sábado, 28 de março de 2015

Mixed


Dentre as vertentes do suicídio,
As milhares formas de cometer um homicídio,
Entre o carmim que escorre incessante do fio cortante
Se esconde um sorriso de natureza fria e demente.

Lágrimas culposas, suor desejoso, antecipado, planejado,
Dentre o gosto amargo e a secura nos lábios,
As dezenas de pílulas e também os cigarros,
O gozo do ato jamais esperado.

Traz a sensação, a liberdade, o poder,
Tendo vida e morte em suas mãos.
Não parece interessante? Não parece intrigante?
Ceder,
Perder,
Vencer,
Matar e finalmente,
Morrer.

domingo, 22 de março de 2015

Chameleon

Inicio agora uma não tão breve alusão.
Uma homenagem e além disso, um agradecimento.

É difícil falar sobre amizade sem lacrimejar ou inconscientemente sorrir para a tela do notebook. É difícil porque são muitos sentimentos, muitas pessoas e muitos momentos, que já passaram por sua vida, que te marcaram e que em dado momento, voltam a tona em lembranças marejadas.

Isso, e também as mudanças que cada um trouxe consigo e mesmo depois de partir, deixou. Alguns deixaram pouco, uma ou outra lição ou coisa que o liga à você, como uma música que ouviam juntos ou filmes que comentavam, livros talvez.

Outros, de uma ligação mais intensa, deixam quase uma vida toda de lembranças, mesmo não estando tanto tempo ao seu lado, ou nunca estando ao seu lado, as vezes só escrevendo, só sendo "virtual".
De qualquer forma, hoje fiquei nostálgica e me peguei pensando em quantos amigos tive e em quantos tenho. Pensei sobre quando era criança e brincava (lê-se brigava) com minhas amiguinhas, lembrei de que tinha poucas e que preferia um bom filme à sair de casa, mas elas estavam lá, de certa forma.

Lembrei da escola, de colegas não tão importantes que me machucaram na época ou que foram companhias de momentos. Do ensino médio, dos fucking quinze anos que sempre dão uma reviravolta tremenda na sua vida e dos amigos que tinha na época.

Me peguei pensando no quanto meu gosto musical mudou devido UM só amigo, e isso que só o vi uma vez na vida! E em como me aprofundei e joguei de cabeça em livros e mangás por causa de outras duas, que também vi pouquíssimas vezes, quatro no máximo.
Sinto falta deles. Mesmo sabendo que nos afastamos porque mudamos muito, que bem, o tempo passa e cada um segue seu rumo, evolui, "cresce".

Bem, daí veio meio primeiro emprego oficial e eu conheci aqueles que continuam comigo até hoje. Quem diria? Quem diria que existia gente legal na minha cidade? Que loucura, mas é, meu atual melhor amigo conheci em 2011, e particularmente hoje, não imagino minha vida sem ele, mudei muito em muita coisa, muita coisa MESMO, por causa dele e me orgulho disso. Além de ter conhecido pessoas lindas e me aproximado de outras que não tinha um contato tão profundo.

Agradei e desagradei diversas pessoas nesse percurso, deixei, fui deixada, fiz amigos que pensei que nunca perderia o contato (e perdi), e outros que apesar do tempo sem contato, quando nos vemos, bem... É a mesma coisa de sempre, a mesma loucura, a mesma confidência doida.

Tenho alguns que considero irmãos, irmãs e parte da família. Aqueles que já amei e que vou amar pra sempre.

O que quero dizer depois desse puta desabafo no blog onde eu mesma disse que só postaria histórias e poemas, é que: Eu sou grata. Imensamente grata. Por ter conhecido toda essa galera e por eles terem feito e ainda mesmo que indiretamente fazerem parte da minha vida. 
Que apesar de eu brincar e dizer muitas vezes que sou um cubo de gelo, bem, eu os amo de verdade e vocês são preciosos pra mim. <3

Então, bem, é isso, meio sem sentido e fora de clima (?), mas precisei botar pra fora. (?)

Não tem a menor pretensão de acontecer


Não escrevia mais sobre romance. Não conseguia.
Algo havia se quebrado entre o intermédio da imaginação e do sentir. E a culpa era totalmente dela. Culpa sim, culpa por fazê-lo odiar músicas românticas, por fazê-lo repudiar poemas, versos e frases apaixonadas.
Os livros de amor que antes devorava com tanto afinco? Esquecidos e empoeirados em uma estante solitária.
O tumblr, as redes sociais e até mesmo o blog que mantinha? O que não fora deletado, não era mais usado.

E a culpa era dela.
Culpa sim.
Culpa dele por afastá-la, por dizer: Chega. E por brigar consigo mesmo todos os dias, evitando correr atrás dela e dizer: Volta.
Quando isso era tudo que queria.

Culpa dela.
Culpa dele por bloqueá-la de tudo menos da própria mente. Por pesar os pontos negativos e acabar sempre voltando à saudade.

Culpa dela.
Por fazê-lo amá-la tanto.

terça-feira, 17 de março de 2015

Forrest



Me deixo levar pelo momento, sorrio, canto e bebo. Horas depois, encosto a cabeça no braço dobrado, apoiando o cotovelo contra o vidro do carro, subo os pés sem sapatos para o banco e deixo os joelhos próximos ao meu rosto, me encolho enquanto você dirige sem muito cuidado, rumando para nenhum lugar em especial, fugindo de tudo aquilo que um dia amamos e juramos proteger.

Seria essa a juventude? Enfrentar dores e problemas adultos com uma força que fingimos ter?

Suspiro, a música baixinha e tristonha, meus olhos se encaminham pra você, frustrado, o queixo um pouco quadrado e a boca fina tentando manter um semblante pacato mesmo quando uma tempestade explode em seu interior, devastando seus sentidos e derrubando tudo o que seus sonhos haviam construído. Te vejo arrepiar os cabelos e novamente bufar, -O que acha de voltar? - apesar da música, ouço a frase com clareza e exatidão.

-Pra onde? - respondo, imediatamente mudando a postura, desvio o olhar do seu que insiste em me prender e abaixo o vidro do carro, a paisagem lá fora parece a mesma, o que faz sentido, não estamos tão longe de nosso local de principio.- Pra casa? - respiro fundo e fecho os olhos, abrindo o vidro e deixando o vento gelado nos invadir. - Eu topo.


Run, baby, RUN!


"Love can be so strange
Don't it amaze you?
Every time you give yourself away
It comes back to haunt you
Love's an elusive charm and it can be painful
To understand this crazy world
But you're not gonna crack
No, you're never gonna crack"
--
Rodou a chave e pôs a mão no trinco, se certificando de que a porta estava trancada, coisa que fazia duas ou três vezes toda vez que saia ou que chegava em casa. Amélia deixou os cabelos cacheados presos em um coque e colocou um par de óculos escuros estilo aviador sob o cano fino do nariz, tentando inutilmente cobrir as olheiras que a noite anterior lhe rendera.
"Maldito World of Warcraft", diria, se alguém lhe perguntasse. E sabia em seu intimo que se fosse pega por si mesma pensando nos acontecimentos que a tinham feito chorar... Bem, diria que a culpa era do maldito WOW e seguiria em frente.
Houve um tempo que se permitira sentir da forma mais pura, mais sensível e dolorosa. E coincidentemente essa época havia sido uma das piores -senão a pior-, de toda sua vida. Então decidira que ligaria o belo e simples "Foda-se pra tudo", isso, até se envolver de brincadeira com um calouro da faculdade, mais velho do que ela dois anos e com um senso de liberdade e animação inigualáveis, um notório rebelde sem causa.
Ele, de cabelos negros cacheados e um pequeno resquício de barba para ser feita, andar decidido e orgulhoso, sorriso sacana no canto dos lábios e uma voz aveludada que a deixava arrepiada.
Ele, que tinha mais duas namoradas em outras turmas e garotas suspirando, escondidas pelas vielas das ruas. 
"Um grande bosta", como pensara na primeira vez que o vira, coisa que mudara aos poucos, com conversas trocadas por mensagens, ligações, beijos e em seguida, lençóis, voltando ao fim, para a mesma classificação inicial, um grande bosta.
E ainda assim se permitira chorar por ele, como era boba! O simples pensamento, a mais tranquila lembrança que tinha dele, fazia seu estômago se revirar dentro de si.
Estava farta. O foda-se ainda estava ligado e não se daria ao luxo de sofrer por quem não merecia isso, estava decidida, se gostar resultava naquilo, bem, não gostaria mais.

Chi al cuore colpirà


Mara chegou depressa, as mãos suavam e as secava com certa urgência nas coxas cobertas pelo jeans claro. - Não me venha com "Tudo bem?", ok? - se apressou em alertar, sentou e cruzou as pernas, descruzando e novamente as cruzando em seguida. Os olhos passeavam pela sala sem realmente prestar atenção aos detalhes ali presentes, então caminhavam para as unhas bem feitas e compridas com alguns desenhos coloridos e novamente para o celular que agora, colocara acima das pernas. - Sabe muito bem que estaria bem, se estivesse transando.

-Claro, claro. Tudo pra você se resume a sexo, por que não muda um pouco o disco, Samara? - bocejou, seria uma longa espera até o psicólogo se livrar do paciente 33B com suas camisas estranhas de bandas desconhecidas e cabelos despenteados. Uma longa espera ao lado da ninfomaníaca mais egoísta e convencida que já tivera o desprazer de conhecer, coincidentemente, se tornara sua amiga de clínica depois de algumas consultas forçadas com o doutor Falsete.

-Mara, já disse pra me chamar de Mara. -corrigiu, Amélia sabia que ela não era realmente uma ninfo, nem tanto egoísta e talvez, de alguma forma, algo dentro dela não fosse de fato convencido. Mas, em alguns momentos era simplesmente difícil ficar perto dela. Aquela quinta-feira estava recheada deles. -O que aconteceu com seu cabelo?

Bufou, ótimo, era realmente ótimo ser lembrada de que a chuva piorara o que naturalmente já era ruim. -Choveu. -Não daria mais pano a conversa, não queria ser lembrada de mais todo o resto que lhe rendia uma magnifica baixo-estima. Olhou para o lado e crispou os olhos, como de costume, Samara tinha os longos cabelos castanhos e lisos com alguns cachos nas pontas, soltos. Os seios fartos, pele branquinha e era magra. Era de fato linda, não linda do tipo atriz de novela mas linda do tipo "eu queria ser um pouco mais como ela", não fosse tão mesquinha e chata.
Foi aí que notou um detalhe, um pequeno arranhão na bochecha esquerda e logo abaixo uma marca roxa. - O que aconteceu com seu queixo?

- Cai. - Obviamente uma mentira, Amélia deu de ombros, voltou sua atenção para as próprias mãos e bocejou, quase saltando tamanha felicidade ao ver a porta do consultório se abrir e o 33B sair, lhe dando uma longa olhada e um leve aceno de despedida, desviou o olhar, outro irritante em tão pouco tempo em seu circulo de conhecidos? Não, não precisava disso. - Quem é o gato?

Preferiu ignorar a pergunta como se nem mesmo a tivesse ouvido, se a Miss Afrodite o queria, que fosse atrás, se o fizesse se mudar seria ainda melhor. Entrou depressa, passando pela porta e batendo o cotovelo ali, com uma pequena careta fechou a porta e se jogou na poltrona confortável. - Doc, o senhor precisa me dar uma ajuda de verdade. - o encarou séria enquanto cruzava os braços. - Do jeito que vai, não dá.


Don't cry out


"I was pretending
Your secret kiss of confidence
Was my escape
The perfect game to play"

---
Não por questões direcionadas à milhares de diferentes solidões,
Talvez por egoísmos, por insanidades sãs,
Acontece que por si só já se sentia colorida o suficiente.
O que lhe faltava realmente, era "verdade".

Caminhou ouvindo o som dos próprios passos, a rua estava quieta o que de certa forma a deixava tranquila. O som dos sapatos negros de salto grosso ecoando ao tocarem discretos os polígonos ainda úmidos pela chuva e o guarda-chuva vermelho aberto sob um dos ombros. - Bang, bang. - murmurou sozinha, apontando para o nada à sua frente, então sorriu de lado. 
 Atirava no que lhe era esperado, no que aguardava e desejava de si mesma. Do que a vida lhe traria minutos a seguir, momentos, dores, sorrisos, isso pouco lhe importava. Aquela sensação de nada infinito, de um vazio profundo, não seria nomeado de solidão.
Amélia suspirou ao ver um casal virar a esquina alguns metros a frente, adotando imediatamente uma postura mais dura, estufou o peito e ergueu o queixo, cerrou um dos punhos e o escondeu no bolso da blusa, agradecendo mentalmente o capuz do moletom e crispando os lábios. Outro casal, outra vez os sorrisos bobos e os olhares perdidos, as palavras melosas e declarações estúpidas.
Outra vez a exasperada e exagerada demonstração de sentimentos dos quais não precisava.

Apertou o passo, passaria por eles o mais depressa possível e depois de cruzar aquela esquina, mais um conjunto de nove ou dez passos e estaria na portaria do prédio. Era fácil, não precisava se irritar. Não iria se irritar.

Pouco importava todo o resto, estaria segura em sua casa com seu cachorro e suas plantas. Nada poderia atingi-la ali, nem mesmo a vizinha religiosa que teimava em lhe ofender de todas as formas possíveis, ou o cara do andar de cima que parecia dançar sapateado acima de seu quarto.
Não.
Lá estaria segura de todo o mundo lá fora.
E refém apenas de si mesma.
Coisa que, assim como a solidão, Amélia não queria e por vontade própria não iria assumir.
---


sexta-feira, 13 de março de 2015

O noivado do Sepulcro - Preferidos/Indicação


Vai alta a lua! na mansão da morte 

Já meia-noite com vagar soou; 
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte 
Só tem descanso quem ali baixou. 

Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe 
Funérea campa com fragor rangeu; 
Branco fantasma semelhante a um monge, 
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu. 

Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste 
Campeia a lua com sinistra luz; 
O vento geme no feral cipreste, 
O mocho pia na marmórea cruz. 

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto 
Olhou em roda... não achou ninguém... 
Por entre as campas, arrastando o manto, 
Com lentos passos caminhou além. 

Chegando perto duma cruz alçada, 
Que entre ciprestes alvejava ao fim, 
Parou, sentou-se e com a voz magoada 
Os ecos tristes acordou assim: 

"Mulher formosa, que adorei na vida, 
"E que na tumba não cessei d'amar, 
"Por que atraiçoas, desleal, mentida, 
"O amor eterno que te ouvi jurar? 

"Amor! engano que na campa finda, 
"Que a morte despe da ilusão falaz: 
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda 
"Do pobre morto que na terra jaz? 

"Abandonado neste chão repousa 
"Há já três dias, e não vens aqui... 
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa 
"Sobre este peito que bateu por ti! 

"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio, 
A fronte exausta lhe pendeu na mão, 
E entre soluços arrancou do seio 
Fundo suspiro de cruel paixão. 

"Talvez que rindo dos protestos nossos, 
"Gozes com outro d'infernal prazer; 
"E o olvido cobrirá meus ossos 
"Na fria terra sem vingança ter! 

- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda, 
Responde um eco suspirando além... 
- "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda 
Formosa virgem que em seus braços tem. 

Cobrem-lhe as formas divinas, airosas, 
Longas roupagens de nevada cor; 
Singela c'roa de virgínias rosas 
Lhe cerca a fronte dum mortal palor. 

"Não, não perdeste meu amor jurado: 
"Vês este peito? reina a morte aqui... 
"É já sem forças, ai de mim, gelado, 
"Mas inda pulsa com amor por ti. 

"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo 
"Da sepultura, sucumbindo à dor: 
"Deixei a vida... que importava o mundo, 
"O mundo em trevas sem a luz do amor? 

"Saudosa ao longe vês no céu a lua? 
- "Oh vejo sim... recordação fatal! 
- "Foi à luz dela que jurei ser tua 
"Durante a vida, e na mansão final. 

"Oh vem! se nunca te cingi ao peito, 
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim... 
"Quero o repouso de teu frio leito, 
"Quero-te unido para sempre a mim!" 

E ao som dos pios do cantor funéreo, 
E à luz da lua de sinistro alvor, 
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério 
Foi celebrado, d'infeliz amor. 

Quando risonho despontava o dia, 
Já desse drama nada havia então, 
Mais que uma tumba funeral vazia, 
Quebrada a lousa por ignota mão. 

Porém mais tarde, quando foi volvido 
Das sepulturas o gelado pó, 
Dois esqueletos, um ao outro unido, 
Foram achados num sepulcro só. 



Soares de Passos.
--
Não sei porque gosto tanto disso, talvez pela morbidez e pelo sentimento contido em cada linha, talvez por gostar de coisas mais sombrias e fúnebres. Não sei, só sei que gosto.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Queens

E aqui está o meu elogio
Envolto por véus de ternura e submerso em memórias.
Aqui, está o meu privilégio,
Minha tontura e até mesmo arrependimentos.
Nas mãos das lembranças distantes que me embalam.

Essa névoa que flutua entre as frases,
Que cria crateras em momentos cruciais,
Me diga, você também pode vê-la? Pode senti-la?

Acontece que isso há muito se perdeu.
Os sentimentos murcharam como as flores,
Sorrisos findaram e até mesmo os vínculos
Que outrora pareceram tão fortes
Agora jazem no esquecimento.

Aqui, translúcida em minhas mãos
Sucumbe nossa amizade
Pernoita e até mesmo dança, morrendo a cada instante.
E assim cede ao negrume vazio

segunda-feira, 9 de março de 2015

Amores Imaginários: BANG BANG

Primeiro, acuso a solidão.
Dou-lhe uns tapas e o título de falsa, cruel e sanguinária. Para em seguida abraçá-la forte, tão forte que meus braços chegam a doer e enquanto soluço em seu ombro, me convenço de que ela é sem dúvidas a melhor companhia.

Depois, culpo a ilusão.
Aponto o indicador sem medo e lanço algumas palavras ferinas ao ar, a golpeio com força. Quebrada em pedaços por lágrimas e fúria, ela já não cumpre mais a função de me fazer crer no desconhecido que ocupa meu altar.

Em seguida, me desfaço das lembranças.
Desfaço. Palavra estranha. Não remete a total verdade dos fatos. Nunca se desfaz por completo de algo, depois que se conhece, que se guarda, se pensa e se sente... De certa forma, as coisas nunca se vão.
Mas desfaço. O melhor que posso. Jogo coisas que na época, iludida por momentos, julguei serem especiais. Rasgo alguns bilhetes, talvez um poema que me recorde qualquer detalhe seu.
Evito músicas que ouvíamos ou falávamos sobre, evito filmes, séries, livros e até mesmo comidas. Evito seu cheiro, evito aquela blusa ou vestido que você anteriormente elogiou, e evito até mesmo o eu que de certa forma te amou.

Por fim, me agarro a saudade.
Esqueço da fúria que motivou as acusações, a culpa e o esquecimento. Volto passos, senão estradas completas em uma regressão que trará apenas a dor e me pego pensando no seu sorriso, nas palavras mais gentis e doces, nos instantes que mesmo passageiros e inusitados, me fizeram encantar por você.
Então acordo, caio em mim. Um baque surdo e dolorido da realidade que me afronta e me faz recuar até o travesseiro amigo.

Não se ama o desconhecido.
Se encanta pela liberdade, pela paixão e pelos gestos mais sutis que ao outro se mostra.
Não se ama o desconhecido.
Se deixa levar pelo que julga conhecer e imagina, vivencia sozinho o que para si, poderia ser a dois.
Não se ama o desconhecido.
Não antes que se conheça a si mesmo.
--
Motivado por: Amores Imaginários, ao som de: Dalida - Bang Bang.

domingo, 8 de março de 2015

Toc - Toc

"Toc-toc, deixe-me entrar,
Deixe-me ser seu segredo.
Toc-toc, deixe-me entrar,
Deixe-me ser seu segredo."
Labyrinth - Oomph!
É noite, algumas nuvens falhadas pintam o céu como pinceladas irregulares sob uma tela já manchada de tinta escura fresca. O cheiro de damas-da-noite misturado com o aroma natural e adocicado da caneca vazia de chá próxima à minha cabeça é enjoativo e a janela aberta denúncia outra madrugada quente na qual o sono novamente se faz ausente.

Me viro na cama duas, senão três vezes, o fino lençol de cor clara já praticamente ao chão. Levo o braço direito até os olhos e o deixo repousando ali. Um sorriso miúdo se risca no meus lábios ao ouvir a cantoria se iniciando.

Sento-me na cama depressa e olho por cima do ombro para o relógio solitário no canto do quarto, três da manhã. Ouço a voz entoar um som mais grave, mais próximo juntamente com passos leves e apressados, em seguida, novamente se afastando.

Estava caminhando pelo corredor.

Assim como fazia em toda santa noite.

Suspiro, era a mesma rotina, o mesmo ciclo sem fim. Uma voz feminina baixinha e doce começava murmurando o que parecia uma cantiga de ninar, caminhava cerca de cinco vezes, indo e voltando pelo corredor, a voz alternando entre o alto e o baixo e ao chegar em frente a porta do meu quarto, ela gritava em agonia e sua voz se tornava um misto de humano e animal, grossa e monstruosa.

Se eu abrisse a porta antes que a sequência de caminhadas terminasse, nada veria no corredor comprido, e ao fechar a porta, todos os quadros, perfumes e qualquer coisa em cima de mesas ou afins dentro de meu aposento, viriam ao chão.

Se eu abrisse a porta e saisse do quarto durante as caminhadas, todas as portas de todos os cômodos, móveis e inclusive também as janelas, abririam e fechariam, batendo com força até o amanhecer.

Caso eu, por ventura ou por insanidade, gritasse e interrompesse a cantoria, todos os vidros e espelhos se quebrariam e se tentasse ofender a autora de tamanho absurdo, todas as luzes se apagariam e nem mesmo velas poderiam ser acesas. Cada chama, cada fiasco de luz, se apagaria instantaneamente ao ser aceso.

Mas havia uma coisa que não tentara até então, abrir a porta no momento exato do grito, quando a criatura se mostrava mais hostil. Oras, essa é a minha casa e não pretendo perdê-la para absolutamente nada, seja lá o que for isso.

Arrepio meu cabelo castanho escuro e levanto temeroso, tomando fôlego. Cada passo dado a frente faz meu coração bater como um louco no peito e minhas mãos suarem frias, mas estou decidido, são noites demais temendo o desconhecido que teima em me atormentar.

Toco a maçaneta e deixo a mão parada ali, segurando-a, ela parece úmida entre meus dedos trêmulos. Engulo em seco, a cantoria está na segunda caminhada. Respiro fundo, o ar a minha volta pesado, meus olhos lacrimejando.

Terceira caminhada.

O som se torna mais próximo, posso ver a sombra de alguém se movendo...

Amour

“Eu quero saborear você. Eu quero sentir você. Eu quero tocar você
Profundamente na Intimidade. Mostrar a você... Que não é tão ruim...
Permita-se ser selvagem”
Jasmine T. -Let yourself GO wild
----------
“O absinto é o afrodisíaco do ego. A fada que nele existe, quer sua alma.”
Bram Stoker 
------------------------------------------------

---
“-Dessa maneira, lhe asseguro meu caro companheiro de que sou de todo livre desse ideal desnecessário ou se preferir nomeá-lo, amor. Agora vamos, dê-me aqui mais um gole disso e prosseguimos nossa divagação.”
---------
Já se passavam das oito quando finalmente me pus de pé, sentia um gosto amargo na língua e uma secura própria de ressaca na garganta. Tentei lembrar do que fizera noite passada mas o borrão em minha mente parecia cada vez maior. Meus olhos ardiam e meus sapatos estavam tremendamente enlameados, joelhos e cotovelos doíam como se tivesse me metido em uma briga... Logo, dei o assunto por morto e fui cuidar de meus afazeres matinais, afinal não seria nem a primeira nem a última vez que brigaria em um bar.
Minha acomodação era simples, uma pequena cama de madeira próxima a um pequeno criado mudo onde jazia meu relógio de bolso e meu incansável companheiro de viagens, meu pequeno diário de capa fosca e conteúdo deveras problemático.

Não haviam adornos, era um quarto simples de pensão e apesar de já estar ali a duas semanas, ele parecia ter sido recém adquirido. Não deixei a camareira entrar desde que me acomodei no aposento e acredito que por isso as pessoas desse lugar me fitem de maneira tão penetrante e curiosa, acho isso desnecessário.
Levantei enquanto desabotoava as calças (que não estavam de forma alguma diferentes de meus sapatos), arranquei a camisa que mais parecia uma mortalha em farrapos do que uma camisa de linho branca e caminhei até a tina, não importava que a água fosse fria, longe disso, bastava lavar e tirar toda a terra de mim.
Fui tomado por um estupor momentâneo enquanto me deixei afundar na água gélida, flashs me roubaram a visão e em um salto me pus de pé, tropeçando em minhas próprias pernas úmidas enquanto meu corpo nu se encolhia de frio, corri até o baú e vesti a primeira coisa que encontrei, não havia tempo a perder, caso contrário toda minha busca pela besta assassina não valeria a pena.

--------------------------------------
Cheguei em Silverts por volta de meio dia, era uma cidade pequena onde todos se conheciam. Portando um grande bosque ao seu redor e belas colinas verdes em sua totalidade, as pessoas trajavam-se de maneira simples e sem muitos adornos, vestidos longos de cores claras e opacas sem corset’s nas damas e nada de perucas e saltos nos homens, e assim pela primeira vez em muito tempo me senti a vontade.

Havia passado uma temporada na Europa antes de embarcar em um navio para a América, que diziam as más línguas ainda estava no pontapé inicial de sua colonização, não que aquilo de fato me importasse, estava ali por um único objetivo, caçar uma criatura desgraçada, um monstro que destruía tudo que via a sua frente, se nutrindo de vida e destroçando sonhos dos pobres humanos comuns.
Ela se erguia durante a noite, isso era claro, prata a feria e seria impossível distingui-la de um mortal comum, não fosse o cheiro. O único problema de tudo isso, era seguir seu rastro e conseguir pistas concretas de sua localização, como diabos alguém conseguia sumir daquela maneira?

O cheiro dela se mesclava com o de milhares de pessoas, animais e até mesmo alimentos. Parecia sem odor, parecia ser feita de oxigênio e quando mais se tornava necessário ela se desfazia no ar e desaparecia de vez, e para ser sincero já estava me cansando daquele maldito jogo de gato e rato.
A primeira visão que tive da pequena cidade me foi de fato, aterradora. Dois sujeitos pareciam disputar um duelo em frente de uma taberna destruída pelos golpes do tempo. O homem que manejava minha carruagem murmurou algo como “Isso é comum, sr.”, e eu fingi por um momento ignorar o que acontecia.
Isso até que o mais forte deles, jogasse o outro contra minha cabina. Senti um forte solavanco conforme o velho corpulento de barba a fazer enfiava a cabeça na pequena janela pomposa da câmara, gritamos juntos e o cavalo se agitou a frente parando com força e inesperadamente na estrada.

O rosto vermelho e inchado do homem que agora invadia meu território parecia contorcer-se de dor, meu cocheiro desceu de seu assento gritando em plenos pulmões, maldições foram dadas ao sujeito e mesmo assim, ambos, os bêbados teimavam em discutir.
E foi dessa maneira que fiquei conhecido na cidade, apelidado carinhosamente de “problema” pela milícia que julgou o novato como culpado. Afinal se eu não estivesse ali Ralph e Edward não teriam batido no misterioso cocheiro e eles não teriam tantos prejuízos posteriormente.
Sendo assim, acabamos todos em uma sala empoeirada encurralados pela “autoridade” local, a filha do banqueiro mais rico, Bonnie Belov. Uma tremenda ruiva de seios fartos e cabelos encaracolados, olhos verdes e uma péssima personalidade portando um ótimo senso de perigo.

De supetão me perguntou o que fazia na cidade e qual o motivo real de minha repentina visita, tentei de todas as formas explicar que era um viajante, um dito nômade mas, ela não pareceu acreditar e teve a audácia de parafrasear “que um homem de estudos como eu aparentava ser, não seria um nômade sujo ou mesmo um viajante sem rumo”, quem diabos era aquela mulher e que direito tinha sobre meu destino e meus motivos? Oras.

Fiquei sob a vigia da autoridade local por horas até que por falta de provas concretas, ser  finalmente dispensado. Meus olhos pesavam sob as pupilas cansadas e precisava urgentemente de um banho. O único estabelecimento que nutria de vagas disponíveis me cobrou quase o fígado pela estadia e finalmente ao entardecer estava jogado de forma descuidada sobre um colchão gasto porém macio e de barriga cheia.

O sol se pôs lentamente no horizonte longínquo, parecia tremeluzir perante a tristeza que meu coração por si só carregava, oh fardo desgraçado! Que abençoados sejam meus sonhos e que na luz da manhã que ainda tarda a nascer, eu possa me sentir em paz comigo mesmo!
Senti meu corpo estremecer perante os espasmos de prazer que o conforto agora me provinha, fechei meus olhos e em um suspiro exausto, deixei-me adormecer. O sono viera depressa e consigo vieram também os pesadelos, imagens desconexas e sem aparente sentido que me levavam a apenas uma direção, a morte.

 Lembro-me ainda de ouvir gritos e sentir um gosto amargo nos lábios, mas da madrugada atormentada apenas o desespero me sobrou. O dia veio, como sempre há de vir e ir, seguindo seu curso natural.
E com a luz da manhã foi visível aos olhos, toda a destruição que a noite sepulcral trouxera.
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Insólita Melodia

"Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma risada!"
Friedrich Nietzsche
--
-E a que motivos devo eu, creditar sua visita? - Sentou-se pouco confortável no sofá defronte ao homem que tanto lhe causara suspiros mas que atualmente não lhe dava mais do que asco. Agora, analisando o rosto cansado com olheiras fundas e diversas rugas de expressão, os cabelos antes tão charmosos e pomposos já dando sinais da velhice e um expesso bigode cobrindo a boca que antes, com tanta volúpia fora beijada... O tempo havia passado para ambos e infelizmente, ele não amenizara nem um pouco os acontecimentos passados.

-Deveria haver um motivo para visitá-la, Natasha? - os olhos, ela notou, continuavam os mesmos. Havia uma profundidade, um mistério a ser resolvido no brilho dos olhos verdes dele. Lembrava-se de quando ainda muito moça perdia-se em suas orbes, se imaginando correndo em um bosque longuínquo e vazio onde a luz do sol não penetrava por dentre as densas folhas de árvores sombrias. Os olhos de Lucian apenas lhe traziam a velha saudade de algo que nunca fora seu. -Sempre fomos amigos e apesar de termos nos distanciado, sempre tive para comigo que nossa amizade não foi afetada pelos algares de nossos destinos.

-Amigos... -sibilou a palavra com os lábios, estalando a língua no céu da boca em seguida. Amigos? Não. Era audácia demais vir até sua casa e lhe presentear com aqueles espinhos depois de tê-la feito perder tudo. -Amigos, você diz. -repetiu, a amargura presente no tom de voz, engoliu em seco e levantou-se, caminhando nervosamente pela sala, sem se importar com o decoro ou quaisquer regras que a sociedade havia imposto entre eles. - Desconhecidos, digo eu. Trate-me pelo sobrenome que agora uso, Volkov, e diga qual razão o traz aqui, ou serei forçada a clamar por meus criados, posso lhe garantir que a pouca simpatia que ainda lhe apresento não será uma dádiva vinda deles.

-Ora... -riu de lado, o mesmo sorriso no canto dos lábios que antigamente lhe fizera suspirar. Viu-o passando as mãos suadas nos cabelos, jogando-os para trás e então, erguendo o corpo sob o apoio de uma bengala, - Deixe disso, temos uma verdadeira história interligada, não poderia ao menos me servir um chá antes que eu sem querer, jogando uma ou outra palavra ao ar, acabe com o mistério que cerca seu destino e destrua seu palacete nessa cidadezinha que a venera?

"MR." Parte 3: Mr. Frog


Weber, weber.
Creg era legal, digo, em sua maneira taciturna e pouco sociável, ele realmente era legal. Gostava dele.
Em uma multidão de babacas que só serviriam como isca e como fonte de estudos, Creg era o que em uma rara ocasião do destino, eu poderia chamar de amigo.
Com seus longos cabelos negros desgrenhados e seus olhos dourados, além da pele estupidamente branca... Bem, é de se esperar que ele fizesse sucesso com as garotas, principalmente porque não era exatamente magricela. Mas, com treze anos sendo um nerd com tendencias fortes a psicopatia e a impactante euforia, Creg era tão ignorado pelo mundo normal quanto eu.
Por isso, quando criamos nosso pequeno clube do Halloween onde nos demos apelidos (Creg e Frog, respectivamente), e a partir disso passamos todos os fins de tarde planejamento como torturar, matar e aterrorizar boa parte da cidade, bem, eu não pude simplesmente acreditar quando ele surgiu me dizendo que poderia virar um lobo. Somente ri e concordei, dizendo que quando ele menos esperasse, minhas asas de inncubus surgiriam e eu sairia por ai deflorando virgens.
Ele então me desafiou, Mr. Creg era um pouco depressivo e tinha um humor meio bosta e de vez em quando aguentar seus surtos suicidas era realmente chato. Mas ele me desafiou e eu não sou do tipo de dizer não à um desafio, principalmente se ele vier do meu melhor amigo, entendem?
Pois bem, ele disse: "Hoy, Frog, vamos fazer o seguinte. Sua babá (Nanny), virá daqui dez minutos, nesse meio tempo, quero total privacidade no seu quarto, entendeu? Eu te desafio a se esconder no armário enquanto eu estraçalho sua babá com os dentes e unhas. Isso mesmo, sem facas, somente mano a mano. Se eu conseguir, você me espera dormir e enfia aquele canivete de prata do seu pai em mim, sem dó. Se eu não conseguir... Bem, te dou meus quadrinhos mais raros. De qualquer forma você fica com eles, e então?"
... O resto você é bem capaz de imaginar, não é?
Entre doces ou travessuras, o intestino grosso de Nanny descendo pela garganta peluda de Creg, os gritos da vizinhança ao encontrarem o corpo inerte de Mr. Candy preso as grades do cemitério e finalmente, meu melhor amigo adormecido.
A força de ter em mãos uma arma que vai matar uma criatura, um monstro que por detrás do horror... É seu único amigo, a sensação de enfiar a lâmina na carne com toda sua força, o sangue, a transmutação...
Nada disso aconteceu.
Porque eu nunca prometi que faria toda essa merda.
Ele será Creg, eu serei Frog. Ele estará acorrentado com prata no meu porão até que a manhã seguinte venha e é bom que ele coma toda essa sujeira que fez no meu quarto, os quadrinhos são meus e ele fica me devendo quarenta pila pelo tapete manchado de sangue.
Feliz dia das bruxas, babaca.

"MR." Parte 2: Mr. Caandy


Com sua máscara estúpida de palhaço deformado, seus olhos esbugalhados e careca proposital, Mr. Candy saiu para brincar. Era Halloween e o cheiro insuportável de álcool se misturava com o cheiro podre daquela fantasia ridícula.
Ora, pois ele sabia o quão ridículo estava. Com calças de boca larga e coladas a cintura, tão negra quanto seus olhos e uma camisa verde musgo com detalhes em laranja onde nada podia ser lido ou mesmo identificado. Aquilo nem mesmo poderia ser chamado de fantasia, mas, bem, por hora serviria.
Tudo o que precisava era chegar ao cemitério municipal, o que, era a duas quadras de sua casa. Vira a doce Nanny bêbada, como de costume, arrastando o pequeno Andy pela mão, este com um sorriso estampado de orelha a orelha e um saco de doces pendendo debilmente sob a saia jeans curta da loira. Nanny viria até minha casa assim que deixasse o irmão em segurança com os pais, ela não perderia uns bons trocados com a desculpa idiota de cuidar de um garoto de treze anos enquanto agarrava o namorado bombado no sofá de couro aqui de casa.
Sim, isso acontece todos os anos, sim, estou farto disso. Bem, Mr. Candy era o namorado bombado, o careca vestido de palhaço com uma regata idiota de academia. Ele seguiu em passos rápidos, quase correndo entre um salto e outro para finalmente se empoleirar no portão de ferro do cemitério e saltá-lo.
Levou a garrafa de cerveja aos lábios e procurou com olhos ágeis a lápide escolhida. Sorriu de lado, dançou entre rodopios na névoa espessa da noite e em passos fundos na terra úmida, sentou-se acima da quina de cerâmica. - Qual é, você queria que eu viesse, não queria? Porque não cumpre sua promessa e aparece pra me dar um alô? Vamos resolver isso de uma vez por todas, Bo. - Bebeu outro gole, o álcool descendo como fogo em sua garganta, rasgando no processo. Emitiu um pequeno urro e derramou o líquido com cuidado na terra fresca, vendo-a se revirar minimamente.
Não adiantava, somente a meia-noite teria sua recompensa. Somente a meia-noite, poderia se vingar como o esperado.
Não me importo com o que vai acontecer com ele mas, de verdade, o quão estúpido alguém pode ser? Mr. Candy deveria saber que não se deve brincar com os mortos, as vezes eles simplesmente se negam a aceitar as coisas.
É, acho que dessa vez Nanny ficará sozinha.

"MR." Parte 1: Mr. Crreeeg


Ele lambia.
Podia ouvir o som da língua fria e úmida dele deslizando pela pele seca, causando um som áspero que me causava arrepios, infelizmente não era dos bons.
Não podia vê-lo, a escuridão dentro do meu armário era o suficiente para dar um ênfase especial no quão uma situação podia passar de péssima para totalmente ferrada. Quem disse que lei de Murphy era uma enganação mesmo? Lembre-se, se algo está ruim, se começou ruim... Cara, vai ficar pior, estupidamente pior se quer saber.
Conseguia ouvir o gotejar grotesco conforme o sangue escorria do que antes era a minha babá -e agora não passava de um monte de carne em retalhos, fatiada como um bife a ser cozinhado, mas sendo apreciada de uma forma mais refinada, crua-, nunca pensei que houvesse tanto sangue em um ser humano, de verdade, quando a poça escorreu pela mesa e chegou até o tapete azul marinho do meu quarto, caramba, eu podia até mesmo sentir o cheiro!
Nos primeiros momentos meu estômago se revirava, o cheiro metálico e o gotejar, unidos em um só, o som da carne sendo rasgada e dos grunhidos ecoavam pelo ar em uma sinfonia fúnebre de desespero. Meu coração palpitava no peito, como se dançasse, como se pela primeira vez em toda a minha vida, ele batesse conforme o ordenado.
Era assustador.
E ao mesmo tempo, delicioso.
Digo, não é como se antes tivesse sentido tantas coisas ao mesmo tempo. Adrenalina, temor, suspense, medo... Horror, realização! Sentia a minha vida em minhas mãos, sabia que a qualquer momento ele me encontraria. Era impossível que ele, tendo todos os sentidos apurados como eu sabia que tinha, como deveria ter... Não ouvisse minha respiração exasperada, arfante ou o retumbar do meu peito vacilante.
Era impossível.
Ele sabia que eu estava lá, escondido.
O tempo todo ele soube.
Afinal de contas, fora eu quem o havia chamado para brincar com a doce Nanny.

Runing away


Vá embora. - repito sozinha, a bochecha contra o travesseiro de fronha verde clara, o corpo nu, omitido pelo cobertor escuro. - Vá embora. -O mantra se repete, minha voz soa rouca e meus olhos estão úmidos, bocejo longamente e então me viro de barriga pra cima, encaro o teto branco acima de mim. - Quero ir pra casa. - completo, sabendo estar em casa. Sabendo estar sozinha, mesmo acompanhada.
Olho para o lado, a cômoda branca e mogno empoeirada e abarrotada de roupas saindo das gavetas mal arrumadas, me estico um pouco e pego o celular. Treze horas, uma da tarde e tudo o que consigo pensar é em como acabei assim, como me perdi de tal forma?
Bocejo novamente, me sento na cama e jogo o cobertor pra longe de mim, salto e arrepio os cabelos que nessa altura do campeonato seguem até meus ombros, diferentes de sempre compridos como sempre usara na infância. Visto uma calcinha qualquer que encontro na segunda gaveta e uma camiseta velha de alguma banda que mal me serve mais.
Quero fugir.
Fugir de mim mesma, da realidade que me prende. Do velho senso de beleza inalcançável, de todos aqueles que acham que me conhecem, dos que não me conhecem e principalmente daqueles que me conhecem de verdade.
Quero fugir o mais rápido possível.
Fugir de toda a responsabilidade que sequer me pertence, dar o fora desse destino errado que parece ser o meu.
Não consigo fazer isso, ser essa garota, essa que todos querem que eu seja, que esperam que seja. Não consigo atender essas expectativas que colocam em mim e tampouco me jogar de cabeça em algo que eu queria.
Isso porque tudo o que eu quero de verdade, é fugir.

Fugir da vida, fugir da estrada, fugir de tudo, fugir do nada.
É assim que se caracteriza a vida, a consciência?
Foda-se, só... Foda-se.

Caminho descalça até a cozinha e abro a geladeira, tudo era organizado ali, naquela casa tudo tinha ordem, seu devido lugar e função.
Tudo.
Menos eu.

GO

O quão difícil as coisas ainda podem ficar?
O quanto nós ainda pretendemos piorar?
Hey, vamos dar um pause, um pequeno stop
Dançar em slow motion, rebobinar a fita
Antes que seja tarde de mais, sentir a vida.

Não nos coloque num pedestal, não me idolatre.
Não espere que eu faça isso por você.
Quando nada se conhece e se finge, se nutre,
A verdade não mais ilude, ela só... Coexiste
Com a natureza destrutiva e solitária do vai e vêm.

Sozinhos,
Afinal de contas estamos todos fugindo.