sábado, 29 de agosto de 2015

Desafio: Espinhos - 3: Final.

Espinhos
“Nesse mundo tão urgente
Nesse mundo tão distante
Nossas vidas refletidas nesse rio que vai do céu pro chão
Porque o tempo é um braço imenso
Que eu penso que viver contigo
É tudo que eu desejo e mais preciso
Então por isso é que eu repito
Não me deixe, não”.

Juliano Holanda (Não me deixe)
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“Garde ta salive que je puisse enfin
Guarde sua saliva para que eu possa enfim
La faire couler dans ma gorge comme un doux venin
Fazê-la fluir em minha garganta como um doce veneno”
Il Faut Se Taire - Les Chansons D'Amour
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A doçura de um sentimento puro é desmedida, desigual. É algo que só aquele que já sentiu consegue entender. Às vezes deixa um gosto amargo na boca quando acaba, mas sua doçura inicial não pode ser negada, tampouco deixada de lado. O encantamento de um amor quando real demora a se quebrar – isso quando quebra – e tem casos que nem com a morte finda, deixa só saudade, melancolia e vazio.
Mas não é desse jeito que pretendo contar a última parte de tão desastroso conto, não. Narrarei tudo o que me valer narrar; deixo de lado nosso protagonista apaixonado, cujo coração palpita alucinado a cada vez que ouve o nome da amada, assim como deixo de lado também o cuidado. Coloco-me a inteiro dispor da tua orelha e espero sinceramente que me ceda ambas para acompanhar o final do relato, já que a caneta foi obrigada a ser deixada de lado.
Ignore esse arrepio que te sobe pelos pés e ergue os fios de cabelos da nuca, ignore a escuridão meramente afastada pela luz do lampião e o canto do Rasga Mortalha que nos rodeia.
Concentre-se apenas na minha voz, siga comigo nessa aventura e quem sabe além dela.
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3. Sonhos
Conjunto de ideias e de imagens que se apresentam ao espírito durante o sono. // Utopia; imaginação sem fundamento; fantasia; devaneio; ilusão;
felicidade; que dura pouco; esperanças vãs; ideias quiméricas.
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Existiu certa vez um escritor mórbido de ideias que muito, muito me agradam. Talvez o parafraseando seja a forma correta de começar o relato visto que até o presente momento, não faço propriamente parte do mesmo.
“Não está morto o que pode eternamente jazer, e com estranhas eras pode até a morte morrer”

Pra você, querido ouvinte e leitor curioso, o que seria a vida? O que seria a morte? Aliás, pra você, o que seria aquele que não faz parte de nenhuma das opções citadas acima?

Observei das sombras todo o ocorrido na minha mansão, talvez em algumas partes não tão nas sombras assim. Ocultei minha presença em boa parte do tempo, mas não posso negar ter assistido com imenso deleite as últimas horas da vida de Aragão, aquele a quem dei tudo e que me negou tanto.
Vi seus olhos perdendo o brilho lentamente enquanto a respiração se tornava falha, fraca e as batidas do coração diminuíam a cada minuto...
Vi. Vi sim...

Sentei-me aos pés de sua cama, assistindo o espetáculo da morte solitária de tão impensado “Lorde”.
Veja bem, quando se está nesse ramo ousado na história da humanidade, se recebe todo tipo de pedido e claramente, se tem toda a recompensa que procura. Meu pedido sempre foi sutil, sempre foi simples e mesmo tendo dado toda a riqueza que o homem me pediu, ainda não consegui obter todo o pagamento pelo que, de muito bom grado, ofereci.
Aragão era o típico homem ao qual podemos chamar de ingrato e, se me permitem o comentário, o fim que teve foi muito merecido. Existem pessoas que enlouquecem quando tem a chance de finalmente possuir poder – Aragão era uma delas.
E agora, na ausência do pai, cobrarei a dívida do filho.

Semanas se passaram desde a chegada de Diogo ao meu território e eu poderia com toda a certeza dizer que ele era a figura estampada do pai quando mais jovem, tanto em aparência quanto comportamento.
Os olhos eram castanhos escuros, quase pretos, assim como também eram da mesma tonalidade os cabelos cacheados e a barba rala por fazer. Pele branca e estatura mediana, tão magro quanto Aragão e com as mesmas orelhas pequenas. A mesma expressão inocente de menino moço que não sabe nada da vida, os olhos de raposa e o sorriso miúdo, provavelmente tão perigoso quanto o progenitor.

De uma coisa tive certeza ao vê-lo pela primeira vez: não me enganaria confiando nele como confiei no amo anterior.
Por isso me certifiquei de ficar às sombras, acompanhando passo a passo da nova história a qual me entrelaçava e só quando tive a certeza absoluta que o moreno tinha algo a perder, resolvi expor minha proposta (a qual ele jamais poderia recusar).
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3.1 Serpente

Após subir as escadas em longas passadas e com um sorriso bobo emplastado no rosto, Diogo retirou o paletó e o jogou em qualquer canto, girando em torno de si mesmo e jogando-se de costas na cama macia. Parecia um sonho! Não se importava com a fama, o passado ou mesmo a profissão da moça; amava e estava feliz com isso. Além disso, tinha dinheiro suficiente para viver bem e longe dali, apenas levaria a moça consigo e apagaria o histórico que ela tinha – simples e eficaz.
—E você acha mesmo que puta um dia deixa de ser puta?
O rapaz se alertou com a voz áspera de mulher e imediatamente sentou-se. Olhou em volta e não achou ninguém. Estaria imaginando coisas?
Meneou com a cabeça e chutou os sapatos. Deveria mesmo ir dormir... Sim, aquilo era coisa de sono e muito vinho, isso ou estava louco.

—Se tivesse bebido tanto, nem me daria ao trabalho de alertá-lo sobre o possível adultério que o futuro te reserva. – Debochou a voz. — Acha mesmo que um infiel muda da noite para o dia? –Piscou atordoado e se pôs de pé ao ouvir novamente a voz.
Não era coisa de sua cabeça; havia mais alguém ali.
—Quem é? Quem está aqui? Apareça! – Diogo se pôs na defensiva, olhando apressado para todos os lados, buscando algum vestígio que denotasse o paradeiro da invasora.
Sua surpresa não poderia ter sido maior.

Em sua frente, surgindo como se fosse do ar, uma névoa de aspecto sobrenatural rapidamente se formou, surgindo do chão até atingir sua altura, tomando a forma de uma mulher.
—Olá. – Ela sorriu mostrando a perfeita fileira de dentes brancos. —Sou Sâmela. –E estendeu a mão de unhas compridas à ele. O rapaz deu alguns passos para trás, os olhos arregalados não deixavam de exprimir sua surpresa. Aquele era o demônio com o qual o pai fizera um pacto? —Que falta de educação meu Amo, não vai apertar minha mão? – A mulher meneou com a cabeça e afastou-se cruzando os braços. Ela deu alguns passos em direção a janela e Diogo notou que os pés descalços não tocavam o chão de fato.
Ela tinha um andar lento e erótico. Usava um vestido vermelho vermelho e ele era mais transparente do que deveria em certas partes, além de possuir um decote avantajado. Sâmela, o demônio, tinha os cabelos negros e lisos por cima dos ombros em um corte reto.

—Seu pai foi meu Amo, sabia? E é por isso que estou aqui agora. O senhor me deve, senhor Diogo. Me deve muito graças a seu pai, e se não quiser perder todo esse ouro que possui, terá que me pagar. – Por fim, ela sumiu no ar. Diogo quase suspirou aliviado, até sentar-se na cama achando-se louco, com o coração batendo em puro desespero no peito. —E se aceitar um trato comigo, ganhará mais do que ele um dia ganhou. – A voz sussurrou em sua orelha, puxando-o para trás no colchão e fazendo-o deitar.
Ela não tinha ido embora, estava apenas buscando uma forma melhor de rendê-lo. A morena sorriu cruel e erguendo o vestido, sentou-se sobre o quadril do rapaz.

— De qualquer forma terá de me pagar... – Tocou a boca pálida e trêmula dele com o indicador e respirou fundo. — Shh... Não diga nada até que eu termine... – Aconselhou com seu sorriso provocante. — Já estou te achando em demasia mal educado. Você sabe o que é um Djin, meu Amo? Posso ver em seus olhos que não sabe, pois bem... –Inclinou-se sob o moreno, deixando a boca pairando sobre a outra. — Djin são gênios, nós concedemos desejos à nossos Amos, e existem muitos, muitos tipos de djins no mundo, por mais que sua raça não saiba disso. Nosso mundo sobrenatural é milhares de vezes maior que o de vocês mortais.
Diogo mal podia piscar diante daquela criatura.

—O meu tipo em especial, pode dar qualquer coisa que desejar, desde que não burle as leis da física e que não seja algo extremamente absurdo, como trazer mortos de volta à vida. Além disso, concederei quantos desejos tiver durante toda sua vida, e tudo isso tem um preço pequeno. Preço que seu pai morreu devendo e infelizmente cobrarei de você. Então, lhe asseguro, não há como escapar do pagamento, não importa pra onde vá, eu vou te encontrar. Pode ir até Moçambique, Istambul ou até mesmo o Oriente Médio, eu o encontrarei e o matarei com minhas próprias mãos para sanar minha dívida... Então não tente fugir, será pior para você.

Àquela altura do campeonato Diogo mal se movia. Estava petrificado na cama, rendido pela figura demoníaca e sensual da suposta djin que o ameaçava. Sua voz não saia, tinha a boca seca, a língua grudava no céu da boca e podia sentir um aperto ruim no peito que ainda não tinha se acalmado, suava frio e – por Deus! – tremia feito vara verde.

—Meu preço é o seguinte: te dou tudo o que quiser, mas, todos aqueles que você amar serão entregues a mim. Se negar, eu os caçarei e matarei. Se providenciar a eles uma fuga, eu saberei, os caçarei, matarei e comerei. Se ousar agir como seu pai que engravidou umaqualquer e manteve segredo da prole para que eu não te devorasse... – Ela deu um riso mórbido, cheio de intenções duvidosas. — Saiba que se eu te devorar, vou comer pedaço por pedaço da sua carne a mordidas enquanto seu corpo ainda vivo sangra e morre devagar. Vou me deleitar com seus gritos de mais pura agonia, mastigarei seu coração, engolirei seus olhos e até mesmo seus ossos serão aproveitados... Você me foi prometido pelo destino e se cogitar a ideia de me trair, vou te dar um destino pior do que dou a todos os presentes que recebo, estamos entendidos? Você não vai escapar de mim, é meu por direito. Minha proposta de servidão é apenas uma gentileza; eu poderia e deveria matá-lo agora mesmo.
Sâmela endireitou a postura apoiando ambas as mãos no abdômen do rapaz. Ela tinha um cheiro de Damas-da-noite, ele pode notar.

—E então, o gato comeu sua língua? Pode falar agora meu amo, ou está tão abismado com a minha beleza que o estupor impede as palavras de saltarem da boca? Devo eu retirá-las a força?
—Na-não! – Gaguejou, a voz saindo em uma mistura de miado com rouquidão.

—Certo, já que não sabe o que dizer ou por hora não tem nada pra dizer, continuo eu. Traga para a mansão sua concubina, traga sua Gisele e mantenha aqui seu amigo Ricardo, decidirei qual dos dois pagará a dívida de seu pai após o terceiro badalar da meia-noite de amanhã. Caso nenhum deles possa ser dado como presente, o morto será você.
Dito isso ela sumiu. Desapareceu no ar sem deixar rastro algum de que estivera ali, restando apenas um rapaz atormentado e assustado na cama, atônito e ensopado de suor. O que faria?
Dava o amigo como aperitivo, a amada como prato principal e seria a sobremesa? Aquela criatura não mentia, ela viria pegar sua prenda, ele aceitando isso ou não.

A noite passou depressa sem que contudo o moreno dormisse, mesmo o canto da coruja, o assobio dos morcegos e o canto da cigarra não puderam ser capazes de acalmá-lo.
Mesmo o calor da noite, o céu tão estrelado quanto nunca e toda a riqueza que possuía, pareciam fazer-lhe sentido.
Inevitavelmente sua vida estava acabada.
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3.2 Altas Madrugadas
(Ricardo)

Já algum tempo havia se passado desde que Diogo conhecera Gisele, nessas idas e vindas temporais, entre dia e noite, madrugada e tardinha, os encontros entre o rapaz de sangue amaldiçoado e a mais nova mocinha da casa de Dona Priscila, se tornaram frequentes.

A vila inteira se interessava no caso, claro. Cidadelas pequenas tinham (e ainda tem) esse costume ridículo de prestar mais atenção na vida alheia do que na própria. Eu, e somente eu (a minha pessoa), culparia o tédio e a falta do que fazer, mas como bem sei, há muito veneno nas línguas e não fosse isso, tiraria a culpa das velhas senhoras e dos homens que vivem nos bares.
Não é o caso, claro.
Adquiri uma amizade que a mim parece que será duradoura com o jovem rapaz e me sinto impelido a defendê-lo sempre que perambulo pelos arredores da mansão e ouço murmurinhos. Resolveram inventar que o pai, Aragão, tinha pacto com o Tinhoso e que todo o dinheiro, terras e posses do homem, eram dados carinhosamente pelo anjo caído em troca de acreditem ou não, a alma do homem.
Se isso por si só não parece absurdo demais para que acredite no quão absurda a mente humana pode ser quando resolve crer em algo, o pior vem agora: se tinham medo e culpavam o falecido, agora o fazem com o herdeiro.

Não existe por essas bandas quem aceite oferecer serviços ao pobre rapaz. Mesmo no prostíbulo o dinheiro dele quase foi recusado. Vender a propriedade é praticamente impossível, a menos que o comprador venha de muito, muito longe. A fama de assombrada precede a bela mansão e o engenho só se salva porque os moradores precisam de dinheiro e ele fica consideravelmente distante de todo esse burburinho.
Acabei, sendo assim, ficando mais tempo do que o esperado com o objetivo vitalício de ajudá-lo no que me fosse possível ajudar. Daí ele se apaixonou por uma moça falada e se os rumores antes eram ruins, agora, ah, agora eram bem piores...

De filho do homem que vendeu a alma, Diogo passou a ser chamado de amaldiçoado, de devasso, demônio, pervertido e sem moral. O que era de fato uma pena, nem Dona Priscila queria mais a moça em sua casa, já que isso afastava a clientela que não via mal algum no adultério, mas achava um tremendo pecado frequentar o mesmo recinto que alguém ligado ao chifrudo, e acredito que por esses motivos, por tais assuntos ligados à seu nome, o menino tenha ficado estranho e taciturno da última noite para cá.
Tinha dinheiro, tinha fortuna e amor, o que não tinha mesmo era sorte.
Sendo assim, nossa odisseia tomou outros rumos. Numa manhã de quarta-feira, antes das dez da manhã, fomos eu e o rapaz de cabelos cacheados até a casa de D’ Priscila e depois de algumas poucas frases, trouxemos conosco a moçinha.
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3.3 Farol
(Diogo)

Desafortunado é pouco para tanto acúmulo de má sorte em uma só pessoa. Nunca tive nada; quando ganhei, de certa forma perdi.

Tanto Gisele quanto Ricardo reclamavam que eu parecia diferente e mesmo teimando que estava tudo bem, algo em mim gritava tamanha covardia. Eu havia obedecido. Tinha tanto medo assim de morrer para condenar as duas únicas pessoas que me importavam na vida? Era eu assim tão baixo e sujo, para fazer parte de tamanha traição?

Não deveria ser o filho a pagar pelos erros do pai e, além disso, aquelas duas pessoas que jantavam comigo com tamanho carinho e alegria, não tinham culpa de absolutamente nada.
Ainda assim, eu os levara até ali. Eu, e somente eu era o culpado por aquilo.

Poderia ter alertado meu bom amigo Ricardo para que saísse da cidade, poderia ter dito à Gisele que se mantivesse longe... Mas não, essa eu até mesmo busquei. Pior do que o espírito, ainda era o humano.
Inventei uma desculpa qualquer e deixei a mesa de jantar, caminhei com passos longos pelo longo corredor e acabei saindo da casa. Não passava das dezoito, mas naquelas bandas todos se recolhiam por volta daquele horário, saindo novamente depois das vinte e ficando de fofoca até o cansaço se abater, claramente não era o caso da mansão isolada.

Gisele foi até meu encontro, trocamos algumas frases e ela me abraçou com ternura o que para meu psicológico atormentado foi a gota d’água. Puxei-a pela mão até o estábulo onde praticamente a obriguei a montar o melhor cavalo que tinha.

—Não volte! Por tudo que é mais sagrado Gisele, nunca mais retorne até essa cidade! Refaça sua vida em outro lugar, isso aqui é amaldiçoado, se ficar, dessa noite não passará! Eu te amo, por favor vá embora... –Dentre outras coisas que disse, algumas emotivas e sentimentais demais para serem postas aqui, derramamos algumas lágrimas e apesar de relutante e de me chamar de louco, ela aceitou ir, dizendo que voltaria pela manhã com um médico ou padre, que aquilo era obra do calor do lugar o qual ainda não estava devidamente habituado, que eram ilusões, febres.

Mal soube ela que logo após o cavalo sumir pela curva da estrada, pude ouvir o grito estridente de Ricardo tão alto quanto se poderia ouvir daquela distância.

Corri o mais rápido que pude mas tudo o que encontrei foi o corpo de meu bom amigo com o ventre aberto e as vísceras para fora. Sâmela estava debruçada sobre o corpo inerte e tinha as mãos mergulhadas na cratera que ela mesma fizera na carne do homem, a boca e o rosto sujos de sangue; estava comendo.
Ela estava realmente devorando as entranhas de Ricardo.

Gritei me lançando sobre ela que sumiu no ar me fazendo cair contra o sangue ainda quente e os restos de carne espalhadas em tiras da barriga a minha frente. Gritei novamente, dessa vez de puro horror e me apoiando debilmente sobre o sangue me afastei, as lágrimas rolavam soltas por meus olhos, Ricardo estava morto e a culpa era toda minha.

Culpa da minha covardia, do meu medo.

—Fique longe dele, respeite-o! – Gritei levando as mãos para o próprio rosto sem me importar com o sangue nelas. Sâmela riu, gargalhou feito a criatura abominável e demoníaca que era e engatinhou até mim, tocando por cima das minhas mãos com as próprias e as afastando do meu rosto.
Ela mostrou os dentes em um sorriso insano, agora faminto e de dentes pontiagudos como de um animal, tinha os olhos antes verdes tomados pelo vermelho do sangue que com tanto gosto consumia.

—Eu te avisei, meu Amo.. E é com o coração partido que terei que matar todos aqueles que ama, inclusive o seu amor maior;você mesmo. – E dito isso ela selou os lábios maculados aos meus, puxando-me contra ela enquanto suas garras entravam com força no meu estômago.
Mal pude me mover. Sâmela estava me matando, o gosto amargo de ferro no sangue me subiu até a garganta e jorrou da boca com força e dor, arrancando de mim um urro animalesco e angustiado. Ela então arrancou a mão que me furara como uma faca, me abrira como se abre um animal e lambeu os dedos devagar.

—Acho engraçado vocês humanos... Se acham eternos em seus dias curtos e vidas fúteis. Desejam tudo aquilo que não trará felicidade, apenas prazeres mundanos. Quando tem a chance de fazerem pedidos grandiosos, pedem ouro, pedras brilhantes que pra vocês tem valor, e então se esquecem da própria existência. Se tivesse cedido desde o principio, se tivesse me dito que pagaria a divida de seu pai ou que pouco se importava com toda a riqueza, que devolveria o restante, eu não teria te matado, tampouco a seu amigo. –Ela suspirou sentando-se no chão, minha visão turva não podia mais distinguir o que se passava a minha volta, apenas ouvia o que ela tinha a dizer enquanto sangrava, enquanto morria. — E aqui estamos nós, Amo, o senhor não pensou em devolver a fortuna? Não pensou em negar minhas ameaças e tomar coragem? Prefere mesmo morrer como um covarde e ceder aqueles que ama ao monstro do que ter alguma dignidade? É deplorável. Nem tenho vontade de provar sua carne depois de sentir na língua o gosto podre do seu sangue. No fim das contas você é tão intragável quanto seu pai foi. Tenha seus últimos momentos de vida sozinho, jovem Amo, sua amada está voltando a galope até aqui, e ela tem mais coragem do que você jamais será capaz de ter. Agora vou encontrá-la, matar minha fome com a carne dela e do nome de sua família nada mais restará.

Ela havia dito algo mais?
Não pude dizer, a vida se esvaiu de mim conforme o sangue se espalhava pelo carpete e se unia ao de Ricardo. Algo dentro de mim implorou por perdão, enquanto o outro lado apenas queria ficar vivo.
Afinal de contas, havia alguém que eu amasse mais do que a mim mesmo? Gisele ainda estaria viva?
Nunca fui capaz de descobrir.
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Que descuidado conto de puro infortúnio, não concorda que merecia um desfecho melhor?
Ajeito meu paletó o melhor que posso e depois ponho o chapéu sob a cabeça. De Sâmela nada sei então, de meu amigo Diogo, nem alma restou. Agora que ouviu meu conto, poderia me dizer se está interessado em me acompanhar por mais histórias macabras que perpetuam e compõe nosso Brasil?
Não é só vivo que viaja e conta histórias, não é só morto que assombra e nem só humano que erra.
Se a djin estava errada, Diogo, Gisele ou mesmo eu, seu querido narrador fiel (e debilmente morto, diga-se de passagem), estávamos errados, não cabe a mim julgar. Só sei que tem muitas histórias mais a serem contadas, algumas verídicas, outras com alguma fantasia inserida, o fato é, não existe meu querido ouvinte, lugar onde não se tenha um dedinho, uma pitadinha do sobrenatural.
Fico grato que tenha me ouvido, quem sabe eu volto?
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FIM.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Come my lady

Há certa verdade nos fatos, uma revolução não começa a menos que haja revolta e essa, precisa da motivação da ira, da dor e do desapontamento pra se tornar forte o suficiente.
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É o que essa internet ruim me causa, uma tremenda revolta.
"Vou fugir de você pra ver se me perco de mim"

Sobre o agora


Ontem fui MPB,
Fui ritmo, poema e poesia,
Fui prosa.
Ora quem diria, fui até mesmo bossa nova.

Hoje sou tormento
Sou quadril, sou balanço
Sou gritos,
Sou barulho,
Sou meu próprio sustento.

Hoje não há nada em você
Que possa me livrar de mim,
Que possa me prender de tudo.
Hoje e quem sabe amanhã, ou depois,
Não aceito esse título.

Desacredito até mesmo o que me foi provado,
Hoje não há o que ser constatado.
Só existe a música entorpecente,
De ritmo quente, pouco ou nada eloquente.

Essa que me embala, que me faz esquecer
Qualquer vestígio de sentimento ou sensação
Que me recorde mesmo que remotamente
Você.

Se amanhã volto a ser MPB,
Parto de vez pro Blues, jazz ou Rock
Clássica ou até mesmo industrial
Só o tempo dirá.

Mas hoje, nessa reprise de mal gosto
Me esvazio lentamente numa tentativa demente
De um poema decente
Que a cada frase se torna mais e mais decadente.

Hoje não tô MPB
E não há NADA
Capaz de mudar isso,
Nem mesmo você.


terça-feira, 18 de agosto de 2015

Nome


Na irrealidade do meu reflexo
Transpareço minhas idéias,
Acúmulo de loucura
Retrocesso.

No turbilhão vazio onde me afogo,
Na dose diária de inércia bruta,
E também naquilo que me escuta
Se esvaem lentamente as farpas.

Renomeada, intitulada
Rotulada
Nomeada,
Descarada.

Quantos nomes mais
Até que se aceite como um Ás? 



Desafio: Espinhos - 2. Relicário

Espinhos
"Desde que você partiu,
Espero
Do jeito mais sincero
Que me é possível.
(...)
E desde que você partiu,
Eu choro
"
- Juliano Holanda (Farol)
--
"O homem não se entrega aos anjos, nem se rende inteiramente à morte, senão pela fraqueza de sua débil vontade"
- Joseph Glanvill
--
2. Relicário
Caixa, cofre, lugar próprio para guardar relíquias. / Bolsinha ou medalha com relíquias que algumas pessoas trazem ao pescoço, por devoção.

O entardecer me enlaça com sua pretensiosa mistura de cores, prende meus olhos no horizonte entre tonalidades alaranjadas e douradas que pouco a pouco se tornam azuis, ondulações majestosas que enfeitam a imensidão celestial de forma lenta e nostálgica, relembrando de forma tristonha que, independente da distância de tudo aquilo que conheço e chamo de casa, esse ainda é o mesmo céu.
Que descuido meu, viajar por tanto tempo em um veículo pouco confiável e com desconhecidos me guiando. Tenho em meu colo a única mala que carrego, sua alça está pra se soltar e sua aparência surrada não é nem de longe convidativa. Ainda assim, aperto-a com certa urgência contra as coxas onde a apoio.

A estrada é íngreme e o trepidar das rodas nos cascalhos impede que qualquer vestígio de sono desça sob meus olhos pesados e secos. Tenho pra mim que essa herança nada mais é do que minha ruína. Que espécie de pai enviaria o filho para um colégio interno católico em Minas Gerais, dando-o como órfão e passaria anos a finco ignorando sua existência e lhe privando de qualquer tipo de informações sobre sua família?

Aparentemente o meu.

Estava a caminho de Alagoas, já não sabia quanto tempo havia se passado entre uma parada curta para tirar a água do joelho e outra para esticar as pernas. Dia e noite se mesclavam nessa aventura a qual me vi forçado a fazer parte.
A pouca comida que levei comigo já não me adoçava mais a boca, não saciava e a língua seca grudava nos dentes. A água estava morna, não conseguia me decidir entre soltar as cortinas de véu escuro e impedir que o sol escaldante adentrasse meu pequeno cubículo pelas duas pequenas janelas laterais na embarcação, ou se as abria e escancarava as janelas em busca de uma brisa inexistente.
Cada minuto perdido naquela estrada esquecida por Deus parecia tornar tudo mais quente. Meu paletó jazia esquecido no banco ao meu lado, as mangas da camisa acabaram dobradas até acima dos cotovelos e com os primeiros botões abertos sem pudor algum, me vi assando devagar.

A paisagem precisava ser ressaltada. De beleza sem igual o céu se estendia muito mais estrelado do que antes, mais misterioso e enigmático do que nunca. Já a lua majestosa ostentava sua luz roubada nas trevas que a rondavam, crescente, tão brilhante quanto uma cheia e o canto das corujas embalava o cheiro gostoso de maresia que vez ou outra nos fazia companhia.
Não quis ser inconveniente, tão logo me abstive de comentários sobre a vegetação e a demora pra chegar ao conclusivo destino final. Meu cocheiro não era exatamente um figurão de conversação, na verdade mal havíamos trocado cinco pares de frases desde sua chegada até minha morada em Minas até o momento em que o sol despontou no horizonte trazendo sua decisiva ordem.

Havíamos chegado ao vilarejo.

Respirei aliviado quase que tirando o peso do tormento dos ombros e retirei a carta que recebera semanas antes do bolso do paletó. O papel era grosso e a tinta tão negra quanto nanquim. A natureza da carta com sua caligrafia impecável e claramente dotada de malícia tinha um conteúdo que de tanto ler e reler, já tinha eu decorado.

Após uma apresentação fútil e burocrática, o assunto era o falecimento de Aragão Fernandes Castro que, de acordo com os dizeres ali presentes, era meu pai. Em primeiro momento pensei se tratar de uma brincadeira de muitíssimo mau gosto e, após me dar conta de que a veracidade dos fatos ali constados era mesmo real, me vi obrigado a viajar e dar conta de uma possível herança, papeladas e demais assuntos que o homem deixara inacabados ao ceder para a morte.

Posso dizer que nada sabia a cerca da existência do sujeito e de minha mãe. No entanto, com a curiosidade atiçada, entrei em contato com o advogado que me escrevera e sem delongas parti para Alagoas.
Agora me vejo em frente a um casarão estupendo, o assombro é tanto que deixo a mala me cair aos pés.

Rodeada por roseiras teimosas e desgrenhadas com pétalas rubras e espinhos traiçoeiros, a casa ostentava sua grandiosa influência do mais puro poder em suas colunas esguias e compridas por onde artesãos hábeis haviam certamente perdido dias e noites esculpindo folhas e raízes em espirais teimosas desde seu inicio até seu fim.
A exuberância estava em cada detalhe. Nas duas gárgulas inclinadas sob as patas dianteiras se via o horror. Aquele que ali adentrasse estaria para sempre guardado pelos olhos tenazes das guardiãs, criaturas sanguinárias de dentes afiados e asas abertas. A posição de ambas era unicamente defensiva, austera.

Como seria a personalidade de meu falecido pai para enfeitar sua casa com tais obras?
Em contraste com isso, a simetria em cada degrau, cada ponta e cada detalhe presentes na fachada era espetacular. Parecia que tudo ali havia sido feito com uma meticulosidade engenhosa e criativa, quase que poética de tão bela e fúnebre.
Mesmo as raízes da roseira cruel que subia ensandecida pelas paredes de pedra perfeita, pareciam dar um ar mais vivo a toda aquela arte morta. Mesmo a grama que crescia sem cuidado ferindo a estrada de mármore claro em retângulos já desgastados pelo tempo, dava ao lugar um ar ainda mais poderoso.

Era como se ali o tempo tivesse parado, como se a energia do lugar te fizesse parar pra analisar toda a beleza ali presente. De repente o sol não parecia mais tão quente, os zumbidos das cigarras não mais incomodavam e o cheiro de mangas maduras era tranquilizador ainda que me deixasse hesitante. Ali a vida parecia ser insignificante.

A casa era como um grande mausoléu.

— O que achou? Você ainda não a viu por dentro. – Virei-me de súbito ao ouvir uma voz desconhecida de homem. Ele parecia relaxado ali, tinha nas mãos uma cesta média cheia de mangas do tipo espada e os pés descalços. Seu sorriso era gentil. — Sou Ricardo Rodrigues, o advogado. De certo é Diogo Fernandes. O herdeiro, não?

— Diogo, não garanto a veracidade do Fernandes. – Crispei meus olhos e franzi a testa. — O senhor há de perdoar minha impertinência, mas se é o advogado o que faz aqui descalço ao relento, tão natural quanto um morador?

Ele sorriu, deixou a cesta ao chão e endireitou a postura. Tinha cabelos castanhos com uma leve tonalidade branca e rugas de expressão derivadas da idade. Não que fosse velho, apenas não era mais tão jovem. A pele era bronzeada, judiada pelo sol.

— Cheguei alguns dias antes do senhor e, na falta de uma pousada que me aceitasse, acabei ficando em um dos quartos do casarão. Além de ter tempo suficiente para conhecer o lugar, já adiantei e muito a papelada para o processo de reconhecimento. Fiz mal? - relaxei a postura e fui até ele, apertando-lhe a mão e tendo tempo para finalmente me atualizar a cerca do assunto.

Ricardo era o que podemos chamar de nômade. Apesar da idade (beirando os quarenta anos), não era casado e não tinha ciência de filho algum espalhado pelo mundo. Tinha sim residências em seu nome, – particularmente a que mais usava era a de São Paulo – mas ainda assim seu maior prazer estava em conhecer os mistérios que as estradas possuem. Era curioso, dotado de palavras hábeis que convenciam com facilidade e liberal sobre questões religiosas, política e filosóficas.

Tão logo no decorrer de uma semana havíamos nos tornado amigos. A busca por documentos no sótão do casarão acabou por se tornar uma grande dor de cabeça. Aragão era o tipo de sujeito que guardava todo tipo de coisa, inclusive as caixas empoeiradas e pesadas onde deveriam estar os documentos (em pastas e arquivos devidamente organizados), mais pareciam um entulho, amontoado de papel e sujeira que atraia aranhas e demais insetos.

O casarão, por outro lado, estava muitíssimo bem cuidado. Se pelo lado de fora sua aparência era fúnebre e ostentosa, no lado de dentro poderia muito bem ser nomeado de palácio, mas não um palácio qualquer, se fosse pensar por mim mesmo em uma história para toda aquela exuberância, diria estar uma espécie de castelo de um poderoso e rico sultão, alguém que não media esforços para mostrar a todos o quão rico era e todo o luxo possível estaria aos seus pés com um simples estralar de dedos, se assim quisesse.

Algumas paredes eram pintadas com desenhos dos mais variados: anjos, querubins, arcanjos e suas espadas flamejantes por entre as nuvens que se devoravam e explodiam entre luz e sombras, flores que se retorciam entre espinhos e folhas imensas, a perfeita simetria, todos cuidadosamente feitos. Enquanto outras eram completamente cobertas por pesadas tapeçarias que se moviam devagar conforme o vento se tornava mais forte, ondulando suas batalhas antigas ali retratadas.

Pelos corredores compridos via-se em cada canto uma estátua. Aragão era intrigante para alguém recluso. Pelo que ouvi, ela mal saía de casa enquanto vivo e foi visto pouquíssimas vezes no centro do vilarejo e menos ainda em seu engenho, o que inegavelmente é uma atitude suspeita... Os castiçais, a prataria, os lustres e até mesmos as roupas de cama, toalhas e demais móveis, tudo ali era extremamente caro.

Eu particularmente não conseguia me reconhecer em nada daquilo. Toda aquela extravagância, todo aquele glamour e indicação clara de riqueza, como eu nascera ali? Como eu usaria tudo aquilo?

Além disso, Aragão não tinha outros parentes, foi constatado que apesar de não ser filho de seu casamento legítimo e sim de uma criada, eu era seu único herdeiro. Atrás do casarão e próximo a uma fonte de mármore branco existe um pequeno cemitério onde, pasmem, a esposa de Aragão, seus irmãos, sobrinhos (com datas póstumas próximas a seus nascimentos) e agora ele próprio estavam enterrados.

No decorrer de duas semanas tudo havia sido resolvido. Acabei pedindo para que o advogado pernoitasse por mais tempo por aquelas bandas e fosse comigo conhecer o engenho. Passamos uma tarde inteira cuidando de tal e todos os empregados foram demasiadamente simpáticos comigo, tanto que confesso ter me assustado um pouco com tamanha naturalidade e gratidão.

A única dificuldade era contratar criados para o casarão, ninguém se dispunha ao serviço independente da quantia oferecida em retorno. Na verdade, tudo era um sonho de cortesia... Até ser revelado que eu herdara tudo, estava vivendo lá e precisava de criadagem pelo tempo que lá ficasse, nesse momento os moradores se benziam e se afastavam, dizendo não estarem disponíveis. Inexplicável. Tal medo irracional era simplesmente inexplicável.

Chegando o final de semana me dei por convencido que não conseguiria criados. Acabei eu mesmo comprando mantimentos e fazendo a limpeza na área mais utilizada da casa, perdendo assim uma manhã inteira. Me ocupei na tardinha com uma proveitosa corrida de cavalos na companhia de Ricardo que parecia mais e mais absorto nos mistérios da vila, e que por sua vez acabou descobrindo a fama de minha "família" naquela região.

Sobre o engenho era tudo maravilhoso a cana de açúcar dava bons lucros e não oferecia nenhum contratempo em sua manutenção. Mas e sobre o casarão? Diziam que Aragão tinha pacto com o tinhoso, que seu ouro e seu lucro vinha de magia negra e que sua residência era pomposa graças às artimanhas do sete-peles.

Rimos de tal superstição mas o amigo acabou me revelando ter certo receio de que existisse alguma verdade no curioso temor de nossos vizinhos. Acabamos dando o assunto como morto até a noite seguinte.

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— E esse, meu caro rapaz... – suspirou longamente e com um sorriso malicioso no canto dos lábios, retirou o chapéu da cabeça e levou contra o peito. — Esse é o lar de dona Priscila, rainha da sedução e do erotismo que perpetua seus sonhos, aquela que o fará suspirar em puro delírio e prazer. Delicie-se, mas somente até o amanhecer. –  Dito isso me empurrou porta adentro do suspeito estabelecimento de dois andares.

A visão que tive me fez perder o fôlego e piscar repetidas vezes. Se a corrida a cavalos da tarde anterior já tinha me cansado, aquela noite com certeza cansaria mais. Corei de imediato, sem me dar conta de que apertava com ambas as mãos o lenço vermelho que tanto me era útil naqueles dias de verão eterno e engoli em seco. Aquilo era um puteiro.

Ricardo havia me levado até uma casa de prostitutas.

O respeitável advogado viajante que colecionava dezenas de diplomas e idiomas em sua hábil e matreira língua astuta, me levara até onde pensei que jamais estaria.
Com a criação que tive aprendi a repudiar tais atos sujos como a prostituição, aprendi a sobrepor minha religião e minha moral sobre os desejos carnais. Ou, ao menos, pensei ter aprendido. Ali, naquele momento, adentrei outro mundo, completamente novo e dotado de prazeres à minha disposição, um mundo de braços e pernas abertas.

Tudo o que precisava era ter dinheiro suficiente para pagar, o que felizmente eu tinha.
Em minha mente um turbilhão de pensamentos e ousadias se mesclavam com o desejo de agir, de ser o completo oposto do que normalmente era, coisa que estava fazendo muito bem desde a minha chegada no vilarejo. Queria ter lábia e ser sedutor o suficiente para aquela tarefa, queria saciar uma mulher completamente e me saciar no processo.

Queria ser como Ricardo.

Antes que pudesse me dar conta, em uma pura questão de dias, minha admiração e amizade pelo homem haviam evoluído e muito. Tinha para com ele uma dívida sem igual e essa nunca seria paga com bens materiais, mas sim retribuindo todo o respeito e lições úteis de vida que ele me proporcionava. O pai que não tive em infância encontrei no advogado.

Caminhei incerto, vacilante e admito um pouco trêmulo. Guardei o lenço no bolso do paletó e me dirigi até um canto da sala, acabando por me sentar em uma espécie de cadeira pomposa sem apoio para as mãos, de almofadas vermelhas espalhafatosas, próxima a uma escada que subia como um caracol e tinha flores falsas em babados finos em ambos os corrimões.

O lugar era de fato belo apesar de muito, muito colorido. O cheiro presente era uma mistura de álcool, de perfume barato e cigarros. Uma das meretrizes cantava em um palco improvisado, apenas dois degraus mais altos do que o chão e seu carpete carmim ornado com flores douradas se iniciavam em um pequeno coração, contrastante com seus cabelos encaracolados e negros que caiam rebeldes por seus ombros nus.

Tinha os olhos grandes e castanhos, circulados por uma maquiagem negra forte e os lábios tingidos de vermelho. Era realmente linda e sua voz – oh sua voz! – era doce, tranquila e murmurava uma canção tristonha e lenta que embalava a decadência na realidade presente ali.

Não pude tirar os olhos dela desde que cheguei.
Assim ela cantou duas, três, quatro vezes até descer do palco com um andar erótico e lento, rebolando inconscientemente a cada passo dado o que chamava uma atenção maior ao quadril largo coberto pela saia comprida de fendas laterias que dava acesso as pernas encobertas pela negra meia fina lhe apertando as coxas.

Sem me dar conta do que fazia, caminhei até ela e com um rápido jogo de palavras subimos ao quarto.
Aquilo se repetiu por seis noites ou mais. Eu a monopolizei, a conheci. Assim como ela a mim.
Gisele tinha uma história peculiar, perdera sua virtude por amor, um amor não correspondido devidamente e fora expulsa de casa ao ser descoberta, acabando por ter a casa de Dona Priscila como destino. Era nova ali, chegara no prostíbulo na mesma semana de minha chegada ao vilarejo.

Por mais que Ricardo me advertisse que cair de amores por uma rameira não era o certo, não lhe dei ouvidos; nada faria com que me afastasse de Gisele, ao menos, foi assim que pensei de inicio. De fato nada poderia tirá-la de mim, a não ser a maldição que Aragão havia deixado embrulhada debaixo da minha cama.

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Continua.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Desafio: Espinhos - 1. Marionete

Espinhos
“Que descuido meu, pisar nos teus espinhos,
É essa mania minha, de olhar pro céu, com a cabeça ao léu.
Voando sem asa, vez ou outra esbarro, nos móveis da casa,
E outra vez tropeço.
Nos próprios caminhos, que descuido meu, pisar nos teus espinhos.”
—  Juliano Holanda
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“Todos nós devemos duas coisas para a natureza, devemos a ela uma velhice e uma morte…” 
 — Freud
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1. Marionete
Boneco que se move por cordéis e engonços. / [Figurado]  Pessoa frívola, sem caráter, facilmente manipulável.
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Há certa lenda absurda pelos arredores da Bahia. Não que o lugar por si só não seja exótico o suficiente para dar asas a criativa superstição dos transeuntes mas, por mais que a natureza sinistra e fúnebre de tal conto me tenha feito gelar, não posso eu, em minha vã filosofia pobre de argumentos, negar que algo nela pareça extremamente real.

O conto, seja ele feito para assustar rapazes na flor da idade que anseiam pelo colo quente e macio de uma mulher, seja ele criado para afugentar os maridos dos bares ou mesmo, contado apenas para atiçar aquele arrepio de temor pelo qual ansiamos, não é de todo ruim.

Veja bem, por minhas vastas andanças, cuidando dos mais variados assuntos para dezenas de condes e senhores cujo conteúdo da conta bancária poderia muito bem rechear uma piscina profunda ou mandar dar cabo de qualquer um -caso assim o desejassem-, nestas andanças ouvi todo tipo de coisa de todo o tipo de gente que se possa imaginar.

Mais ao leste do Nordeste, naquelas terras que ainda hoje não possuem donos, existe um homem que carrega numa caixa de vidro a cabeça da enteada. Ora, pois não falamos da cabeça de um defunto mas sim de um crânio vivo! Uma face tão bela que basta apenas um olhar para seus olhos lilases e suas bochechas rosadas te hipnotizarem.

Um rosto tão doce e angelical de aspecto juvenil e inocente, que ao vê-lo, instantaneamente você sentiria o desejo de possuí-la para si, aquele pequeno pedaço de menina mulher com seus cabelos dourados e lábios rubros.

Mas se prestar atenção, apesar de toda a sedução e beleza presentes na descrição, ainda é apenas uma cabeça! Uma cabeça que pisca, que ouve, fala e que adivinha todo o tipo de coisa. Ainda é uma cabeça sem corpo. Me pergunto se o corpo ainda vive, se é que existe mesmo tal cabeça enjaulada.
Rezam as línguas que ela traz sorte, proteção e ainda de quebra ajuda em todas as falcatruas que o padrasto se põe a fazer, livra-o da forca, das autoridades e dos bandidos.

Real ou não, por aquelas bandas quem desacredita é tido como estúpido e retém assim de cara, a inimizade dos que ali residem. E é por isso que hoje me atenho em prestar atenção a cada lenda que me contam, se viajar faz parte do meu trabalho como advogado, ora, aprender um pouco sobre todo esse conhecimento sobrenatural tido como inútil pela grande maioria e penalizado pelo ceticismo e religiões, não me fará mal.

Eis que, indo para a dita cuja região Nordeste, cuidar de uma herança que não tem herdeiros legais a não ser um bastardo mantido longe do falecido que supostamente é seu pai e deu cabo de sua mãe, o mandando para um orfanato do outro lado do país, me surge tal rumor e não posso eu deixar de me recordar já ter ouvido algo semelhante antes.
A lenda, visto que já me demorei por demais pra contá-la e neste ponto acredito que está prestes a me deixar falando sozinho, devido minha enrolação, é a seguinte:

Houve um homem tido como Casanova, Don Juan se assim o preferir. O conquistador tinha na palma das mãos a mulher que queria, sem muito esforço ele conseguia levar para seus lençóis já amarelados a mais linda e pura dona, a mais sensual esposa, mais rica, a mais pobre, a mais bela. Não lhe importavam as qualidades, a aparência, se era casada ou solteira, de posses ou não, se ele assim a quisesse, ora, ele a teria.

Pois este homem não era belo, este homem não era rico, tampouco ouviam-lhe falando muito. Nenhuma suspeita poderia se erguer de tão invisível sujeito, o homem era o que consideramos normal, tão normal e pacato que chegava a ser chato de tão comum. Mas eis que, ele mesmo em um momento de insanidade se entregou, gritando em plenos pulmões enquanto percorria a rua descalço, correndo em seu desespero latente, rasgando a própria carne em agonia durante uma madrugada após a quaresma.

"Me mate! Me mate de uma vez!"

Diz-se que ele gritava isso incessantemente, que mesmo depois de detido por não dois, não três, mas sete homens -pois sua força era tida como descomunal, desumana e monstruosa-, ele não deixou de gritar, acalmando-se apenas quando o sol tocou o horizonte com seu esplendor dourado, afastando de vez as trevas que o circundavam.

Lá estava ele então, os olhos castanhos arregalados e estáticos, umedecidos, onde as veias subiam vermelhas cercando a pupila dilatada pelo choro. Tremia involuntariamente, e apesar do alto burburinho de vozes curiosas ao seu redor buscando qualquer espécie de explicação para tamanho surto, dava-se para ouvir o som de seus dentes batendo um contra o outro, a queixada teimosa que insistia em se mover em resposta ao puro horror que ele havia presenciado.

Logo até mesmo as putas deixaram sua casa de rameiras e foram até a praça, a cidade toda havia parado em um alude claro ao desespero de tão intrigante cidadão, lá estava o homem que todos caçavam por roubar virtudes e por colocar à perdição senhoras distintas e honestas.
Lá, encolhido contra um banco de tal forma que quase conseguia se fundir ao mesmo. Vestido apenas de calça, descalço e sem camisa, acuado como um animalzinho ferido.

Lá, no centro de tudo, temendo até mesmo o ar que lhe entrava pelas narinas e expelia pela boca, temendo até mesmo o piar dos pássaros e o movimento do vento contra as roseiras, estava a mais nova sensação.
Como um bom frequentador do puteiro, e depois de claramente exposto, não tendo o auxilio dos homens e mulheres decentes que ali viviam, ele foi levado até o local onde passara a noite e curiosamente lhe causara todo o temor.

O local, meus amigos, era nada mais, nada menos, do que o penúltimo quarto do segundo andar da casa principal das rameiras, e eis que, lá no quarto ele não entrava de jeito maneira. Mesmo levado a força ele se recusou, gritando e se debatendo ao ponto de se ferir, agarrando-se ao corrimão da escada com toda a força que possuía.

E foi aí que decidiram averiguar o que de tão errado tinha no aposento.
Pois bem, estava trancado. O que era estranho, dado em conta que ele correra dali deixando todos os pertences e até mesmo a moralidade, não houvera tempo para trancar nada, e a dona do local afirmou que nem mesmo ela possuía as chaves de cada respectivo quarto. Não era do feitio de seus clientes invadir outros quartos, no geral ali haviam poucas moedas de trocas, sendo elas: sexo, bebida e dinheiro.

Nada além disso importava ali, isso era algo mais do que obvio.
As moças trataram de acalmar o homem, dando-lhe de beber enquanto os homens mais valentes arrombavam a porta de madeira do quarto. A imagem a seguir, descreverei como me foi descrita:
O quarto era como todos os demais, uma cama de casal com dossel e véus vermelhos caindo em cascata pelos alicerces de madeira, lençóis e fronhas de cetim com delicados bordados nas pontas. Uma penteadeira com um grande espelho e alguns perfumes baratos, diversas almofadas das mais variadas cores jogadas ao chão por sobre o carpete azul escuro. Uma janela grande por onde o sol adentrava sem temor, burlando as cortinas em véus finos e brancos.

Mas na cama era onde estava o fato curioso.

Uma espécie de corpo ali repousava, se é que se podia chamar aquilo de corpo. Uma junção de carne já em estado avançado de decomposição, ossos enegrecidos que não pareciam humanos e restos de um tecido que antes deveria ter sido um vestido ou coisa assim, queimado.
Aquele cadáver fosse humano ou não, já tivera vida a muitíssimo tempo. E pelo estado em que se encontravam os lençóis, parecia ter morrido e apodrecido ali. Como se aquele quarto, aquele pedaço esquecido da casa, tivesse sido trancado meses atrás, senão anos e tivessem deixado o defunto aos caprichos do tempo.

Curiosamente ou não, o quarto era usado em absolutamente todas as noites. O nosso querido Don Juan de araque subira com uma novata na casa das raparigas e ali passara toda a madrugada entre gemidos, arranhões, mordidas e deleite, deixando-o apenas quando a manhã ameaçava despontar e surtando para toda a cidade ver.
De acordo com o mesmo, ele quase morrera nas mãos da moça que enquanto saciava sua carne, roubava-lhe a energia, a força da vida que continha seu sangue. Conforme a madrugada ia passando, o homem na cama definhava a mercê do demônio que explorava seu corpo e sua mente, atormentando sua fraqueza débil e inércia com risadas cruéis e comentários que o faziam gelar a alma, comentários que o mesmo jurou não repetir a ninguém.

Sua salvação fora, afinal uma prece curta e cantada que a mãe ensinara quando muito menino, e que apesar de não ser religioso, por saudades da mãe e lembranças de infância, não fugiram de seu esquecimento.
Em sua mente ele a repetiu como um mantra até que a escuridão se tornou lentamente mais clara, e diante de seus olhos, jogada ao seu lado na cama, a diaba já saciada, emergiu em chamas, debatendo-se de forma violenta e gritando de agonia, jogando-o para fora da cama.

O homem com a pouca força que tinha sendo sobrenaturalmente recuperada, apenas correu. E o resto da história já sabemos, a moral é que ele nunca mais deitou-se com outra mulher que não a que se tornou sua esposa alguns anos depois e que acabou por se tornar religioso depois do ocorrido.
O insaciável que encontrou quem o saciasse, quem diria, hein?
Agora com sua atenção roubada e sua curiosidade atiçada, deve estar se perguntando o que pretendo eu, contando tais contos absurdos e me demorando ainda mais para chegar ao ponto que interessa.

Ora, deixe que me apresente, sou Ricardo G. Rodrigues, como já disse antes, advogado e o caso a ser relatado a seguir se encaixa no segmento sobrenatural no baú de histórias além de ter certa semelhança com a cabeça sem corpo que trazia sorte e a criatura que se alimenta da energia por meio do coito.
Essa é a história de como Diogo Fernandes, o bastardo inesperadamente rico, encontrou mais do que deveria em sua herança, não direi onde exatamente se passou, esse tipo de detalhe pode atrair curiosos e já me basta ter que mentir nomes para assegurar o silêncio. Mas, posso dizer que se passou em Alagoas, um lugar incrivelmente bonito e com milhares de histórias assombrosas e reais a serem contadas.
Fantasia, ceticismo ou não, espero que continue lendo o que eu aqui relatar, nosso conto começa na próxima página.