de seus olhos conforme a hora da morte se aproximava, ora, então aquela não deveria ser a sua hora, já que tudo que via era sangue e horror. Por mais irônica que fosse toda aquela situação, Helena não pôde evitar sorrir de lado, evitava filmes de terror a todo custo principalmente por culpa de coisas do tipo, e agora, querendo ou não, teria que passar por cima de seu medo se quisesse sair dali viva.
 Quem diria que os mortos se rebelariam na droga do carnaval?

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N/A:
E foi-se a introdução, não, eu não planejei escrever absolutamente NADA pro Halloween desse ano. Só que ano passado eu misturei:
-Psicopatia;
-Licantropos;

E
-Zumbis.
Em um único projeto de três partes, e você provavelmente já leu ele aqui como "Mr." ou "Mr. Creeeg". Em resumo, eu sempre acabo extrapolando os prazos e escrevendo alguma coisa... É o caso desse mini-mini projeto. Claramente serão zumbis clássicos do tipo Night of the living Dead e uma misturinha com drama (drama queen, oi) e humor ácido (o que venho tentando incorporar com algum custo). Eeeenfim, não esperem algo bem feito, nem esperem que isso seja finalizado.
That's all folks.

Lobelia


Na incerteza do teu sorriso vacilante,
Encontro brechas que me incentivam a fuga.
No aconchego ineficaz da solidão bruta,
Encontro o caminho de volta até tudo aquilo que reneguei em fúria.
E por mais que a turva verdade se exalte,
Em frases entrecortadas,
No choro exasperado,
Desesperados em um labirinto de irrealidade,
A procissão dos inescrupulosos prossegue, intacta,
Conosco de mãos dadas, guiando a frieza do mármore que nos humaniza.
Eis que na vã esperança deturpada e perversa,
Na inocência cativa da pureza inaudita,
Os estilhaços se esquecem e o caleidoscópio se refaz,
Inteiro, quebradiço e semelhante,
Vitral aconchegante, amor ofuscante,
Se na incerteza do teu sorriso tudo definha e se recria,
Deveria eu, em minha rebelde poesia
Salientar quantos espelhos d'água mais, 
Teremos que pisotear até que finalmente
Um de nós, cansados e exaustos
Venha a se afogar?

domingo, 1 de novembro de 2015

Espinhos (Spin-Off): Parte 2


"A alma imersa em delícias jamais pode ser imaculada"
- William Blake 

   
      As chamas crepitavam inquietas em um misto do fogo rubro com o negrume do tecido na ponta da tocha presa à parede. O cheiro não mais incomodava, quando jovem fumara alguns cigarros de palha e dera umas raras baforadas em cachimbos e charutos, o fazia quando a ocasião assim dela exigia. Mas ali, presa naquele cubículo minúsculo, tendo por companhia os ratos que percorriam os esgotos londrinos e aquela maldita chama que nunca se apagava, nunca consumia por completo a madeira que a alimentava, estava completamente sozinha com seus demônios internos.
       Estava mais do que claro que o Duque aprendera alguns bons truques de mágica no curto tempo humano que se passara desde seu último encontro com a mesma, aliás, cria em seu ínfimo pensamento que o Duque pesquisara incansavelmente e nutrira demasiada curiosidade para o sobrenatural, em principal, sua espécie. Essa era a única explicação plausível para que o homem outrora tão ignorante em seus desejos mundanos, tivesse tamanho conhecimento em magia.
         Sâmela se contentou em analisar pela décima quinta vez as paredes íngremes de pedras irregulares onde o musgo crescia com tanto vigor, o teto fosco onde rachaduras se aglomeravam, assemelhando-se a um amontoado de veias na circulação sanguínea ou mesmo à mente de um homem conforme pensava. Sorriu de lado, virando-se em sua posição humilhante e fetal para então tocar com a ponta do indicador uma das barras engorduradas, de pintura corroída porém ainda firmes e suspirou, se não lhe falhava a memória, estava presa já há alguns meses. O que planejava o velho Duque? Não terminaria o feitiço que começara e finalmente, a mataria?
         Pois a criatura lembrava-se claramente de seu primeiro encontro com o ambicioso velho, na época, rapazote. Tão moço que nem mesmo calças compridas usava. Ainda assim, ternos treze anos e já burlava as regras do pai, fumando, bebericando vinhos e água ardente, entrando escondido em cabarés, fugindo... É, deveria ter imaginado que este Amo em especial lhe daria dor de cabeça, mas não, naquela época mesmo ela só se importava em quanto diversão conseguiria para si, brincando de mestre dos bonecos, adquirindo quantas marionetes pudesse dar conta... Realizava seus desejos e desgraçava suas vidas, tudo para fugir do tédio.
        O desejo do Duque fora simples, o pagamento contudo nunca fora estipulado. Ele pedira com clareza e uma voz firme de tom ainda infantil que fora quase cômico. Seu querer se resumia em riquezas, tanto ouro e jóias que nunca poderia contar (por mais criados que tivesse para ajudá-lo na tarefa), queria sentir-se como um sultão. Quando uma moeda se perdesse (sendo dada por pagamento, caridade ou perda comum), cinco mais deveriam surgir em seu lugar e assim seus bolsos nunca ficariam vazios.
        Sâmela riu de toda aquela riqueza que o menino queria possuir e concordou, em seguida, o pequeno provavelmente descrente, cruzara os braços rente ao peito e erguera o queixo, ainda mais confiante e pedira que nenhuma doença pudesse acometê-lo em vida, que armas quaisquer fossem, não pudessem feri-lo e que todos os seus inimigos, por mais insignificantes que fossem, se rendessem a seu poder.
        O monstro gargalhou, impondo que aquele desejo estava além de suas capacidades. Poderia livrá-lo de doenças? Poderia. Poderia fazer com que seu corpo de carne mole e ossos fracos se tornasse mais forte do que mármore? Ora, poderia. Mas não detinha ela, poder sobre o destino para demandar que os inimigos do Duquezinho se tornassem submissos ao seu bel prazer, e além disso, isso tiraria toda a graça da coisa. Tamanho poder não pertencia nem mesmo aos velhos deuses que na destruição entre ruínas e desespero reinavam, quando nem mesmo a terra era terra ou o céu era céu, tamanho poder de possuir e mandar sobre os outros, era algo pertencente apenas ao maior criador e nesse assunto, Sâmela preferia nem mesmo tocar.
       O pequeno concordou então de forma que pelo menos a saúde e a força lhe fosse garantida. O demônio que naquele tempo usava face oriental de cabelos compridos e olhos cortados, apenas sorriu e concordou.        
       Dizendo ao pequeno que ele pagaria o preço que ela por capricho próprio decidisse quando a hora ditada pelo destino fosse, e ele a esperaria na noite de todos os santos, assim que o sol tristonho se escondesse no horizonte londrino, ele deveria chamá-la três vezes, chamá-la em sussurros durante o festival das bruxas e então, o pagamento seria decidido.
      Fora tudo tão rápido! Lembrava-se do cheiro amargo da bebida que empesteava o local, da música circense vulgar e de todos os sorrisos dos artistas. Fora numa noite de circo, sim, uma noite fria e escura onde a lua pouco clareava. Se pudesse voltar no tempo, voltaria e jamais teria feito um acordo com aquele maldito rapazote. Se pudesse, jamais teria ido cobrar-lhe a dívida, maldito fosse, com toda a certeza ele sabia que o único temor de um imortal, a única coisa que pode fazê-lo enlouquecer, dormir e definhar... É o tédio, a inércia e finalmente a mesmice.
   
Aquela falta de diversão, de novidades, aquela escuridão que me rodeava, não há incerteza em tamanho sofrimento o qual sob mim recaia! Ai de mim! Pobre criatura nas entranhas da terra enjaulada... Ai de mim, que de toda a magia fui feita e por uso inapropriado dela, terei ainda meu fim.
 Ai de mim, pois no açoite que se seguia minha vã existência, ouvi passos ressoando no piso rachado, o Duque vinha aí.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Too much

Como o outono que sempre tarda:
Suspiros, ânsias e arrependimentos,
Frequência em perder o ritmo e o foco
Para enfim se deixar jogar no esquecimento.

Como o inverno em seu pior e melhor:
No frio vento cortante e solitário que afasta a tudo,
Na gostosa sensação e no céu cinzento acolhedor
Para sorrir entre lágrimas mesclando desejos.

Como a primavera que floresce inquieta,
Como o verão que queima
E em tempestades repentinas,
Explode.

Como se tudo pudesse ser,
Sendo o completo nada em expansão.
Como se nada pudesse realmente conhecê-lo,
Em uma espiral do destino, desgovernada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Espinhos (Spin-Off): Parte 1

"Não está morto o que pode eternamente jazer. E com estranhas eras, pode até a Morte morrer"
HP Lovecraft - O Chamado de Cthulhu


Estendia-se sob o divã um corpo preguiçoso cuja única salvação da aparente inércia era o leve movimento que o peito fazia conforme respirava. O homem, pois era de todo uma figura claramente masculina com sua vasta barba emaranhada e sobrancelhas grossas, tinha os olhos cerrados sob o espelho não muito distante de si que a todo o quarto refletia.
  Ainda que aparentasse calma e tranquilidade, um olho atento poderia facilmente notar a perturbação que o atormentava mas não entendê-la. Os tormentos dos homens só podem ser entendidos por aqueles que o sentem e ainda assim, as vezes nem mesmo a eles sua natureza vil é totalmente revelada, apenas aos fortes e corajosos se estendem os mistérios do irrevelável e maleável monstro da criatividade e por elogio distinto ou não à loucura, apesar de toda a riqueza, o caso do Duque era tido como insanidade pura.
  Os criados não faziam de fato questão de entender os devaneios incessantes do duque, na verdade, eles buscavam do mesmo o máximo de distância possível. Diversos rumores sinistros cercavam a natureza de todo seu tesouro e mais, boa parte de tais burburinhos incluía caso de morte não solucionada no meio. Eis que, de certa forma acabou se tornando difícil ter um convívio tranquilo com uma figura taciturna, reclusa e obscura que pouco saia de casa e restringia seus dias e noites em ler livros de línguas desconhecidas e falar sozinho pelos corredores.
  Para toda a corte, o Duque tornou-se indesejado. Os criados mais fiéis prosseguiram em sua companhia e com algum esforço e uma boa quantia de ouro, conseguiram guardas que impedissem curiosos de ultrapassar os grandes portões enferrujados que davam acesso ao sítio e casarão.
   Sendo assim, naquela tardinha de céu alaranjado e brisa leve, o cheiro das flores tomava por completo o ar e enchia os pulmões de notória esperança e positividade, coisa que o Senhor de toda aquela terra preferia ignorar. Com as mãos cruzadas sob o peito e um olhar firme em direção ao espelho, ele mal se permitia piscar.
   Foi chamado duas, três, cinco vezes ou mais pelas criadas mas  preferiu ignorar toda e qualquer perturbação que poderia tirá-lo de sua tocaia. Ás 18:00 em ponto teria um encontro com o que para si mesmo invocara, para bem ou para mal, não poderia vacilar, não lhe era mais permitida tal opção. Fugira de seu passado por toda uma vida, e na altura de seus 65 anos não lhe restava muito mais tempo para bancar o moleque que ainda não veste calças.
 Tinha uma imensa vontade de mover-se e puxar da camisa o relógio de bolso, mas se detinha. Muitos anos atrás o recado fora claro, se quisesse vê-la novamente teria que esperar às 18h no solstício de verão, quando as bruxas faziam seus rituais e sabás e todo o mundo era tomado pela energia e pela magia de Beltane. Naquele momento, imóvel a espera do que um dia expulsara de sua vida, ela retornaria e cobraria sua dívida.
 Como lhe fora dito, o estava cumprindo. Não seria o homem culpado pela morte de inocentes, se negava a isso. Era muitas coisas e tinha plena ciência disso, em juventude fora boêmio, sedutor, um Casanova nato ou Don Juan se assim preferir o termo, em maior idade enganara muitos homens e os levara a ruína, tirando dos mesmos até mesmo o último centavo e não se orgulhava disso, mas, deixara alguns bastardos espalhados por lugares nos quais se perdera por alguns invernos. Porém assassino, era algo que nunca fora e se dependesse de si, nunca o seria.
 O Duque suspirou de leve, se permitindo relaxar um pouco os ombros tensos. Toda a riqueza que o cercava agora lhe parecia tão inútil e suja, todo seu esforço em enriquecer agora lhe parecia perda de tempo. Só que algo em si não se arrependia em nada de tudo que fizera, algo em si clamava por mais de tudo aquilo, implorando por liberdade, malvadezas e juventude perdida. Esse algo, preferia tentar ignorar e vestir de boa moral e educação.
 Um puritano não deveria se permitir tais ousadias, na verdade, um puritano nem mesmo teria um quarto como aquele, cujas paredes escondiam pinturas obscenas de Sátiros perseguindo ninfas nuas por bosques coloridos em noites quentes de lua cheia e damas da sociedade com seus seios macios e grandes, de mamilos entumecidos e detalhes absurdamente bem feitos, sucumbiam aos pecados da carne das mais variadas formas e posições com homens e demais criaturas que por respeito ao resto de pudor (que por milagre do acaso ainda lhe restava), não devem ser mencionadas em voz alta, tamanho absurdo fosse crer que mentes doentias poderiam imaginá-los, a que se diga pintá-los.
 Um puritano não leria livros de magia (pois a magia não é branca ou negra, boa ou ruim, ela é um todo que se completa como a vida em si), monstros mitológicos e Deuses, rituais e antigas religiões pagãs, como ele com tanto gosto fizera (e ainda o fazia), não aprenderia línguas antigas apenas para uso próprio de intenção puramente vil e nem mesmo teria tentado praticar o que para o catolicismo era bruxaria, ou satanismo.
 Um puritano jamais teria um quarto com cortinas e móveis rubros (a cor do pecado, para muitos), e nem teria passagens secretas escondidas por toda sua casa, esconderijos para observar os quartos das empregadas que jovens se despiam sem vergonha alguma próximas a tina d'água ou se lembraria de todos os seus pecados com um sorriso notório no rosto.
  Não, o Duque não era um puritano e tinha plena consciência disso. Nem puritano, nem bruxo, nem ousado, era apenas um homem atormentado por seus próprios demônios que teimava ter tido um encontro com o sobrenatural quando muito, muito moço. Mas não poderia negar que a sociedade não estava lá de todo errada em afastá-lo por toda a sua excentricidade (ou pelo uso abusivo do ópio).


~~~ x CONTINUA x~~~

Nota da autora:

Oi, lembra de Espinhos?
Realmente eu quis muito fazer algo bem feito naquilo mas por complicações externas, pressão e falta de tempo, acabei com o perdão da palavra "cagando e sentando em cima". Como algo em mim se recusa a deixar o conto morrer sendo que pesquisei TANTO pra escrever o dito cujo, bem, resolvi escrever algumas aventuras da Djin antes de topar com o Ricardo que provavelmente vai virar um personagem recorrente nos meus mini contos de terror e assombração (eu gostei dele, não me julguem, por favor).
 Talvez eu reescreva os dois últimos capítulos de Espinhos e ainda adicione mais, talvez eu fique SÓ em Spin-Off, quem sabe?
Se isso vai pra frente ou não, só o destino dirá. :3
Ah, obviamente isso aqui não foi revisado. Escrevi as três da matina, não li e particularmente se ficar parando pra corrigir todo errinho que encontrar, eu perco o tesão em escrever e deixo a coisa toda morrer, logo, se você ler isso ANTES da revisão, mil perdões (apesar de que só de ler os poemas que posto aqui, você já deve estar mais do que familiarizado com erros).
Obrigada por ler, se quiser comentar algo a respeito de Espinhos, do Spin-Off ou mesmo dos meus erros, fique a vontade -q
Até a próxima (sabe-se lá quando),
K.

Raise the Dead - Parte 2

 -But I'll never love you baby-

2. "Na alameda dos desesperados se encontra o que podemos nomear vulgarmente de coração partido, nele se encontram todas as esperanças, sonhos, desejos, sorrisos e principalmente lágrimas acumuladas por todo o sentimento que em notório delírio de realidade, a própria realidade julgou incapaz de crescer."


Esse com certeza seria um começo ótimo pra um romance ou drama, claramente não é o caso. Ok, sendo franca poderia muito bem se adequar ao meu drama em si mas não no quesito romântico da coisa... A não ser que a minha péssima relação com a minha família em absolutamente todos os quesitos que se possa imaginar, possa ser classificada e rotulada com muito sentimentalismo barato e emoções que eu particularmente não tenho.
        Depois da fatídica ligação da minha irmã mais nova, Regina, me vi forçada a retornar até a cidade escondida no meio do nada onde eu naturalmente nascera e perdera uns bons anos de vida. Não é um lugar feio, longe disso, se você gosta de flores e árvores, rios e etc... Bom, provavelmente ficaria apaixonado pelo lugar, só que, pra mim ele parece simplesmente parado no tempo.
        Imagine uma longa estrada de terra (pois é, o problema começa aí, nem asfalto tem), rodeada por árvores grandes e compridas de galhos folgados que jogam folhas em você conforme passa abaixo deles e raízes preguiçosas que tentam te derrubar, se colocando enfiadas na terra durante todo o percurso. Imaginou? Muito bem. Agora imagine flores silvestres selvagens (brancas, vermelhas, amarelas e algumas com uma leve tonalidade lilás, soltam uma tinta do cacete se você puxar da terra) e dezenas de cigarras, borboletinhas coloridas e o mais variado tipo de mosquitos e insetos existentes (o que inclui besouros, aranhas, baratas grandes do mato que surgem do nada, já disse aranhas? Certo, entenda, são muitas aranhas), e o que ainda consegue me encantar na paisagem: cristais.
       A estrada inteira é cheia deles, você pode cavar um pouco e pegar alguns grandes ou simplesmente andar um pouco pelo mato e pegar alguns pequenos, são lindos. Refletir qualquer coisa por eles dá uma sensação de poder, de magia, e por mais idiota que isso pareça, eles ainda me fascinam, mesmo que eu já tenha meus 25 invernos nas costas.
       Recapitulando, o lugar é perdido no meio do nada. Lindo, mas, eu me pergunto sobre a situação atual da internet lá, se no centro da cidade ela já é uma porcaria, ora, imagine no meio do nada?
       Tento ignorar minhas preocupações fúteis e me focar no telefona, meu pai dissera que Regina estava morta, isso com certeza era mentira. Ela não pediria pra eu voltar e se mataria em seguida, pelos céus, ela nem deve se lembrar de mim. Essa ideia é absurda de mais pra ser até mesmo cogitada, a que se diga posta em prática. Mas como tenho doutorado em trouxa, diploma em imbecil e sou o que podemos chamar de... Besta, lá vou eu verificar a veracidade dos fatos.
     Se isso é um truque pra me levar de volta ou não, saberei daqui vinte minutos. Já perdi horas na estrada e meu carro está completamente sujo de poeira, acho que esse é o preço que eu tenho de pagar por não ter cortado absolutamente TODOS os laços que me ligam a eles.


sábado, 17 de outubro de 2015

Coming Down


Encontro no doce movimento do seu peito
Ilusória sensação acolhedora,
Conforme expira e aspira,
Entre momentos entrecortados pelo descaso,
O eco dos sentidos ressoa.

Em sua pele suada,
Caminhos vertiginosos onde tropeço.
 Na sua língua molhada,
Entre beijos se exalam os suspiros.

Me perco na travessia marota,
Rebelde e ousada, curvada e dupla
Da sua boca.

E me pego sorrindo a cada instante,
Cada toque mais forte.
Suspiro mais alto e mesmo que sem querer me faça arfar,
Me perco em você, pois em você posso "estar".

Surge e se esvai,
Letárgico desejo,
Lento rebolado,
Que entre risos se desfaz em carinho e aconchego.

Tolices de corações apaixonados,
Gemidos por vezes mais altos,
 Batidas descompassadas na nostalgia do deleite,
No corpo amigo o tão necessário abrigo,
No aclamado amante, um amor ressentido.

I walk the line




Euforia momentânea, estupor em rebuliço
E eis que a possessão do seu sorriso,
Se torna meu calabouço.

Eis que
 Seus olhos me perfuram a alma,
Tão logo sombrios me reclamam posse,
Tão fortes quanto o negrume que te cerca a pupila,
Explode em desgastada fúria retomada.

Se da tua língua ávida
Brotasse qualquer coisa além do mais puro fel,
Se da tua voz aveludada,
Tão doce, gentil e aclamada,
Surgissem flores sem espinhos,
Este não seria você.
E esta não seria eu.

Caminhar pelo fio da navalha
Nunca foi tão delicioso,
Ou mesmo tão desgastante.

Me aprisione o máximo que puder
E então assista minha fuga ferina
Por tudo aquilo que nomeia como seu.

Me prenda com todas as suas forças,
Me submeta a todas as suas correntes de destreza, 
E ainda assim,
Me assista escapar pelas fendas em suas mãos.

Se afogue em minhas mágoas passadas,
Queime com seus desejos egoístas, para enfim notar que
Corações selvagens jamais serão domados,
E eu nunca serei sua.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Raise the dead

  1. Do fúnebre sorriso mecanizado,
    E da entediante demora,
    Nasce de si a covardia vacilante.
    Se dela outrora surgirem respostas,
    Quem aqui seria capaz de negá-las?
Mergulho em um baque surdo contra a água fria, ciente de que nada vai me seguir até ali, ciente do quão recluso é meu exílio, deixo a água fluir.
 Não é como se a pequena lagoa tivesse um dono, nome ou mesmo qualquer um que a protegesse. Mas pra mim, na minha mais terna fantasia infantil e inocente, ela era um oceano de possibilidades e fugas. Um recanto tranquilo que sempre me abriria os braços quando precisasse de alguém, quando precisasse fugir de mim... Ela me acolheria.
E não era somente a lagoa, não era somente a água fria e cristalina, nem mesmo as pedras de onde o musgo brotava, o cheiro de terra molhada, as pedrinhas que revoltada eu lançava na água e fazia quicar, não, não eram as árvores que naquele tempo pareciam gigantescas como se pudessem alcançar o céu, nem tão somente suas folhas que no outono caiam com tonalidades alaranjadas que pareciam chamas e na primavera davam flores. Tudo ali era um conjunto de tranquilidade, de paz e prazer.

E mesmo depois de tanto tempo, afundar por completo na água fria e ficar em silêncio ainda é um dos meus motivos de maior deleite. Hoje não tenho mais acesso à pequena lagoa que me povoou a infância, não tenho mais tempo livre pra ficar horas e horas fitando o vento passando pelas folhas das árvores e criando uma lenta dança, ou mesmo, disponibilidade pra sentir o cheiro gostoso das flores no orvalho da manhã. Nada disso me pertence mais, ainda assim não é como se não guardasse tais lembranças em um cantinho especial de mim. Na verdade, em dias como esse, esse pequeno refúgio é tudo o que me impede de surtar e fugir do que minha vida se tornou.
 Saio da piscina apressada ao ouvir pela terceira vez o toque insistente do celular, jogo a toalha rosa felpuda sobre a cabeça e sem cuidado algum tento secar meus cabelos o máximo que posso nos meus segundos restantes de liberdade.

-Fala, - o descontentamento na voz é evidente e apesar de ter tido um longo e culminante passado com a garota do outro lado da linha, sei que nada de bom pode vir de uma ligação dela. - Não precisa caçar as palavras, fale o que precisa e desligue, Regina. -Ouço um suspiro depois de uma longa pausa e o silêncio prossegue, ergo a mão livre e massageio as têmporas, a forma como ela conseguia bagunçar e estragar meu dia em questão de minutos era impressionante, talvez devesse premiá-la como "chata não convencional do ano". -Olha... Se você não queria conversar, por qual motivo me ligou?

-Liza, você não acha que já ficou tempo de mais distante? - Respiro fundo, dessa vez o silêncio vem da minha parte, a voz dela não mudou quase nada apesar da idade, esperava que aos dezessete ela já tivesse perdido o timbre infantil que tinha, ledo engano. - Nós sentimos sua falta.

-Isso é tudo? -Deixo a rispidez na voz o mais clara possível. Não é como se não gostasse de ter contato com a família, certo, é sim. Evito a todo custo, sempre que posso, sempre que não posso e se topo com algum deles, não finjo que gosto. Existem famílias e famílias por aí, talvez a do vizinho seja bacana, talvez a do padeiro seja divertida e carinhosa mas a minha é o que podemos chamar de... Tóxica. -Não me ligue a menos que uma tragédia aconteça, capiche? - desligo e jogo o celular dentro da bolsa.

No clube tudo continua tranquilo. A aula de natação em outra piscina continua, algumas crianças estão discutindo, mães fofocando... Tudo normal. Agora o problema sou eu. O único ponto e foco de negatividade em todo aquele azul profundo e pacato, sou eu e isso é tudo culpa de uma droga de ligação! Mal posso acreditar no quanto isso ainda me afeta, droga, eu cresci, tenho um trabalho, me formei, tenho meu apartamento confortável e meu aquário lotado de peixes. Minha vida está em perfeita ordem, eu não tenho mais vinculo algum com esses demônios, então por que eles insistem tanto em ressurgir das sombras?
Sou tomada por pensamentos em grande maioria de raiva e ressentimento enquanto me visto e deixo o clube, dois quarteirões depois, já no meu apartamento, ouço o celular tocando de novo e pra minha surpresa outro fantasma do passado resolveu me atormentar. Esse com certeza pior do que o anterior, tomo fôlego e me jogo no sofá sem cuidado algum, vamos ao bombardeio.

-Sim, mãe?
-... Eliza, o que você disse pra sua irmã? - Já estava pronta pra responder com quatro pedras na mão, não fosse seu tom de voz, não fosse o fato dela estar arfando e do ar parecer lhe faltar a cada palavra dita. Estava pronta pra ser o mais ignorante e bruta o possível e começar uma briga feia, se não notasse que ela estava chorando. Quanto tempo se passara desde a ligação de Regina? Quinze minutos? Talvez menos. Ainda assim eu podia ouvir claramente o som do desespero presente na voz da minha mãe. -O que você disse pra sua irmã, Eliza?! - ela tornou a repetir, dessa vez mais alto com mais fúria.
-Nada demais, o que foi? Tá chorando? Quem morreu? -ri, me arrependendo amargamente em seguida. A resposta não veio da minha mãe, mas do meu pai.

Após um grito seguido por uma espécie de choro ou lamentação absurdamente alto que me fez afastar o celular da orelha por alguns segundos, a voz grossa e inconfundivelmente fria do meu pai fez com que até mesmo o tempo a minha volta parasse.

-Você tem no máximo um dia pra chegar aqui e resolver um terço da merda que você fez... Regina está morta e a culpa é sua.

domingo, 11 de outubro de 2015

Sssh


Tô carente.
Tô carente de você.
Da alienação gostosa que você me causa,
Cada vez que me preenche com sua dúvida
Em tese sútil, sempre curiosa.

Tô cansado.
Cansado de ceder e esperar de mais,
De quem sempre será de menos.
Tô cansado de confiar, cansado de acreditar.

Mas tô aqui.
Tô sedento, tô revoltado, tô e não tô.
Sou e não sou.
A confusão que me toma vai além de você,
Mas tem seu nome como raiz principal.

Tô exausto ao meu modo,
Mesmo que o ritmo ainda me embale,
Mesmo que a música ainda me tome,
Mesmo que algo em mim, ainda reclame.

Entenda meu pedido de socorro,
Afaste-se ao menor comando,
Se for pra ser menor do que o nada,
Não o seja.
Não fique.
Não diga.
Se de todo o resto me afasto, não se iluda...
De você, também estou farto.

Minha carência brota da saudade,
Da incompreensão, do vazio
E principalmente do "não" estampado na sua boca
Que enquanto beija a minha, deseja muitas, muitas outras.

What's my name?


"Baby you're a challenge, lets explore your talent"

É um desafio te classificar,
Escolher uma palavra que seja,
Uma denominação simples, pra alguém como você,
Tão complexo, que mal entende o que realmente deseja.

É questão de puro jogo de cintura,
Disputa acirrada de sinuca,
Goles e mais goles da mais pura e inconsequente,
Notória e diversificada... Música.

E é difícil entender, decifrar, analisar
E por fim, falar
Quando tudo em você é um enigma,
Um quebra-cabeças misterioso que não abre brechas.

E é difícil como amiga, estender a mão
Socorrer, dar mesmo sem querer, o braço a torcer
Quando toda a admiração parece emaranhada, 
Perdida, usada.

Espero que ame,
Espero que seja amado.
Espero que cante, que dance.
Mas acima disso, minha amizade das mais queridas...
Eu espero sinceramente que não se arrependa e que sem mais delongas,
Viva.


Indulgente sensação prepotente de inércia gratuita


Me inebria os sentidos,
Me venda os olhos
E faz instantaneamente falhar a língua,
Cada vez que topo contigo.

Logo eu que mal me calo,
Logo eu, tão solenemente eu,
Que pouco espero desse tal sentimento,
Popularmente tido como raro (e ralo).

Se por desacato,
Indulgência ou simplesmente,
Arrogância do dito cruel destino,
Nossos caminhos se cruzam, por que então não fala comigo?

O que te prende?
O que te limita?
O que em você, meu impensado amor
Como palavra final, teus pensamentos dita?

O que em seu olhar recluso,
Vacilante e culpado,
Ainda em mim encanta?
O que em você,
Soldado, bandido,
Covarde, astuto, oprimido
É capaz de despertar meu mais profundo interesse?

O que em você, tão frio e vago... Você,
O impede de em mim, sua presença findar?
O que em você, distante de qualquer lugar onde eu poderia estar,
Faz com que sem querer,
Eu venha a te amar?

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Don't you dare


Você me frustra.
Me irrita de formas inimagináveis
E me dá uma puta,
Tremenda e fodida
Ânsia de vômito.

Você me cansa,
Me deixa exausta
E só de mencionar seu nome numa conversa,
Já formo em mim, sem querer,
Uma careta.

Existem limites pra ser imbecil, sabia?
Existem limites pra ser cuzão e acima disso
Limites pra ser um bosta.

Claro que você extrapola todos
E ainda me perguntam
Por qual motivo,
Qual razão,
Qual mistério do destino,
Me faz ironizar tudo que o sai da sua boca.

--
Não, isso não foi um poema, foi a minha vontade de te bater. <3 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Kiss, kiss and kiss, and kiss, and kiss

É o teu cheiro que me pega desprevenida, 
Teu gosto,
Teus lábios,
Teu rosto.

É a tua voz que me embala e arrepia,
Tuas mãos macias,
Teu abraço quente.
É você, e só você pra todo o sempre.

É a sensação gostosa
Que me invade a cada frase.
É a saudade ardilosa,
Entre teimosias manhosas.

É tudo isso e mais,
Pra provar que sim:
Eu te amo mais.

É o fato de pensar em você
A cada minuto,
Cada segundo
Cada hora dos meus dias.

É sonhar,
É querer,
É desejar,
É sentir.
Tudo por você.

After you

Quando canso de mim,
Quando canso de você.
Quando canso de nós,
Quando canso de crer.

Me desfaço das pinturas,
Escondo os retratos.
Mudo os móveis de lugar,
Altero até mesmo o modo de falar.

Só não consigo mexer mesmo,
É no pensar,
É no sentir.
Esses aí que tento inutilmente mudar,
Parecem que a cada dia aprendem mais a lutar,
Para enfim,
O "eu" que tento esquecer,
De vez enraizar.

Tem dias que canso.
Dias e noites de exaustão,
De necessidade,
De revolta.

E então tudo volta,
A realidade despenca,
Como um golpe duro da própria crença.

Nada mudou.
Do melhor pra pior,
Nada mudou.
Do sorriso até o descaso,
Tudo inalterado.

Por isso hoje,
Me mascaro.
Tinjo de cores meus lábios,
Mudo o penteado,
Arrumo outro tipo de papo.

Hoje cansei de mim,
Hoje cansei de ser,
Exercer, fazer, crer
Hoje,
E quem sabe daqui um ou dois dias,
Não serei eu, não serei você,
Afinal de contas,
Serei quem eu quiser ser.



Medicine

Banhado em todo aquele rosa decadente,
Te vi cercado pelo cheiro pungente,
Adocicado e de gosto amargo,
Um sabor cítrico, doente.

 A fonte se desdobra,
Inquieta ela regurgita.
Inquieta, tão solene e sozinha,
Ela segue.





quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Prometo!

Aclama a doçura mas não a acentua,
Desnuda a carência mas não a inocência.
Só não impeça que o sorriso volte,
Só não se desfaça do que ainda te preenche.

Se for infantil, que seja!
Se for melodia, deixa soar!
Não há mal algum em errar,
Tampouco em o mundo explorar.

Deixa sorrir, deixa sangrar,
Deixa sentir, se deixa viver.
Que mal há em sua própria vida
Percorrer?

Chuta essas regras! Levanta daí!
Ser social e correto o tempo todo,
Não faz o estilo de ninguém,
Afrouxa essa gravata.
Desce desse salto.

A seriedade cabe pra momentos,
A sua criança interior por outro lado,
Cabe pra sempre, pra um todo.

Se for bobo, se for infantil
Se for sorrisos, se for contradição
Rebeldia nata ou simplesmente o mais leve imaginar,
Deixa ser, deixa estar.

Acorda amiga,
Se permita sonhar.

Flores


Nosso tempo passou depressa,
Tão veloz quanto um piscar de olhos.
Durou tanto quanto a vida de uma flor
E assim como ela, entre discussões e golpes,
Murchou.

Não sei se acompanha o que restou,
Se as lembranças são boas ou ruins,
Ou se tudo o que sobrou
Foram somente os espinhos.

O que guardo pra mim,
Naquele relicário delicado que me deu,
É que foram bons tempos
Apesar de uma boa dose de dor de cabeça frequente.

Mas que nada daquilo,
Absolutamente nada, vai retornar.
Foi o que tinha que ser,
Deu.
Passou.

E é por isso que de você,
Não espero nada mais do que educação.
Distância e talvez, quem sabe
Algumas boas lembranças.

I can't


Hoje me peguei pensando,
No quão dependente me tornei.
Do quanto sua presença significa pra mim,
E cheguei a conclusão de que sinto sua falta.

Sinto falta das risadas,
Sinto falta das reclamações,
Dos desabafos, mas,
Acima disso, sinto falta da amizade.

Sinto falta da sua presença.
Sinto falta de você.

E mesmo que a gente ainda converse,
Vez aqui, vez acolá
Nada nunca vai voltar.
Não seremos mais aquelas garotas bobas de anos atrás.

E você nunca será minha melhor amiga de novo.

Eu não sei da sua vida, você não sabe da minha
Não compartilhamos esse tipo de informação.
Os apelidos se foram e com eles a ilusão.

Me pergunto se deveria ter ido te ver quando tive a chance,
Volto atrás.
O que diria?
O que faria?

Uma amizade de várias vidas que enfraquece
Um pouco mais a cada ano.
Onde vamos parar nesse ritmo?

Luv!


Se a doçura não me obrigasse a suspirar,
Se os sorrisos não fossem capazes
De os dias cinzas, superar...
Como eu poderia sinceramente,
Te amar?

Como dentro de tanta insensatez,
Ainda caberia amizade,
Depois de tantos tombos,
Tanta falsidade?

Se fosse tudo seriedade,
Se fosse embriaguez matutina,
Ressaca vespertina, e 
Feriado perdido, como poderia eu
Ainda assim, te oferecer um ombro amigo?

Iluda-se, deixe iludir
Deixa sentir, deixa fluir
Tropeçar pode ser divertido,
Me dá a mão, caminha comigo.
Se fosse tudo seriedade,
Qual seria a graça em viver
Se prendendo atrás de grades?

Undead, undead, undead


Deseje.

Rastejamos pela terra fresca, úmida e pesada. 
Em nossas unhas carregamos o valor das lembranças e da consciência que em nós, não mais opera. 
Em nossas unhas podres, roxas e cheias de vermes, carregamos os sentimentos que ainda resistem ásperos no peito febril.
 Imploramos vezes seguidas em súplicas sem qualquer vestígio de orgulho, por um pouco de atenção da lua e calor do sol. Pedimos com todo nosso ser, nossa essência restante separada da carne (inerte), pelo amor que a vida nos deu e a própria vida tomou.
Gire a chave no gigantesco cadeado que acorrenta nosso mausoléu, não lhe faremos mal, posso te assegurar isso! Mas ainda peço que nos ajude a romper as barreiras de madeira e terra que nos separam do seu mundo. Ainda peço que acredite em mim, que acredite em nós e nos aceite de bom grado.
Nos aceite de volta em um mundo que foi tão nosso, quanto é seu. E que um dia não passará de uma reles lembrança em sua alma errante e sozinha que na neblina caminha em busca de mais.
Somos aqueles que fizeram do silêncio, sua casa.
Somos aqueles que lamentam, que se arrependem mas que fariam tudo igual novamente.
Em nossos olhos vazios repousa o descanso, o destemor e o dessabor que só o sepulcro pode providenciar. Em nossos lábios lilases se encontram borboletas como nunca vistas antes, capazes de voar o mais alto possível, ir tão longe quanto se pode ir, de morder com uma força que jamais diria ser nossa.
Em nossas línguas histórias se criam como a fina névoa da mais pura magia e da morte, criamos assim a fantasia, o terror e finalmente a vida.
Esse arrepio que te brota na espinha quando o relógio badala e anuncia a meia-noite não é nada perto do que podemos fazer, mas, não encare isso como uma ameaça, de certo deve entender que não temos muito o que fazer em nossa imensidão de tempo restante e tão logo, assustar se torna divertido, o temor de outros, para nós se torna abrigo.
Sei que aqui entre nós, você provavelmente possui um querido. Então me diga, o que te impede de romper o lacre, doce Bárbara? 
Prefere encarar os fantasmas ou os mortos que caminham? Prefere ouvir nossos sussurros, cânticos e lamúrias que somem quando passam por paredes e portas, que se escondem nas trevas e estão sempre, sempre observando, ou prefere acabar com tudo em um rápido tiro na testa?

Nós estamos vindo por você.
Nós estamos vindo pra pegar você.
E como bem sabe, não há absolutamente nada dentro de seu alcance que possa fazer.
Não há como evitar que os mortos batam à sua porta ou puxem seu cobertor.
Não existe forma alguma, solução ou equação que a livrará de encarar seus medos.
Então, você virá nos visitar, Bárbara?
Virá nos ver enquanto nos levantamos em busca de carne com nossos ossos a mostra e em estado avançado de putrefação? 
Você assistirá enquanto arrastamos nossas mortalhas em uma lenta procissão rumo ao fogo e a destruição?

Afinal, você trará um bolo como fez Bedélia? Ou somente virá, Bárbara?