segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Tons da noite


Os ombros se movem devagar, seguindo o ritmo que desce pela cintura esguia e se torna um rebolado nas curvas do quadril e das coxas, isso, enquanto os braços sobem e descem, serpenteando pelo ar juntamente dos cabelos que quase flutuam, se jogam em ondas castanho claras pelas costas e pelo pescoço alvo.
 Envolto em sua dança sequer me dou conta do que me cerca, em questão de segundos a música toma todo o ambiente, ecoa, ressoa. reclama a atenção de cada um para sua entonação, seus sentimentos e fascina, hipnotiza.
Assim, lá está você, envolta em misteriosos sentimentos que não cabem a ninguém além de si mesma saber, consciente, ciente. Pronta para aproveitar todo o tempo que tem, que escorre pelas palmas das mãos bonitas e prova mais uma vez, que nada é eterno, nem mesmo a dor, nem mesmo o amor.
Sem querer meu pé direito segue as batidas animadas daquela música que outrora já ouvira, presto atenção em cada movimento seu, tentando inutilmente decifrar a intensidade das cores do seu olhar, buscando entender e conhecer quantas sensações, sentimentos e histórias, seu forte e frágil corpo feminino guarda.
Sinto as gotas d'água escorrendo pelo copo de bebida que seguro, engulo em seco, você dança para si mesma e para mais ninguém, dança pra esquecer, aproveitar, sentir. Me dou ao luxo de imaginar sua rotina, mascará-la como à um personagem de um livro ou filme e tão logo a música acaba, te vejo sair da pista de dança, sozinha, a cabeça erguida e o peito estufado, passo por passo dado com a elegância do álcool presente.
Não parece triste, tampouco chateada ou feliz. Segue para uma das mesas e ali se deixa suspirar, o olhar perdido, apoia o queixo na mão e cruza as pernas, está acompanhada. 

Finalmente ergo meu copo e o levo até a boca, bebo tudo de uma vez em um gole desesperado.
Em algum momento pararia de tentar entender a solidão na humanidade, em algum instante por mais distante que fosse, me convenceria de que somos diferentes e que não haveria ninguém semelhante a mim ou a você, que os sentimentos não seriam os mesmos, que nada seria igual.

Mas por hora, me contento observando aqueles que me cativam a atenção, imaginando suas vidas a partir de doces momentos nostálgicos onde demonstram toda a juventude apesar da velhice, do cansaço e da dor, em sons, sabores, sorrisos e frases que se entregam, se deleitam do agora. Por hora, busco em outros um entendimento que se faça presente em mim mesmo e que explique, dentre todas as razões e problemas, o porquê de estarmos aqui.

Não somos pois, como a melodia? Transpirando sentimentos e vontades, desejos e anseios, por meio da arte, do olhar, da alma. Contraditórios e enigmáticos, fascinantes e tristonhos. Não existe apenas uma definição e triste seria se assim o fosse.

Deixo o copo sobre o balcão junto de uma nota que pague a bebida, levanto-me e procuro outra cena, outro espetáculo que me impeça de jogar tudo pro alto esta noite, algo que me roube a madrugada e quem sabe toda uma vida passe a ser real.



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