segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Síndrome de Estocolmo

Fiz um buquê de galhos secos que encontrei enquanto seguia a nossa trilha, rosas vermelhas murchas daquela velhinha de sorriso gentil e pele enrugada da qual sempre comprávamos plantas, flores silvestres cuja boa parte de pétalas haviam caído, colhidas pelos arbustos e muros verdes daquele vizinho chato, cuja campainha sempre tocávamos as escondidas.

Enfeitei tudo com um laço verde musgo, onde anteriormente eu mesmo bordara uma frase boba, apaixonada e ignorante do que o futuro nos traria, frase esta que você leu em voz alta para toda a sala de aula, se vangloriando e mostrando a todos o quão romântico eu poderia ser por você.

Cortei todos os espinhos, tive o cuidado de fazer com que aquele conjunto de incertezas, de falhas, fosse perfeito e que ao recebê-lo, você não se ferisse tanto quanto eu me feria ao fazê-lo. Queria apenas que ele chegasse até seus braços, que seus olhos se pusessem sobre aquela obra prima do descaso e do fracasso, que assim, quem sabe você fosse capaz de entender o que sua ida havia feito comigo.
Que talvez, ao entender isso, ao sentir pelo menos 1/3 do que sentia quando nos conhecemos, suas lembranças sobre tudo o que vivemos juntos, voltasse a tona.

Sei que não posso te trazer de volta, envolver seu corpo com meus braços, sentir seu cheiro doce e enrolar meus dedos em suas mechas rebeldes. Assim como também sei que nunca mais poderei ouvir o som carinhoso e baixinho da sua voz quando acordava, ou o tom ameaçador e rouco quando ficava brava e quando te fazia cócegas.

No fim das contas, sei que te perdi pra sempre.
Mas nada disso me impede de demonstrar meu amor, de levar toda essa vida quebrada até sua lápide e passar horas conversando com o nada, como se pudesse me ouvir. Desabafando sobre como foi egoísta me deixar, como fui egoísta em não perceber e acima disso, como fui idiota em te deixar morrer.

Agora, me vejo como esse buquê. Pássaro criado em cativeiro que se recusa a voar e deixar a gaiola, prisioneiro de mim mesmo, escravo da dor que restou, do vazio e da solidão, quebrado e ainda assim, vivo.

E pensar que nosso caso de amor acabaria assim, receba meu buquê, doce Amélia, receba da minha vida o fim, receba de braços abertos a mim.

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