quinta-feira, 30 de julho de 2015

'Cause I care so much


-Me conte como é, Mel. - 33B começou enquanto apoiava a cabeça o mais confortável possível em uma das várias almofadas que enfeitavam meu sofá de couro negro e no processo derrubando algumas no chão, coisa que preferi ignorar. -Como é amar?

-Ah B, você sabe como é. -meneei com a cabeça, me dando por vencida após ouvir um suspiro vindo da parte dele. Deitei as costas no tapete e acabei usando uma almofada como travesseiro, acabei me virando em direção à janela. -Amar é se despir, desnudar.

-Tipo... Tirar a roupa e partiu cama? -Indagou jogando a franja pra trás com a mão e bocejando. -Que ousada você, Mel.

-Não B, não. -suspiro, jogando uma almofada roxa nele e rio em seguida, um riso tristonho - Não quero dizer se despir de forma tão vazia, quero dizer... Amar é se entregar, se mostrar por completo, por isso machuca tanto quando não dá certo. Quando se ama, você acaba querendo ou não, confiando no outro, se mostra por completo, se entrega de bandeja à outra pessoa porque acredita que ela te entende, que a companhia dela é essencial na sua vida e de repente você tem medo de perdê-la, de ficar sozinha, sendo que afinal de contas, ninguém é de ninguém. É... Como posso explicar? É uma sensação de posse. Você quer ser de quem ama assim como quer que ele seja seu, e quer viver todo o tipo de coisa idiota e boba ao lado do cara simplesmente porque ao lado dele, parece fazer sentido, parece tudo bom, mágico. - um suspiro e fecho os olhos, as nuvens passavam lentas no céu avermelhado das dezessete, não havia vento e sinceramente, eu não fazia a menor ideia se meu vizinho estava me entendendo. - E como é que você não sabe o que é amar? Não é você que vive apaixonado, ein cara?

-É diferente, é passageiro. São amores imaginários, a gente fica sozinho por um tempo, acha alguém bacana e mata a carência. Não é essa coisa intensa de achar que conseguiria passar o resto da vida ao lado de alguém, vai, me fala mais, tô adorando ver que você não é um iceberg como sempre diz que é.

Finalmente abro os olhos e os deixo passearem no céu azul, as cortinas azul marinho inertes a espera de qualquer brisa bem vinda, - Primeiro você se despe dos pudores, desnuda seu sorriso, deixa nu seu vocabulário inteirinho pra depois, se despir de todo seu vestuário. Calça, camiseta, meias, sapatos, calcinha, essa é a entrega do corpo, a que vem logo depois da entrega da mente, daí quando parece que tudo já foi entregue... Você entrega o seu "eu", seus medos, angústias, decepções, sua infância, sua história e principalmente, seu futuro. É a entrega da alma.

-Acho que você achou petróleo.
-Acho que encontrei o amor, B. Por mais bizarro e amedrontador que isso seja. - abracei uma almofada, me sentando em seguida. - Por isso é tão triste pensar nisso, quantas pessoas já se sentiram assim e tiveram seus corações partidos? O tempo é cruel, a vida não perdoa ninguém, por mais bonito que seja seu sentimento ou seu desejo.
-E por mais realista que seja o seu pessimismo, Mel... Sentir isso já é um grande feito, então vamos lá, não se deprima. Vamos mudar o assunto, me fale sobre aquele maravilhoso pudim que tá na geladeira.

Sorrio, é B, sentir faz parte.

Colorir-te


Há um labirinto, você sabia?
Há sim.
Há um labirinto sem começo ou fim, onde as paredes se mesclam em uma dança lenta e sensual de cores intensas que apesar da mistura, mantém suas personalidades originais intactas.

Ah, sim. Não devemos esquecer do luar e do sol que brilham em partes opostas do céu livre e repleto de tentações, onde a língua estala devagar em um momento de pura dúvida e onde os planetas se dispõem a renunciar seu direito patriarcal de líderes.

Lá existem a mais belas mentiras.
Lá existem as mais sedutoras verdades.

Não existe nascer ou morrer. 
Lá não é possível nem mesmo o existir, a que se diga o findar.
Tudo apenas o é, como sempre foi e sempre será.
Apenas as cores que se deliciam de si mesmas.
Tudo o que já existe mesmo antes do tempo, muito antes das lembranças,
Lá estará.

Can't give up

Me afogue nos teus mares
De desagrado e desapego.
Se deixe levar pelas minhas águas
De carinho e sossego.

Já me desiludi da sua ilusão,
Me iludindo de novo a cada toque,
Sentindo cada palavra na ponta da língua.

Ceder não é mais uma opção,
É rotina,
É costume.

Ceder à esse ritmo que nos embala,
Nos enlaça e nos toma,
Retoma.

Ceder aos lábios, aos braços,
Aos beijos.
Ceder ao doce delírio,
Que vindo de ti, só traz desespero.

São palavras vazias,
Imensas.
Tão cheias de nada
Quanto de tudo.

São seus atos impensados,
São meus sonhos jogados
Em olhares e sorrisos
De tantos outros abraços.

É a necessidade de mais
Quando só se poder dar 
Cada vez menos.

Diminuindo lentamente
Em uma constante queda.

Findando rapidamente
O que quer que ainda exista.

Diminuindo lentamente
Em um constante corte.

Até ceder novamente
E recomeçar o ciclo árduo
Que vocês chamam de amar.

domingo, 26 de julho de 2015

O sol não tava mais


É esse aroma entorpecente e adocicado, de gosto puramente amargo que me dopa a cada gole. É esse mesmo sabor pungente que derrete na língua e mancha os lábios, é esse mesmo odor nostálgico e sedutor que me lembra em pequenas doses de veneno o quanto seu amor pôde ser cruel.

 De repente os algores do tempo parecem não ter surtido efeito, aqui estamos nós novamente. Um de frente ao outro, tão independentes em nossas vidas, tão decadentes em nossos destinos, o café é o mesmo, nós não.
Mil coisas senão mais passam por minha mente em flash's rápidos enquanto fito seu rosto tão diferente do que outrora conheci, seus cabelos esbranquiçados, as pequenas rugas e até mesmo os olhos, tudo em você tem um brilho notável de mudança, não que isso seja ruim.
Talvez veja isso em mim também, nas unhas agora pequenas, aliança, modo de vestir e falar. Sorrio de lado, nem sei por onde começar até que finalmente você quebra o silêncio.

-Se arrepende? -O som da sua voz prossegue inalterado apesar de pouca coisa mais grave, você bebe um gole da bebida quente e deixa seu olhar se perder no vidro engordurado da janela, lá fora o tempo parece ter parado para nos assistir, não existe o menor sinal de vento, é como se a noite tivesse se congelado.

-Não sei, acho que não. E você? -Finalmente ganho sua atenção, os olhos negros lacrimejando coisa que você esconde com um pigarro, sua camisa azul parece folgada demais mas isso não te incomoda, faz parte do seu novo eu, mais desleixado, menos sério e centrado, quem diria?

-Não, acho que fiz tudo dentro do meu próprio alcance. Talvez algum detalhe aqui e ali, uma lembrança, nome ou café... Talvez você. -pausa, abaixou os olhos para as mãos e respirou fundo, tinha os ombros tensos e uma postura pouco confortável- Mas não, definitivamente não me arrependo. -E dito isso cruzou os braços, tinha a testa franzida e parecia preso em um conflito interior dentro de si mesmo. Você estava tentando se convencer que nosso amor juvenil se fora para o bem?

-O tempo passou Cris, nós mudamos. Àquele tempo os sonhos nos dominavam passou, hoje sabemos que as coisas não são bem como esperávamos que fossem, mas isso não quer dizer que sejam ruins, concorda? - Com um aceno você pareceu concordar, não dissemos mais nada depois disso, O café esfriou, pagamos a conta e cada um seguiu seu rumo como se nosso repentino reencontro jamais tivesse ocorrido.

É estranho recorrer a essa lembrança em tal momento de necessidade, é estranho recorrer a você que a tanto deixou de fazer parte da minha vida e que depois daquele café, nunca mais tornou a me ver.

É estranho, diria até mesmo bizarro, que tenhamos sido tão importantes na vida um do outro e hoje tudo o que restou de tanto sentimento, de tanta emoção, foram apenas ralas lembranças que se perdem mais e mais com o passar dos anos.

Nem tudo muda afinal de contas.

C'mon

Tua voz me guia.
Me chama,
Incendeia,
Clareia e assim, 
Afasta as trevas de mim.

Tua voz que tão solene, 
Tão tranquila e sútil 
Me embala em canções
Frases desconexas e risadas.

Tua voz.
Tão somente por ser tua,
Tão somente por ser pura
Por ser bruta, tal como é
Que me salva de mim.

--
Teus olhos.
Que sorriem sem querer
Brilham astutos
Tenazes 
Como feras analisando sua presa.

Teus olhos.
Esses mesmos, pretos
Escuros, castanhos,
Tomando a tonalidade necessária
Pra te tornar mais perigoso. 

Olhos que vêem, 
Que sentem e que assim
Sem querer,
Me levam a sentir também.

--
E são tuas mãos,
Tua boca,
Bochechas, nariz e orelhas.
Teus cabelos, teu sorriso
É tudo que existe em ti, 
Tudo que te compõe. 

Ora que ironia do destino,
Que peça mal criada de dramaturgo brincalhão.
Que diálogos vazios de sorrisos infantis,
Quem foi que disse que teria que ser assim?
Quem teceu, quem pintou, quem escreveu?

Quem por fim ditou que estaria assim, 
Dentro de mim
Tamanha sensação inquieta
Proveniente da tua presença
Proveniente do teu destino ligado ao meu,
Que me fez sentir enfadonho,
Necessário e cruel
Amor?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Ghosts

Posso ver, posso sentir.
Cada fibra do meu corpo reverbera em espasmos de inércia pura. Na penumbra que se estende daqui até aí, o universo inteiro parece caber.
 Suas asas nem mesmo se movem, seu planar é livre e sua queda espetacular. Absolutamente tudo parece insignificante diante disso, não concorda?
Não são necessárias mais palavras, mais crises, gritos, eufemismos, dores. O silêncio completo que nos leva a loucura também nos acalma e nos dá finalmente a liberdade tanto desejada.

domingo, 19 de julho de 2015

A cólera de um anjo I

As vezes tudo perde sua cor, seu brilho natural. As coisas se tornam opacas, sem vida e sem paixão e por fim acabam morrendo, você já pensou no quanto isso é triste? Esse ciclo de vida e morte interminável que nos oprime e nos condena? Talvez sim, talvez não. Temos problemas demais pra dar razão a questões tão infinitas.

Não faço parte desse ciclo, tudo o que me resta é pensar a respeito. É desejar profundamente ser destruído e ter a paz necessária para meus pecados e dores, é ter dentro de mim uma agonia sem fim que me sufoca e me faz gritar... Quem dentre tantos seria capaz de ouvir minha súplica por salvação, quem... Dentre tantos, poderia amar um anjo?

Se ainda pudesse voar, se pudesse atravessar o oceano e me jogar do alto de uma montanha, eu seria capaz de me sentir vivo, de me sentir presente? Ou tudo não passaria desse vazio, esse eterno nada?
O tempo já não se faz real em uma prisão sem relógios ou calendários, o cansaço é apenas espiritual e mesmo a dor por vezes me parece esquecida, quem sou eu além daquele que outrora fui? Existem momentos nos quais sequer sou capaz de lembrar meu nome, meus motivos e minhas recordações.

Há aqui apenas o reflexo de um pálido ser. Imagens multiplicadas milhares e milhares de vezes em um caleidoscópio de horrores e solidão, brilho sem luz, escuridão sem louvor, coração sem vida. 
E essa a minha maldição, do alto dessa torre preso nessa seqüência de espelhos, condenado a assistir ao vai e vem da vida sem nunca fazer parte da mesma.


Lo-Li-Ta!


Espaço pra citação:

Lo-Li-Ta!
“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: A ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.”
Vladimir Nabokov

Chac

“Chac”
Palavra maia: Tchac/Chac -> Intenso.

Na verdade sempre menosprezei o amor, essa história de ter seu coração batendo loucamente, borboletas no estômago e por ai vai ao ver a pessoa que se gosta, sempre soou absurdo e surreal aos meus ouvidos. Poxa vida, alguém realmente passava por aquilo? Ficar sem saber o que falar e o que fazer? Suar e agir feito idiota? Não obrigado, de problemas já bastam os que a vida naturalmente nos traz.

E diga-se de passagem eu já tinha problemas demais. Gostar, amar ou mesmo se apaixonar nunca fez parte dos meus planos –se dependesse de mim nunca faria-, mas quando menos se espera você acaba fisgado em uma rede invisível de sentimentos, tal como uma cúpula do destino que te encaminha para a reprodução, isso é abusivo, digo mais, é desnecessário.

E assim quando você finalmente se dá conta do que está acontecendo, é tarde demais! Você quer ficar perto o tempo todo e quer agradar o outro, a qualquer custo, quer conhecê-lo de uma forma que ninguém mais conhece. Se atrapalha, tropeça tanto nas palavras quanto nos gestos, observa cada olhar, ouve cada frase, apenas tentando saber mais sobre quem te cativou. E seus olhos fogem quando se encontram com outrem, querendo ou não você acaba sentindo ciúmes e sinceramente, é a coisa mais estúpida que se pode fazer, se apaixonar.

Depois da grande cagada feita, você acaba buscando motivos que eventualmente vão te fazer sofrer! É puro masoquismo, entende? Você procura alguém para te completar, então, você admite que se sente incompleto? Nós precisamos de companhia, de carinho, toques, beijos, tesão, precisamos acima de tudo de uma amizade que nos complete.
Não se trata apenas de sexo, longe disso. Se fosse o caso o mundo seria um gigantesco putero. Queremos alguém que nos entenda, que nos abrace quando estivermos tristes, que nos faça sorrir e que também nos faça chorar. Queremos ser quebrados, destruídos e novamente reconstruídos e dessa forma, uma frase boba pode te fazer suspirar ou te fazer querer morrer.

Entende o que quero dizer? É uma necessidade extremamente sem sentido! Mas todos sentimos isso, seria defeito de fábrica? Sabe-se lá o que deu errado ou se isso seria o certo. Mas o mundo não se acostumou com isso, se tivéssemos aceitado verdadeiramente a situação, nossos corações não seriam partidos. Se apaixonar deveria ser bom, deveria ser único, então porque soa como pedir para ser guilhotinado?
Provavelmente porque em nossa mente criamos uma imagem fixa de tudo, isso incluí a pessoa amada. Queremos que seja daquela forma! E então quebramos a cara porque primeiramente precisamos ser correspondidos da mesma forma, em seguida vem a decepção que cada um traz. As expectativas são simplesmente inevitáveis.

Novamente, cadê o sentido? Mas talvez esse seja o ponto, amar não faz sentido! Tampouco viver. Se buscarmos um sentido em tudo, nos perderemos em nós mesmos e não vamos aproveitar o que de mais intenso a vida tem a nos oferecer.
Ninguém pede pra amar, ninguém tenta entender porque não há o que se entender. Mas sim o que se sentir. Sente-se com o gosto, o toque, o sorriso, o olhar, o timbre, a música... Tudo te leva a amar, e ai colega, é, fodeu.

Outro ponto, sabe de onde vem a decepção? Do egoísmo.  Aos poucos, você acaba percebendo que a imagem que formou é obsoleta e que a realidade não é lá muito fiel a mesma. Daí, você acaba se irritando com coisas bobas e a ignorância faz tudo parecer um saco. É o inicio do fim.
Não pretendo fazer um drama aqui, como acabo de ouvir, tampouco uma história de amor. Apenas quero deixar constado que o amor é bom apesar de toda a merda que nós incluímos em seu currículo, ele é necessário, ele é essencial.
E ele viverá por muito e muito tempo, talvez até o fim da vida. Se for alimentado diariamente com doses de carinho, de gentileza, educação e cuidado. Se amar fosse tão ruim assim, todos fugiriam disso como o diabo foge da cruz, não é? Mas ele é bom, se na medida certa, se feito com cuidado, é prazeroso.

E veja bem, estou me contradizendo lindamente. Como disse, não é pra fazer sentido. Não se isole, não destrua seu amor, não se auto-destrua. Amar é uma experiência única, unicamente fodida e mágica, diga-se de passagem. Mas é algo pelo qual todos vamos passar, querendo ou não.
Não há que se fazer planos, a vida destrói todos. Apenas há que se viver, sentir, inspirar e expirar. Tudo o que pudermos conhecer no caminho faz parte do nosso destino, se é que é existe de fato um destino, amar faz parte dele.


Not Ready


Lá estava ela, envolta na névoa opaca e gélida, flutuando sob a água em sua presença absurdamente fantasmagórica. Seu semblante era indecifrável, o olhar vazio não demonstrava sentimentos, pesares, pecados... Não, aquela mulher, seja ela quem fosse, que pairava de braços abertos sob as folhas secas que encobriam a água negra do riacho, apenas fitava o luar distante sem realmente prestar atenção ao mesmo.

Fosse penitência ou quem sabe apenas uma aparição, aquilo me pegou totalmente desprevenido. Eu, com meus ternos dez anos, fugindo por birra de uma surra sem escapatória, embrenhado no mato como um pequeno animal, mal pude me mover ao ver tamanha aparição assombrosa.

Me escondi por detrás do tronco áspero de uma árvore, apoiando ambas as mãos no mesmo e me mantive daquela forma, sem me mover um mísero milimetro. Até o ar parecia me faltar ou não ser de fato necessário, respirava devagar temendo que ela pudesse me ouvir. Temendo que ao menor sinal de que alguém a observava, ela desaparecesse.

Engolia em seco, o coração batendo feito um louco no peito. Mas meus olhos mal piscavam, estava completamente hipnotizado. Ali estava o que contestava todo o sermão do padre Antônio nas missas de domingo, ali, próxima de mim, estava algo que todos os adultos da vila diziam não existir.

Como negaria a verdade diante de seus olhos à vaidade da razão? Como apagaria da mente cada pequeno detalhe, cada babado da mortalha branca que encobria desde o pescoço e ombros até os tornozelos inexistentes da moça que ali flutuava? Como, por Deus, como diria não crer em algo que eu mesmo tivera o terror de apreciar?

Não sei dizer quanto tempo fiquei de tocaia analisando cada movimento da alma inquieta, minutos, talvez menos. O que posso afirmar é que tão repentina quanto surgiu, ela se foi, desapareceu diante de meus olhos infantis e hoje, portando meus dezenove anos, ainda não fui capaz de me esquecer daquela visão, acredito em meu íntimo que jamais serei capaz e que mesmo os algores da razão me batendo à porta incessantemente e minhas responsabilidades matrimoniais ocupando praticamente todo o meu tempo... Tudo o que consigo pensar enquanto retorno à essa vila esquecida pelo tempo e pelo progresso, é no riacho onde pela primeira vez na minha vida, fui assombrado.

Fugas de madrugada afinal de contas, ainda são a minha especialidade.
--
Continua?

Só não perca seu tempo

Não perca seu tempo
(comigo)
Não perca seu tempo dizendo coisas
(Pra mim)
Não perca seu tempo achando que dará resultados
Não perca seu tempo crendo que isso mudará algo.

Não se dê ao trabalho
De me ouvir ou gastar saliva
(comigo)
Isso não muda nada.
A sua decepção ainda será a mesma.

Só não perca seu tempo
Com esse tipo de pessoa.
Gente descrente não ouve,
Gente descrente só sente.

Não tente apagar os traços
Não tente apagar os erros
Gente descrente já se cansou
Gente descrente já se iludiu
Gente descrente,
Que diferente de você
Na pele, sentiu.

domingo, 12 de julho de 2015

"Fuga Temporal" - Prova da Gincana: Proibido Ler - Fuga Temporal / Linha do Tempo

Não conseguia lembrar de como havia acabado ali, sentia-se minúsculo cercado por árvores gigantescas e prédios em ruínas que alcançavam o céu e o encobriam. Vultos o cercavam como flashs de imagens e vídeos distorcidos, cenas de seu passado, pessoas que amara e perdera em um misto de sorrisos e agonia.

J deu um passo à frente, estendeu a mão para tocar o que quer que fosse aquilo e em um piscar de olhos, acordou.
Respirou fundo, o suor frio escorrendo pela testa. Não costumava ter muitos sonhos mas aquele emprego por mais excitante que fosse, estava conseguindo lhe render bons pesadelos. Endireitou-se no banco do carro, passou as mãos frias no rosto e bocejou, K como de costume continuava quieto, não fazia perguntas e também não estava interessado em respostas.

-Pra onde agora? – O moreno perguntou estalando o pescoço.
-Investigar o “Grande G”, os vermes estão há semanas falando disso. Se fossem só eles ninguém daria bola, mas um burburinho vem crescendo entre os menores. – Era sempre assim, K falava apenas o necessário e nunca alterava seu semblante sério e carrancudo onde diversas rugas podiam ser vistas, vestia-se impecavelmente, o cabelo ralo loiro esbranquiçado estava sempre do mesmo jeito. Se pudesse escolher apenas uma palavra pra descrever o mais velho, seria: Chato, mas rotina, costume, mesmice, ordem, responsabilidade e tédio também se classificavam bem quando o assunto era seu veterano.

Cerca de vinte minutos se passaram entre murmúrios e canções da parte do moreno que buscava burlar o tédio e o silêncio absoluto do mais velho, vinte minutos de pura tortura até chegarem a uma sorveteria no leste de New York. K entrou primeiro, retirou seus óculos escuros e se aproximou do balcão onde uma atendente de uniforme azul e branco não demonstrou felicidade ao vê-lo.

-Fique lá fora de vigia. – Ordens diretas, certo, outro item a acrescentar na lista de chatices do rabugento branquelo, J respirou fundo e até tentou contestar mas acabou chutando o ar do lado de fora da sorveteria, frustrado e sozinho.

-Mimimi faça isso, mimimi faça aquilo. Quando voltamos a ser recruta e chefe? Ele se esquece de tudo que já fiz, isso deveria ser uma equipe! – Bufou, erguendo o rosto para o céu. –O que é aquilo? – Levou a mão esquerda até a testa e crispou os olhos, uma sombra de tonalidade vermelha dançava entre as nuvens, aquilo não poderia ser um avião. Sem perceber o agente passou a caminhar na direção que o objeto seguia, parecia estar caindo.

Quando deu por si, corria entre pedestres, aliens, cães, atravessando a rua na frente de carros e demais veículos, o OVNI agora expelia uma grossa fumaça negra e chamava mais atenção, estava caindo depressa.
J sentia as pernas fraquejando, tomava impulso a cada passo dado, embutindo ainda mais velocidade. Não faria falta alguma ao parceiro mesmo, não é? Verificar aquilo poderia ser de alguma utilidade.
Apoiou uma das mãos na murada que separava a areia de Coney Island da civilização e saltou em direção ao oceano, o coração batia descompassado no peito e o ar lhe faltava em grandes arfadas. Agora o OVNI já de tamanho considerável chocava-se audível e violentamente contra a água salgada e feroz do mar. J retirou os sapatos e o paletó, jogando-os sem cuidado algum na praia deserta e se jogou no azul esverdeado que afundava a nave rapidamente.

Nadou depressa com braçadas longas, tomando fôlego a cada minuto. Seus olhos ardiam e podia sentir o nariz ardendo, parou e olhou em volta. Onde estava a espaçonave? Mergulhou a tempo de ver uma estranha criatura de cabeça larga, maior do que o corpo, sendo este escamoso e de um rabo comprido e de fim pontiagudo, emergir depressa.

-Hey você! –Gritou já sem fôlego, sendo ignorado pelo extraterrestre. –Você aí! Identifique-se! – Apontou para a criatura, finalmente notando que esta o olhava fixamente, a boca aberta lotada de dentes pontiagudos expelia uma espécie de gosma negra que se assemelhava a lama, os olhos vermelhos pareciam reluzir e ela (seja lá o que aquilo fosse) estava vindo em sua direção.
Sacou sua arma do bolso o mais depressa que pôde, a água dificultava e muito seus movimentos, ergueu-a e se deparou com os grandes orbes rubros, cara a cara com a criatura aparentemente hostil.
-E aí? –engoliu em seco, as ondas se movendo ao redor de ambos, J e o lagarto cabeçudo se fitavam. –Você tem autorização para estar aqui? –perguntou, a voz meio trêmula. – Não pode entrar na terra desse jeito, humanos podiam ter visto, de qual planeta veio e qual sua identificação?

Sem resposta.
Respirou fundo.

-De qual planeta veio, tem autorização e qual seu propósito? Responda. –Pediu de novo, o alien sequer piscava. –Responda, não vou pedir de novo.
A criatura abriu a boca, a baba novamente negra escorrendo entre suas várias fileiras de dentes –Destruir – sua voz horrenda e monstruosa, grossa e anormal soou mais como um rugido. J não precisava de mais nada, a resposta havia sido claramente dada.

O monstro moveu a cauda investindo contra o humano enquanto com a cabeça tentava abocanhá-lo. J esquivou-se afundando novamente na água e emergindo poucos centímetros longe dele, apontou e atirou. O monstro se esquivou depressa, mas não a tempo suficiente de levar o tiro de raspão, seu rugido de dor ecoou pelo ar como um alude à morte, ele não desistiria.

-Pode vir, quer destruir o mundo bonitão? Vai ter que passar por mim antes. – J estava cansado porém se mantinha firme, a arma apontada para a cabeça do alien e o coração a mil. – Se você fosse tão forte quanto seu hálito é ruim a gente tava frito, mas quer saber? Você não é de nada.

Outro rugido.
Certo, talvez irritar o lagarto cabeçudo não fosse a melhor ideia mas aquilo o acalmava e o ajudava a pensar num plano. Onde estaria K? Ele não havia visto nada daquilo? E depois o irresponsável era ele...
A criatura avançou novamente, dessa vez mais lenta, talvez pelo ferimento, talvez pelo orgulho ferido, quem sabe? Ela agarrou-se a J tentando mordê-lo e seu rabo pontiagudo finalmente acertou a perna do humano, puxando-o consigo para a água, afundando depressa a fim de afogá-lo.

J atingiu-o novamente, dessa vez no peito de carapaça dura, seus olhos ardiam juntamente com seu nariz, estava engolindo água e o ar lhe faltava, já começava a se sentir mole conforme o sal do mar queimava na ferida recém adquirida na perna. Com um golpe chutou o lagarto, tentando afastá-lo de si e acabando ferido por suas garras nos braços e ombros, não morreria daquela forma, o grande J não morreria assim tão fácil.

Atirou sem nem olhar pra onde atirava, só precisava se livrar daquele brutamontes nojento e escamoso, ele agarrava-se em si como uma serpente. Com o punho deu-lhe um murro certeiro no queixo enquanto puxava do pescoço da criatura um estranho amuleto em formato de meia lua, o golpe o afastou momentaneamente, era sua chance.
Mirou.
Atirou.
E a cabeça da criatura explodiu em pedaços verdes e negros no mar.

J nadou depressa até a superfície, respirou fundo e guardou a arma no bolso da calça, devidamente presa, tornou a nadar. –Quem mandou menosprezar o negão aqui? Lagarto cabeçudo! Feioso! - Ao chegar até a areia, estava exausto e K, que não ajudara em absolutamente nada o observava carrancudo. -Ah qual é, K? Eu quase morri ali e você nem pra me dar uma mão? –bufou sacudindo a água de si e apontando para o mais velho, guardando em seguida o cordão no bolso sem nem perceber. –Não te ocorreu que eu talvez precisasse de ajuda?

-Sua tarefa era ficar de vigia na sorveteria, não caçar aventuras submarinas com “O Espanta Tubarões”. –cortou, ríspido, sarcástico. J mordeu o interior da boca e cerrou os punhos. –Vamos voltar pra base, já conseguimos o que viemos buscar.

-É? E o que seria isso? –O moreno pegou o paletó do chão e calçou os sapatos, seu mau humor aumentava a cada momento. – Desde que saímos você não me deu detalhe algum de nada. Acabei de matar uma lagartixa que babava petróleo, que chegou aqui sem problema algum? A Terra não tem defesas especializadas? Vigilância? Como ele entrou aqui? Olha K, se vamos continuar nessa você precisa me dar informações, estou trabalhando as cegas aqui.
-Estamos voltando para a base e lá você terá suas informações. – O mais velho deu-lhe as costas e rumou para o carro.
Ah, aquilo o deixava extremamente puto.

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-Então, - J servia café para os Vermes na base, tinha as costas curvadas devido o local e a jarra cheia do líquido viscoso. – Falem sobre o “Grande G” e vocês ganham mais café. – sorria, afastando o café e os copos das baratas. –Falem ou não dou café!
-É uma profecia!
-Não é nada confirmado!
-Nos dê o café!
-Falem! –ordenou, os Vermes saltavam, puxando-o pelas calças. –Falem e dou até mais café do que o prometido.
O mais barrigudo dos vermes apoiou-se confortavelmente, com pose de malandro no armário. –É algo que apenas John Fang Lee poderia te dizer e infelizmente ele sumiu no tempo tem algumas horas. Isso é informação sigilosa J, nos dê o café!

-Certo, certo. Continuem falando. – Despejava o café inundando o ambiente com o cheiro forte e adocicado da bebida. – Quem é esse cara?
-É um maluco que quer mudar o passado, parece que levou armas perigosas de tecnologia alienígena para o tempo e ninguém sabe ao certo em qual época ele parou. K nunca vai te falar isso porque você já se meteu com o tempo antes.
-E mexer com o tempo pode te deixar mais doido do que já é. –Outro verme concluiu, bebericando mais do café. –É tudo que sabemos, agora passa a jarra de café aqui!
O agente deixou a sala dos Vermes sem muito entusiasmo, buscar nos arquivos da agência não adiantava muito, não quando se tratava de um assunto sigiloso.
-Hey J! – uma das baratas o chamou, fazendo-o virar-se para trás e encará-lo. – Busque o amuleto Adama, entre os pequenos dizem que isso pode ajudar a evitar que a profecia se complete, o primeiro passo é deter a mudança no passado. Aquele que matar a besta e portar o amuleto, será o escolhido.
“Escolhido?”
Enfiou a mão no bolso e tirou de lá o cordão com o pingente de meia lua, não custava tentar, custava?

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Algumas Horas depois


Não havia tempo a se considerar.
J respirou fundo, suas mãos suavam e podia se sentir inteiramente frio. Deu alguns passos para trás e tornou a tomar fôlego, não conseguia acreditar que estava fazendo aquilo de novo. Estralou os ombros e correu o máximo que pôde em direção ao abismo a frente do prédio, o coração disparado e um grito preso à garganta.
Estava saltando no tempo novamente.

Nunca conseguiria se acostumar com aquela sensação.
Tinha a corrente presa ao pescoço e apertava o amuleto fortemente na mão, fechou os olhos enquanto caia e gritava desesperado e ao abri-los novamente, deparou-se com um deserto.
-Ué, eu não devia ter entrado no tempo? – Mal teve tempo de cuspir a frase, crispou os olhos e franziu a testa para o horizonte onde uma fileira de casas de madeira se estendia, não havia asfalto, sequer carros ao que parece. –Certo... Eu entrei no tempo.

Bateu o pó e a terra da roupa e caminhou em direção a cidade, aquilo ainda era na América? Tudo parecia tão... Antiquado. A meia lua em seu peito emitia um leve brilho azulado, tratou de escondê-la bem na camisa. –Isso é o velho oeste. – Constatou, rindo consigo mesmo ao ver um Saloon e alguns “vaqueiros” bebendo e cuspindo próximos a cavalos na porta do mesmo.

Não deveria se passar das três da tarde, K estava desesperado juntamente com toda a equipe da MIB e ele, novamente, havia se metido com viagens no tempo. O amigo não poderia culpá-lo, ele havia matado a besta, tinha o amuleto e sabia como burlar as ordens incansáveis das muralhas de tempo. Aquela missão era sua.
Tudo o que precisava agora era de roupas típicas...
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Velho Oeste Americano, quarta-feira, 15 de Junho de 1866, noite.

A música soava animada e pungente, belas dançarinas de pernas de fora, espartilhos apertados que salientavam seus seios fartos e meias finas que subiam até metade das coxas presas por cintas ligas, desfilavam por todo o Saloon, servindo cervejas e água ardente para os homens ali presentes.

J tinha um chapéu caído por cima do olho esquerdo, uma camisa branca surrada coberta por um colete negro e luvas sem dedos, inacreditavelmente roubara tudo de um varal. Seu corpo estava parcialmente debruçado na cadeira e se detinha em fingir estar bêbado para ouvir as conversas e murmurinhos do local. Rodava um copo entre os dedos, alternando entre um gole ou outro que não bebia, na mesa ao lado cinco homens jogavam cartas em um papo animado sobre roubos e armas.

-Doutor Loveless conseguiu uma máquina voadora, não há nada que possa barrar isso, Jack. Vamos saquear os trens com ela e ainda podemos destruir qualquer espécie de perseguição que o xerife tente conosco. Já viu as armas dele? Tudo o que precisamos é jurar lealdade. –O loiro jogava as cartas na mesa, distribuindo-as entre os companheiros, várias garrafas de bebida já haviam definhado pelas mãos dos grupos e agora, conforme o álcool subia a cabeça e o fumo dos charutos de má qualidade os deixavam mais e mais trôpegos, as informações começavam a ser reveladas.

-Máquina que voa? Consegui um colete a prova de balas com ele. Já jurei minha lealdade, Smith. Não quero ficar de fora desse acontecimento, vamos tomar os Estados Unidos da América e não vai ter nada que aquele desgraçado do Ulysses S. Grant possa fazer sobre isso. –Jack, pois este era o nome do moreno barbudo de olhos verdes, este também fazia parte do esquema, notou J.

-Do que estão falando? – Uma das garotas se aproximou servindo mais bebida ao grupo. –Não me diga que é sobre as armas desumanas de novo? Smith não te quero mexendo com magia negra, se souber que está andando com Jack e Loveless, não se deitará mais na minha cama e nem verá debaixo da minha saia. –Apontou o dedo fino enluvado para o rapaz que ergueu as mãos em resposta. –Fiquem longe da Aranha de Loveless, ou acabarão todos mortos, é um aviso de quem ama vocês.

-Ooh Mercy Lewis, todos sabemos que se deitar em seus lençóis é a coisa mais fácil da terra, nem precisa ter dinheiro, sorrindo da forma correta você já ergue as saias. Seremos ricos, a riqueza que Loveless oferece jamais será equipada a esses servicinhos desumanos e escravos que pagam pouco. Quer que a gente morra garimpando? Seremos ricos e não será por causa do ouro dos tolos, será por causa das balas ágeis de nossas armas e nossa valentia.

J ergueu uma das mãos chamando Mercy com a mesma, a ruiva fez um pequeno bico de desgosto e acenou se despedindo do grupo de bandidos, segurou a bandeja redonda com ambos os braços, abraçando-a e caminhou com seus saltos altos vermelhos até a mesa do agente. – O que deseja? Mais cerveja?
-Onde encontro a aranha de Loveless? – perguntou, o chapéu ainda encobrindo seus olhos. –Não sou praticante de magia negra mas ele possuí algo meu de extremo valor e preciso recuperar. Concordo com você, doce Mercy Lewis, mas preciso de sua ajuda.
-O senhor, meu caro peregrino, está buscando a morte. Não deveria te dizer isso mas se está mesmo interessado em lutar contra o próprio demônio, vá até o território dos Oglala Lakota e a partir disso é por sua conta e risco.

J saiu do Saloon, pelo que entendera até ali o Doutor Arliss Loveless utilizava tecnologia do futuro para criminalizar ainda mais o velho oeste, tinha armas como metralhadoras, robôs, aviões, coletes a prova de balas, tanques a vapor, livros carregados de balas e bicicletas de rodas gigantes, seja lá o que aquilo fosse. Ao seu ver, Arliss Loveless só poderia ser John Fang Lee ou detinha contato com o mesmo.
Não era um partidário do roubo mas se essa era sua única escolha, bem, cederia a ela. Conseguiu um cavalo de crina negra de um estábulo qualquer, era meio velho e não cavalgava com a mesma agilidade de antes mas era tudo que tinha disponível.

Após uma corrida longa na qual estipulou duas horas e meia chutando alto, seu traseiro doía e os sapatos de bico estranho feriam seus pés, como os homens conseguiam viver daquela forma?
O agente respirou fundo e alisou o cavalo dando-lhe algum incentivo, pelo que entendera das informações conseguidas, estava no caminho certo e ao cruzar o horizonte depois de algumas pedras em formato estranho onde coiotes habitavam, estaria em território indígena, só não esperava que mesmo distante do mesmo ainda fosse capaz de ver o fogo de explosões, inalar a fumaça com odor de carne queimada e ver uma construção robótica gigantesca se movendo por dentre as chamas que consumiam a aldeia.

Meneou com a cabeça e atiçou o cavalo com as esporas de seu sapato, fazendo-o correr o máximo possível em direção a matança. A visão que teve foi aterradora, humanos conseguiam ser mais destrutivos do que aliens.
A aldeia havia sido devastada.
Diversos corpos inertes ao chão, banhados em sangue. Crianças, mulheres, homens, velhos, animais. Todos massacrados, mortos de forma covarde e insana por um bandido que nem sequer deveria estar ali.
As ocas destruídas, pegando fogo, os poucos sobreviventes sendo atingidos com uma espécie de metralhadora que disparava incessante por uma das aberturas da imensa aranha mecânica.
J sacou sua arma, os olhos lacrimejando ainda ouvindo os gritos de agonia e dor pedindo por ajuda e socorro, e disparou contra a aranha. O som alto que se seguiu calou todos ainda vivos ali e a aranha veio ao chão como se nunca tivesse sido capaz de andar antes.

O agente correu com seu cavalo para dentro do inferno que se tornara o território dos índios, isso, a tempo de ver seu inimigo e viajante do futuro de olhos puxados, John Fang Lee, saindo dos escombros do que antes fora um robô.

-Você! Parado aí! –O moreno gritou apontando sua pequena pistola para o oriental. – John Fang Lee, parado aí! –Finalmente obtida a atenção, se viu na mira do mesmo, -Só pode ser brincadeira... – O oriental usava um colete a prova de balas diferente do habitual e tinha em mãos uma arma claramente alienígena, coisa que reconhecia dos Capricanos, geralmente tranquilos mas, com a existência dos fiéis revolucionários, tinham em mãos armas extremamente perigosas. – Você vem comigo!

-Somente um de vocês? A grande MIB só enviou um mísero soldado para me combater? Me sinto ofendido, ou talvez lisonjeado. A minha vitória sobre a humanidade trará a ruína de todos vocês. –Riu, riu como se isso fosse particularmente normal em um diálogo e em um momento como aquele, riu como um bom vilão faria, insano e estúpido. – Pois saiba que eu não voltarei contigo, eu nem mesmo vou voltar. Fique aqui preso nessa terra onde o ouro é cultuado, se quer saber fiz um favor ao presidente dizimando essa aldeia. Mas só digo uma coisa, abaixe sua arma homenzinho, eu nem estou mais aqui.
E dito isso ele atirou na direção oposta ao agente, um raio verde luminoso e translúcido que abriu uma espécie de portal no ar.
-Adeus! –avisou, correndo para dentro do mesmo, J atirou mas o colete repeliu o tiro, então ele atiçou o cavalo e saltou para dentro do portal juntamente com o louco.
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New York, 2035 –Sem especificações de dia, hora ou mês-

Abriu os olhos, sentia-se levemente enjoado. A luz no ambiente o cegou por alguns instantes e o fez cobrir o rosto com ambas as mãos. Onde estava o cavalo com o qual pulara para dentro do portal? Onde estava o chinês maldito que o tinha metido nisso?
Nada.

Olhou em volta e tudo ao seu redor se resumia em corpos humanoides e robóticos de tonalidade esbranquiçada em fila indiana, milhares deles.
-Onde eu estou? Pra onde aquele maluco me trouxe? – Girou em torno de si mesmo fazendo com que seus sapatos rangessem no chão, estranhamente a roupa de cowboy de Brokeback Mountain havia sumido e sido substituída por suas roupas originais, ao menos o estilo estava de volta.

O ferimento em sua perna não mais doía, não sentia fome, frio ou sono. Quanto tempo havia se passado desde que decidira se aventurar pelas areias do tempo?
Sentia falta do rabugento K, sentia falta de sua cama e até mesmo dos vermes. Mas não voltaria até terminar aquilo, até porque não sabia como voltar.

Caminhou incerto e hesitante pelo longo salão onde os robôs estavam dispostos e enfileirados, nenhuma alma viva ali presente apenas o silêncio aterrador e sepulcral, se existia uma coisa que J havia aprendido em todos aqueles anos trabalhando para a MIB, era que o silêncio em um ambiente hostil nunca era bem vindo, até mesmo a natureza se calava na presença de um predador e este, infelizmente não era ele.

Após alguns minutos caminhando na imensidão branca, encontrou uma porta e por ela saiu. O longo corredor a frente mais vazio do que o salão anterior, -Isso não cheira nada bem, -murmurou, apesar do cheiro do ambiente ser levemente perfumado por aloe e vera, não se referia àquilo, claramente.
Apressou o passo, ali tudo era artificial. Mesmo as plantas, samambaias e algumas espécies de flores as quais nunca se dera ao trabalho de decorar os nomes, todas de plástico. Não haviam quadros, não haviam janelas, apenas um longo corredor branco e totalmente iluminado, impecável.
Por um momento se pegou pensando se havia finalmente enlouquecido, se estava em um hospício ou se aquele era mesmo o planeta terra. E foi aí, nesse momento que um som muito alto de algo se quebrando o acordou de seu transe.

Virou-se na direção do som e correu, precisava descobrir onde estava, quando estava e o mais importante onde estava o maldito Fang Lee que caçava, só conseguiria sair daquela prisão temporal com ele, não é mesmo?
Correu o mais rápido que podia, gritos e tiros podiam ser ouvidos mais e mais altos conforme se aproximava cada vez mais do local em questão, virou o corredor duas, três, cinco vezes ou mais até se deparar com um grande pátio em total processo de destruição.

Lá estava Fang Lee.
Seus cabelos mais compridos do que a última vez que o vira, uma barba rala e cinza crescendo em seu rosto achatado e vestia-se de forma diferente também, um sobretudo negro surrado e camisa vermelha, fora isso, ainda era o mesmo canalha insano.
O inovador na cena não era Lee, mas sim o que caçava Lee.

Lá estava o que em sua concepção poderia ser chamado de trator, caminhão, monstro, van do Scooby-Doo, caminhonete dos Caça-fantasmas e se bobeasse, poderia chamar até mesmo de mini King Kong.
Mas era um robô.
Certamente era um robô.

E não qualquer tipo de robô, não do tipo que vira minutos atrás no salão branco. Este estava armado, este queria destruir e aparentemente o alvo era Lee, ou quem sabe, todo o prédio já que ele atirava com suas metralhadoras e lasers por todas as direções possíveis.
Não havia mais nada intacto ali.
As vidraças que antes deveriam ser imponentes e dar à construção um ar intelectual e social, estavam quebradas e espalhadas em vários cacos sob o chão cheio de rachaduras e estilhaços de madeira e tijolos.

Seja lá quanto tempo fora perdido entre a viagem de Lee e a sua, J sabia que algo muito errado estava acontecendo ali, mas que afinal de contas, estava do lado do robô.
O agente desceu correndo as escadas que antes deveriam funcionar com eletricidade e que agora não passavam de sujeira, saltou alguns degraus semi destruídos e acabou ali, cara a cara com a luta, sendo um alvo fácil para o robô, corria, esquivando-se dos tiros, dos objetos que voavam em sua direção, corria tentando alcançar Lee.

De qualquer maneira não poderia deixá-lo ser morto, poderia? Se voltasse de mãos abanando quem sabe o que aconteceria com o destino da humanidade? Destino, palavra estranha, nem fazia parecer que ainda existia o livre arbítrio.
Sacou sua arma depressa e mirou no robô, atingindo uma de suas várias ferragens, o que incrivelmente não surtiu efeito algum no brutamontes. Notou que Lee já estava ferido, precisava rendê-lo e tirá-lo dali o quanto antes.

-Sequência de auto-destruição iniciada, eliminação total de alvos em 10, - J levou a mão até a testa ao ouvir a voz feminina automatizada soar do monte de ferro ambulante, sério? Ferindo o robô, se iniciava a auto-destruição? Se sentia em um maldito episódio de Battlestar Galactica ou um filme de ficção cientifica os quais nunca tivera muita paciência de assistir, não gostava de pensar, era mais de agir.
-Lee precisamos sair daqui! –gritou correndo em direção as portas de vidro quebradas, -Ele vai explodir tudo!
-5...
-Anda! – gritou de novo, passando pelo buraco depressa e chamando o chinês lunático do lado de fora com a mão. – Corra!
-3...
Lee não se deu ao luxo de responder, apenas obedeceu o melhor que pôde não sendo muito eficaz em sua execução de tarefa. J protegeu-se encolhendo o corpo após correr poucos passos e cobrindo a cabeça, tudo fora ao chão em uma explosão sem igual.
A pressão do ar fora tanta que os estilhaços de vidro voaram em sua direção, seus ouvidos estavam tampados e a poeira subira como névoa ao ar.
Em questão de dez segundos, um prédio inteiro havia ruído.
E Lee ruíra com ele.

Minutos após, J se ergueu dos escombros, sacudiu a poeira do corpo e deu três lances de passos a frente, passou por cima de alguns pedaços grandes de cimento, concreto e o que mais que fosse que explodira junto ao robô. Sua busca levou algum tempo até que encontrasse o corpo quase todo omitido por pedras, de Lee.

-E então Lee, vai me dizer qual é a profecia antes de morrer? Não acha que isso tudo que fez, não levou a nada? Te persegui do velho oeste até aqui, e pra quê? Pra te ver morrer diante dos meus olhos? – agachou-se, seus olhos negros encarando os cortados sujos de sangue.
-Você... –Lee tossiu, respirava com dificuldade, seu corpo havia sido amassado no processo, era impossível sobreviver àquele tipo de coisa. – Você nunca vai parar a profecia, me assegurei disso ao morrer aqui. Eu era o único que poderia parar a transmissão de dados intergalácticos que passava toda a história da humanidade ao Grande G. Quando voltar ao seu tempo, não poderá fazer nada além de morrer. Entenda... –Tossiu novamente, a voz falhando e definhando mais a cada palavra dita. – Meu objetivo foi cumprido e assim que eu morrer... Você será enviado novamente à morte.

-É o que? Isso tudo foi um jogo pra você? Fugiu pra condenar a humanidade, é isso mesmo? Escuta aqui japonês, se você pensa que tudo acaba assim, saiba que... –J arregalou os olhos, seu corpo estava sendo envolvido por uma luz azul, Lee estava morto e ele finalmente estava sendo enviado de volta para seu tempo.
Sim, tudo havia acabado como o planejado pelo insano Doutor Loveless, ou melhor, Fang Lee.
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“Bem-Aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o Tempo está próximo.”
Apocalipse 1:3

J pensou que não conseguiria se assustar com mais nada que visse em sua vida desde a entrada na MIB. Presenciara o nascimento e a morte dos mais bizarros aliens, inclusive algo que não se orgulhava, vira até mesmo o coito de alguns. Robôs, naves, monstros de todos os tipos inimagináveis pela graça da humanidade e ainda assim existentes nesse universo tão gigantesco e surreal.
Mas lá estava uma cena que acreditou que nunca presenciaria na vida.
O apocalipse.
New York não era nem de longe o que um dia fora. J estava no terraço de um prédio isolado, não muito distante da sede da MIB. Era dia e tudo o que conseguia entender era que o pior já havia acontecido.
Os prédios antes tão vivos, arranha-céus belíssimos, agora não passavam de uma piada suja de um universo distópico onde tudo não passava de destruição e dor.  Era tudo cinza, o sol parecia não ter mais cor. Os carros novos e velhos, quebrados, abandonados nas ruas juntamente de motos e demais veículos, jornais, papéis, roupas, tudo jogado como se uma guerra de gangues do Warriors tivesse tomado conta de toda a cidade.

J chutou a porta do terraço e desceu correndo as escadas do prédio no completo breu, parecia que desde seu encontro com o alien no oceano, seu dia a dia se tornara correr. Sentia novamente a ferida na perna pinicar e arder, o que indicava estar no tempo certo.
Passou pelas ruas solitárias e vazias, mortas, com pressa, até chegar onde geralmente entrava para ter acesso ao universo dos Homens de Preto e lá encontrou tudo tão morto quanto a cidade.
-Não pode ser... Isso não está acontecendo. –Desesperava-se, atônito e assustado. A humanidade não poderia ter se extinguido daquela forma.

Após alguma insistência entrou na sede e se deparou com apenas um, um único verme, sentado sob uma bancada de mármore quebrada, o chão antes lustroso agora lotado de folhas secas e sujeira.
-Verme? –chamou, notando-o assustando e vendo-o correr de si. –Verme sou eu, J! Volte aqui!

-J? – a criaturinha amarela parou, virando-se e correndo até ele, jogou-se em suas pernas abraçando-o com seus vários braços. –J, onde esteve? Não pensamos que sua viagem no tempo demoraria tanto! O mundo praticamente acabou.

E assim o Verme restante explicou, detalhe por detalhe enquanto o sol tomava seu rumo no horizonte, cada vez mais distante, o que ocorrera na terra.
O Grande G descera até o planeta humanoide, espalhando nele um vírus que transformava as pessoas em uma espécie de zumbi ou vampiro, eles se tornavam extremamente brancos, com veias saltadas na pele rachada e lisa, carecas e com uma fraqueza incontrolável a luz do sol.
Humano por humano havia sucumbido ao vírus, o pouco de consciência restante em cada um era reservada para os já transformados. Sobreviver se tornara um verdadeiro desafio.

Boa parte dos aliens haviam abandonado o planeta àquela altura do campeonato, não fazia sentido em viver em um local morto e perigoso como aquele onde, a vida não mais brotava, onde tudo se resumia em sussurros de fantasmas do passado, um passado onde a humanidade ainda tinha esperança.

-Mas sabe, existe uma forma de acabar isso. Vê esse amuleto que tanto te ajudou a viajar pelos confins do tempo? Dentro dessa lua existe um elixir capaz de matar o Grande G, o último de sua raça, aquele que perpetua o vírus. Você precisa fazer com que este colar entre em contato com a pele dele, precisa que o líquido escorra por ele, J. Se existir algum humano vivo, algum humano cuja existência não foi totalmente tomada pelo vírus, ele viverá sem problemas, podendo dar continuidade na sua raça. Mas... Não sei se você conseguirá sair vivo dessa, meu chapa.

MIB havia feito experiências com as criaturas antes que os próprios humanos da organização também sucumbissem ao vírus e nada fora capaz de detê-lo ou aplacar seu efeito.
Verme explicou ainda que J deveria ir até a caverna onde o Grande G se escondia, ele residia lá sozinho e J teria que fazer isso antes do pôr-do-sol, as criaturas não ousavam se aproximar da caverna do demônio, o agente precisaria fazer isso.
E rápido.
E assim J o fez. Com uma moto chegou até a caverna próxima a praia, entrou dentro dela e tomou fôlego.

-G! Sei que está aqui, venha até mim. Eu sou o escolhido! – tinha sua arma de prontidão, preparada para atirar, mal conseguiu ver o que corria em sua direção, atirou quatro ou cinco vezes em um vulto rápido e tudo o que pôde ouvir foi um rosnado animalesco. –Eu sou o escolhido e provavelmente ultimo humano na terra, não quer me destruir? Pare de fugir e venha até mim!
Com um golpe forte J foi jogado contra a parede áspera da rocha e sentiu uma costela dentro de si reclamar de dor, arfou de dor. –Merda! Me encare! Olhe pra mim, seu bosta! – gritou novamente e seu desejo foi obedecido.

Lá estava, respirado seu hálito de podridão e morte, baforando contra seu rosto a criatura sem nariz e olhos fundos, era careca e seco, esguio, tinha a pele tão branca quanto papel e veias saltadas pelos braços e pescoço.
-Se eu morrer, você morre junto, seu merda! –urrou puxando-o contra si e rolando pelo chão da caverna se certificou de prender o colar ao pescoço do monstro, quebrando-o com as próprias mãos e se cortando no processo.
Sentiu quando os dentes afiados da criatura rasgaram seu pescoço, arrancando um bom pedaço dali e fazendo o sangue quente escorrer, em seguida, caindo ao seu lado enquanto se desfazia em agonia, contorcendo seu corpo nojento no musgo.

-Eu disse... Eu morro... Mas eu te mato junto. – J caiu ao seu lado, segurando a ferida no pescoço, deixou que seus olhos fechassem devagar, podia sentir os dedos formigando e um frio tomando conta de seu ser.

“Agora um sermão do K cairia bem.”
Sorriu, um sorriso miúdo e satisfeito, e se deixou levar pelos braços gentis e carinhosos da morte.
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FIM.


Ator:
Will Smith


Filmes Utilizados:
-MIB - 1997
-O Espanta Tubarões (citação) - 2004
-As Loucas Aventuras de James West - 1999
-Eu, Robô - 2004
-Eu sou a Lenda - 2007