quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Undead, undead, undead


Deseje.

Rastejamos pela terra fresca, úmida e pesada. 
Em nossas unhas carregamos o valor das lembranças e da consciência que em nós, não mais opera. 
Em nossas unhas podres, roxas e cheias de vermes, carregamos os sentimentos que ainda resistem ásperos no peito febril.
 Imploramos vezes seguidas em súplicas sem qualquer vestígio de orgulho, por um pouco de atenção da lua e calor do sol. Pedimos com todo nosso ser, nossa essência restante separada da carne (inerte), pelo amor que a vida nos deu e a própria vida tomou.
Gire a chave no gigantesco cadeado que acorrenta nosso mausoléu, não lhe faremos mal, posso te assegurar isso! Mas ainda peço que nos ajude a romper as barreiras de madeira e terra que nos separam do seu mundo. Ainda peço que acredite em mim, que acredite em nós e nos aceite de bom grado.
Nos aceite de volta em um mundo que foi tão nosso, quanto é seu. E que um dia não passará de uma reles lembrança em sua alma errante e sozinha que na neblina caminha em busca de mais.
Somos aqueles que fizeram do silêncio, sua casa.
Somos aqueles que lamentam, que se arrependem mas que fariam tudo igual novamente.
Em nossos olhos vazios repousa o descanso, o destemor e o dessabor que só o sepulcro pode providenciar. Em nossos lábios lilases se encontram borboletas como nunca vistas antes, capazes de voar o mais alto possível, ir tão longe quanto se pode ir, de morder com uma força que jamais diria ser nossa.
Em nossas línguas histórias se criam como a fina névoa da mais pura magia e da morte, criamos assim a fantasia, o terror e finalmente a vida.
Esse arrepio que te brota na espinha quando o relógio badala e anuncia a meia-noite não é nada perto do que podemos fazer, mas, não encare isso como uma ameaça, de certo deve entender que não temos muito o que fazer em nossa imensidão de tempo restante e tão logo, assustar se torna divertido, o temor de outros, para nós se torna abrigo.
Sei que aqui entre nós, você provavelmente possui um querido. Então me diga, o que te impede de romper o lacre, doce Bárbara? 
Prefere encarar os fantasmas ou os mortos que caminham? Prefere ouvir nossos sussurros, cânticos e lamúrias que somem quando passam por paredes e portas, que se escondem nas trevas e estão sempre, sempre observando, ou prefere acabar com tudo em um rápido tiro na testa?

Nós estamos vindo por você.
Nós estamos vindo pra pegar você.
E como bem sabe, não há absolutamente nada dentro de seu alcance que possa fazer.
Não há como evitar que os mortos batam à sua porta ou puxem seu cobertor.
Não existe forma alguma, solução ou equação que a livrará de encarar seus medos.
Então, você virá nos visitar, Bárbara?
Virá nos ver enquanto nos levantamos em busca de carne com nossos ossos a mostra e em estado avançado de putrefação? 
Você assistirá enquanto arrastamos nossas mortalhas em uma lenta procissão rumo ao fogo e a destruição?

Afinal, você trará um bolo como fez Bedélia? Ou somente virá, Bárbara? 



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