domingo, 26 de abril de 2015

Solitude

Da macabra solidão exasperada e cruel inércia aguardada, jaz na terra um espirito inquieto, brincalhão, traiçoeiro e entediado. 
Ciente de sua situação ele revira algumas folhas secas da terra com um leve sopro de seus lábios, fazendo rodopiar a brisa e elevar a névoa. Pula e dança, correndo entre lápides desconhecidas de dramas há muito esquecidos, ignorando o orvalho e a umidade da terra que já não pode lhe ferir, ignorando o canto arrepiante das corujas e os demais perigos de aventurar-se pelo mundo dos vivos.

Caminha além. Flutua, sem pés ou sapatos, roupas ou adereços.
Apenas o é, e como o ser que nada é, se abstém de pensamentos, sentidos e até mesmo sentimentos. Se abstém do que era, apenas observa com tranquilidade um leve resquício do que um dia lhe pertencera.
Do que um dia, fora vida.


Em uma fonte suja que sobe pela terra em espiral como uma taça, ornada por folhas talhadas com raízes e espinhos que se confundem até o topo largo e fundo, cheia até a boca com água da chuva, escura, negra, tão vazia enquanto cheia, se vê refletido.
O que era aquele reflexo? O que um dia fora? Corre a ponta dos dedos sob a água flácida, tumultuando-a com o leve roçar, ela o sente ali, ele não a sente.

E novamente caminha, esperando encontrar na quadra da frente ou na seguinte, alguém que lhe faça companhia.

domingo, 19 de abril de 2015

Por ter acreditado que só se vive uma vez

A busca por independência era algo que o motivava. Ora, era livre. Ou ao menos se forçava a crer nisso, e impulsionava-se a viver um dia de cada vez. Deliciava-se com suas músicas e suas paixões imaginárias, amores desconexos que jamais se concretizariam mas que perpetuavam sua mente e o faziam divagar sobre o quanto o impossível era divertido.

Amava com a mesma facilidade que trocava de camisas, e estava ciente disso. Amava como algo natural e próprio de si, só amava e isso o tornava consciente de sua inconsequência nata.

Sofria por ser solitário, sofria por não ser compreendido e por seus amores jamais serem correspondidos na mesma intensidade. 33B -sim, porque esse era o novo apelido que usaria a partir daquele momento-, acabou se decidindo por tentar mudar e isso veio unicamente pelo intermédio e manipulação da vizinha (33A), a nada passiva Amélia, que enchia sua cabeça com razões que não lhe faziam muito sentido sentir, mas que agradavam à mente que sempre padecia pelos erros do coração. Então, bem, uma tentativa não lhe faria mal, faria?

Decidiu deixar o cabelo crescer mais do que o costumeiro corte reto, deixando os cachos castanhos volumosos contrastando contra a pele branca e uma barba rala a fazer no rosto antes liso. Manteve as camisas pretas de bandas e se esforçou pra parar de fumar.

Não viveria apenas uma vez. Não viveria apenas uma vida com os mesmos erros e as mesmas consequências. Era um romântico nato e naturalmente apaixonado, mas isso não queria dizer que precisava ser idiota ou superficial.

Pagaria seus pecados e daria um jeito em suas dívidas, mas viveria. Viveria como nunca, aquele era um recomeço e mudaria com ele, era uma promessa.

Close to me?


-É estranho, -começou, bebericando do suco de maracujá gelado e batendo os dedos sob o vidro opaco do copo, - Entende o que quero dizer? É como se tudo mudasse num piscar de olhos e apesar de se sentir perdido e por vezes angustiado, é libertador.

O outro pigarreou, coçou os cabelos cacheados com a caneta e ergueu o óculos escuro que escorregava pelo cano do nariz com as costas da mão. - Soa como se estivesse apaixonada, - 33B apoiou o queixo na mão e olhou pela janela da lanchonete. - Não parece nem de longe que essa reflexão veio de uma noite de insônia.

-Pois veio, e digo mais, na manhã seguinte todo o meu mau humor havia desaparecido como num piscar de olhos. Como diria aquele professor ruivo que roubava a história dos outros bruxos em Harry Potter, isso até parece magia. -brincou, espreguiçando-se longamente e soltando os cabelos castanhos do coque frouxo, se pegou apertando-o com as mãos para dar mais volume.

-Está mais vaidosa, tem certeza de que não está apaixonada, Amélia? -O moreno deixou o indicador circular a boca da xícara de café que já havia bebido, vendo-a dispensar a ideia com um aceno de mão. -Mesmo? Então... -parou por alguns instantes até apoiar ambas as mãos na mesa como se tivesse feito uma descoberta empolgante. -Você transou.

-Ein? -precisou parar o gole de suco que estava a caminho para rir. -Então na sua infantil e machista mente, eu só posso estar feliz e plena com meu estado espiritual, a minha aura positiva e tal, se eu estiver apaixonada ou estiver transando?

-É. Funciona assim comigo. -deu de ombros, encostando-se contra a cadeira e cruzando os braços. -Quando amo tudo parece caminhar da forma correta, o romance dá errado e tudo desaba. E o sexo... Bem, sabe como é né, Mel? -gesticulou como se aquilo justificasse algo.

-Pois o senhor saiba, meu caro 33B, que eu estou bem. Mesmo estando sozinha e que isso não tem influência alguma do tal amor, sem presenças femininas ou masculinas que me despertem interesse, muito obrigada. Mas me viro muito bem do jeito que estou, se algo rolar... Rolou. Minha vaidade e minha felicidade não dependem unicamente disso.

-Claro claro, desculpe, não está mais aqui quem falou. - desculpou-se sem muito entusiasmo e colocou uma moeda sobre a mesa, girando-a entre os dedos. - Vi o GH. -comentou como se fosse uma coisa normal e rotineira mas notava-se claramente o desconforto na frase, suas sobrancelhas franzidas e os lábios apertados um contra o outro. -Ele passou por mim como se nem me conhecesse, e pensar que quase moramos juntos... É, talvez eu deva aprender mais com você sobre essa maravilhosa auto-estima e esse contentamento pessoal.

-Você precisa sair mais e beber mais suco ao invés de café, isso sim. -apontou brincando e levantando-se, -Vem, como dizia Cazuza, "O tempo não para". Depois você termina seus poemas, anda, vamos viver enquanto podemos.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Poetry


E apesar de tudo,
Gostaria de que se lembrasse
Que nós temos amor, nós temos fé
E nada vai nos derrubar.

Por mais que a estrada seja longa,
Por mais que os espinhos e as pedras nos firam,
Mesmo que derramemos mais lágrimas
do que podemos dar conta,
Nós não desistiremos.

Quero que se lembre dos sorrisos,
Das vozes em uníssono e até mesmo
das insólitas lamúrias,
Mas acima disso, quero que se lembre
De nós.
Da força da nossa união,
Do quão lindo pode ser
O ser.

Da voz rouca da liberdade
Que clama ensandecida pela verdade,
Que corre, percorre e escorre
Eis o meu alude, a minha homenagem
Ao que quem sabe um dia,
Possa ser chamado de miragem.