sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Too much

Como o outono que sempre tarda:
Suspiros, ânsias e arrependimentos,
Frequência em perder o ritmo e o foco
Para enfim se deixar jogar no esquecimento.

Como o inverno em seu pior e melhor:
No frio vento cortante e solitário que afasta a tudo,
Na gostosa sensação e no céu cinzento acolhedor
Para sorrir entre lágrimas mesclando desejos.

Como a primavera que floresce inquieta,
Como o verão que queima
E em tempestades repentinas,
Explode.

Como se tudo pudesse ser,
Sendo o completo nada em expansão.
Como se nada pudesse realmente conhecê-lo,
Em uma espiral do destino, desgovernada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Espinhos (Spin-Off): Parte 1

"Não está morto o que pode eternamente jazer. E com estranhas eras, pode até a Morte morrer"
HP Lovecraft - O Chamado de Cthulhu


Estendia-se sob o divã um corpo preguiçoso cuja única salvação da aparente inércia era o leve movimento que o peito fazia conforme respirava. O homem, pois era de todo uma figura claramente masculina com sua vasta barba emaranhada e sobrancelhas grossas, tinha os olhos cerrados sob o espelho não muito distante de si que a todo o quarto refletia.
  Ainda que aparentasse calma e tranquilidade, um olho atento poderia facilmente notar a perturbação que o atormentava mas não entendê-la. Os tormentos dos homens só podem ser entendidos por aqueles que o sentem e ainda assim, as vezes nem mesmo a eles sua natureza vil é totalmente revelada, apenas aos fortes e corajosos se estendem os mistérios do irrevelável e maleável monstro da criatividade e por elogio distinto ou não à loucura, apesar de toda a riqueza, o caso do Duque era tido como insanidade pura.
  Os criados não faziam de fato questão de entender os devaneios incessantes do duque, na verdade, eles buscavam do mesmo o máximo de distância possível. Diversos rumores sinistros cercavam a natureza de todo seu tesouro e mais, boa parte de tais burburinhos incluía caso de morte não solucionada no meio. Eis que, de certa forma acabou se tornando difícil ter um convívio tranquilo com uma figura taciturna, reclusa e obscura que pouco saia de casa e restringia seus dias e noites em ler livros de línguas desconhecidas e falar sozinho pelos corredores.
  Para toda a corte, o Duque tornou-se indesejado. Os criados mais fiéis prosseguiram em sua companhia e com algum esforço e uma boa quantia de ouro, conseguiram guardas que impedissem curiosos de ultrapassar os grandes portões enferrujados que davam acesso ao sítio e casarão.
   Sendo assim, naquela tardinha de céu alaranjado e brisa leve, o cheiro das flores tomava por completo o ar e enchia os pulmões de notória esperança e positividade, coisa que o Senhor de toda aquela terra preferia ignorar. Com as mãos cruzadas sob o peito e um olhar firme em direção ao espelho, ele mal se permitia piscar.
   Foi chamado duas, três, cinco vezes ou mais pelas criadas mas  preferiu ignorar toda e qualquer perturbação que poderia tirá-lo de sua tocaia. Ás 18:00 em ponto teria um encontro com o que para si mesmo invocara, para bem ou para mal, não poderia vacilar, não lhe era mais permitida tal opção. Fugira de seu passado por toda uma vida, e na altura de seus 65 anos não lhe restava muito mais tempo para bancar o moleque que ainda não veste calças.
 Tinha uma imensa vontade de mover-se e puxar da camisa o relógio de bolso, mas se detinha. Muitos anos atrás o recado fora claro, se quisesse vê-la novamente teria que esperar às 18h no solstício de verão, quando as bruxas faziam seus rituais e sabás e todo o mundo era tomado pela energia e pela magia de Beltane. Naquele momento, imóvel a espera do que um dia expulsara de sua vida, ela retornaria e cobraria sua dívida.
 Como lhe fora dito, o estava cumprindo. Não seria o homem culpado pela morte de inocentes, se negava a isso. Era muitas coisas e tinha plena ciência disso, em juventude fora boêmio, sedutor, um Casanova nato ou Don Juan se assim preferir o termo, em maior idade enganara muitos homens e os levara a ruína, tirando dos mesmos até mesmo o último centavo e não se orgulhava disso, mas, deixara alguns bastardos espalhados por lugares nos quais se perdera por alguns invernos. Porém assassino, era algo que nunca fora e se dependesse de si, nunca o seria.
 O Duque suspirou de leve, se permitindo relaxar um pouco os ombros tensos. Toda a riqueza que o cercava agora lhe parecia tão inútil e suja, todo seu esforço em enriquecer agora lhe parecia perda de tempo. Só que algo em si não se arrependia em nada de tudo que fizera, algo em si clamava por mais de tudo aquilo, implorando por liberdade, malvadezas e juventude perdida. Esse algo, preferia tentar ignorar e vestir de boa moral e educação.
 Um puritano não deveria se permitir tais ousadias, na verdade, um puritano nem mesmo teria um quarto como aquele, cujas paredes escondiam pinturas obscenas de Sátiros perseguindo ninfas nuas por bosques coloridos em noites quentes de lua cheia e damas da sociedade com seus seios macios e grandes, de mamilos entumecidos e detalhes absurdamente bem feitos, sucumbiam aos pecados da carne das mais variadas formas e posições com homens e demais criaturas que por respeito ao resto de pudor (que por milagre do acaso ainda lhe restava), não devem ser mencionadas em voz alta, tamanho absurdo fosse crer que mentes doentias poderiam imaginá-los, a que se diga pintá-los.
 Um puritano não leria livros de magia (pois a magia não é branca ou negra, boa ou ruim, ela é um todo que se completa como a vida em si), monstros mitológicos e Deuses, rituais e antigas religiões pagãs, como ele com tanto gosto fizera (e ainda o fazia), não aprenderia línguas antigas apenas para uso próprio de intenção puramente vil e nem mesmo teria tentado praticar o que para o catolicismo era bruxaria, ou satanismo.
 Um puritano jamais teria um quarto com cortinas e móveis rubros (a cor do pecado, para muitos), e nem teria passagens secretas escondidas por toda sua casa, esconderijos para observar os quartos das empregadas que jovens se despiam sem vergonha alguma próximas a tina d'água ou se lembraria de todos os seus pecados com um sorriso notório no rosto.
  Não, o Duque não era um puritano e tinha plena consciência disso. Nem puritano, nem bruxo, nem ousado, era apenas um homem atormentado por seus próprios demônios que teimava ter tido um encontro com o sobrenatural quando muito, muito moço. Mas não poderia negar que a sociedade não estava lá de todo errada em afastá-lo por toda a sua excentricidade (ou pelo uso abusivo do ópio).


~~~ x CONTINUA x~~~

Nota da autora:

Oi, lembra de Espinhos?
Realmente eu quis muito fazer algo bem feito naquilo mas por complicações externas, pressão e falta de tempo, acabei com o perdão da palavra "cagando e sentando em cima". Como algo em mim se recusa a deixar o conto morrer sendo que pesquisei TANTO pra escrever o dito cujo, bem, resolvi escrever algumas aventuras da Djin antes de topar com o Ricardo que provavelmente vai virar um personagem recorrente nos meus mini contos de terror e assombração (eu gostei dele, não me julguem, por favor).
 Talvez eu reescreva os dois últimos capítulos de Espinhos e ainda adicione mais, talvez eu fique SÓ em Spin-Off, quem sabe?
Se isso vai pra frente ou não, só o destino dirá. :3
Ah, obviamente isso aqui não foi revisado. Escrevi as três da matina, não li e particularmente se ficar parando pra corrigir todo errinho que encontrar, eu perco o tesão em escrever e deixo a coisa toda morrer, logo, se você ler isso ANTES da revisão, mil perdões (apesar de que só de ler os poemas que posto aqui, você já deve estar mais do que familiarizado com erros).
Obrigada por ler, se quiser comentar algo a respeito de Espinhos, do Spin-Off ou mesmo dos meus erros, fique a vontade -q
Até a próxima (sabe-se lá quando),
K.

Raise the Dead - Parte 2

 -But I'll never love you baby-

2. "Na alameda dos desesperados se encontra o que podemos nomear vulgarmente de coração partido, nele se encontram todas as esperanças, sonhos, desejos, sorrisos e principalmente lágrimas acumuladas por todo o sentimento que em notório delírio de realidade, a própria realidade julgou incapaz de crescer."


Esse com certeza seria um começo ótimo pra um romance ou drama, claramente não é o caso. Ok, sendo franca poderia muito bem se adequar ao meu drama em si mas não no quesito romântico da coisa... A não ser que a minha péssima relação com a minha família em absolutamente todos os quesitos que se possa imaginar, possa ser classificada e rotulada com muito sentimentalismo barato e emoções que eu particularmente não tenho.
        Depois da fatídica ligação da minha irmã mais nova, Regina, me vi forçada a retornar até a cidade escondida no meio do nada onde eu naturalmente nascera e perdera uns bons anos de vida. Não é um lugar feio, longe disso, se você gosta de flores e árvores, rios e etc... Bom, provavelmente ficaria apaixonado pelo lugar, só que, pra mim ele parece simplesmente parado no tempo.
        Imagine uma longa estrada de terra (pois é, o problema começa aí, nem asfalto tem), rodeada por árvores grandes e compridas de galhos folgados que jogam folhas em você conforme passa abaixo deles e raízes preguiçosas que tentam te derrubar, se colocando enfiadas na terra durante todo o percurso. Imaginou? Muito bem. Agora imagine flores silvestres selvagens (brancas, vermelhas, amarelas e algumas com uma leve tonalidade lilás, soltam uma tinta do cacete se você puxar da terra) e dezenas de cigarras, borboletinhas coloridas e o mais variado tipo de mosquitos e insetos existentes (o que inclui besouros, aranhas, baratas grandes do mato que surgem do nada, já disse aranhas? Certo, entenda, são muitas aranhas), e o que ainda consegue me encantar na paisagem: cristais.
       A estrada inteira é cheia deles, você pode cavar um pouco e pegar alguns grandes ou simplesmente andar um pouco pelo mato e pegar alguns pequenos, são lindos. Refletir qualquer coisa por eles dá uma sensação de poder, de magia, e por mais idiota que isso pareça, eles ainda me fascinam, mesmo que eu já tenha meus 25 invernos nas costas.
       Recapitulando, o lugar é perdido no meio do nada. Lindo, mas, eu me pergunto sobre a situação atual da internet lá, se no centro da cidade ela já é uma porcaria, ora, imagine no meio do nada?
       Tento ignorar minhas preocupações fúteis e me focar no telefona, meu pai dissera que Regina estava morta, isso com certeza era mentira. Ela não pediria pra eu voltar e se mataria em seguida, pelos céus, ela nem deve se lembrar de mim. Essa ideia é absurda de mais pra ser até mesmo cogitada, a que se diga posta em prática. Mas como tenho doutorado em trouxa, diploma em imbecil e sou o que podemos chamar de... Besta, lá vou eu verificar a veracidade dos fatos.
     Se isso é um truque pra me levar de volta ou não, saberei daqui vinte minutos. Já perdi horas na estrada e meu carro está completamente sujo de poeira, acho que esse é o preço que eu tenho de pagar por não ter cortado absolutamente TODOS os laços que me ligam a eles.


sábado, 17 de outubro de 2015

Coming Down


Encontro no doce movimento do seu peito
Ilusória sensação acolhedora,
Conforme expira e aspira,
Entre momentos entrecortados pelo descaso,
O eco dos sentidos ressoa.

Em sua pele suada,
Caminhos vertiginosos onde tropeço.
 Na sua língua molhada,
Entre beijos se exalam os suspiros.

Me perco na travessia marota,
Rebelde e ousada, curvada e dupla
Da sua boca.

E me pego sorrindo a cada instante,
Cada toque mais forte.
Suspiro mais alto e mesmo que sem querer me faça arfar,
Me perco em você, pois em você posso "estar".

Surge e se esvai,
Letárgico desejo,
Lento rebolado,
Que entre risos se desfaz em carinho e aconchego.

Tolices de corações apaixonados,
Gemidos por vezes mais altos,
 Batidas descompassadas na nostalgia do deleite,
No corpo amigo o tão necessário abrigo,
No aclamado amante, um amor ressentido.

I walk the line




Euforia momentânea, estupor em rebuliço
E eis que a possessão do seu sorriso,
Se torna meu calabouço.

Eis que
 Seus olhos me perfuram a alma,
Tão logo sombrios me reclamam posse,
Tão fortes quanto o negrume que te cerca a pupila,
Explode em desgastada fúria retomada.

Se da tua língua ávida
Brotasse qualquer coisa além do mais puro fel,
Se da tua voz aveludada,
Tão doce, gentil e aclamada,
Surgissem flores sem espinhos,
Este não seria você.
E esta não seria eu.

Caminhar pelo fio da navalha
Nunca foi tão delicioso,
Ou mesmo tão desgastante.

Me aprisione o máximo que puder
E então assista minha fuga ferina
Por tudo aquilo que nomeia como seu.

Me prenda com todas as suas forças,
Me submeta a todas as suas correntes de destreza, 
E ainda assim,
Me assista escapar pelas fendas em suas mãos.

Se afogue em minhas mágoas passadas,
Queime com seus desejos egoístas, para enfim notar que
Corações selvagens jamais serão domados,
E eu nunca serei sua.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Raise the dead

  1. Do fúnebre sorriso mecanizado,
    E da entediante demora,
    Nasce de si a covardia vacilante.
    Se dela outrora surgirem respostas,
    Quem aqui seria capaz de negá-las?
Mergulho em um baque surdo contra a água fria, ciente de que nada vai me seguir até ali, ciente do quão recluso é meu exílio, deixo a água fluir.
 Não é como se a pequena lagoa tivesse um dono, nome ou mesmo qualquer um que a protegesse. Mas pra mim, na minha mais terna fantasia infantil e inocente, ela era um oceano de possibilidades e fugas. Um recanto tranquilo que sempre me abriria os braços quando precisasse de alguém, quando precisasse fugir de mim... Ela me acolheria.
E não era somente a lagoa, não era somente a água fria e cristalina, nem mesmo as pedras de onde o musgo brotava, o cheiro de terra molhada, as pedrinhas que revoltada eu lançava na água e fazia quicar, não, não eram as árvores que naquele tempo pareciam gigantescas como se pudessem alcançar o céu, nem tão somente suas folhas que no outono caiam com tonalidades alaranjadas que pareciam chamas e na primavera davam flores. Tudo ali era um conjunto de tranquilidade, de paz e prazer.

E mesmo depois de tanto tempo, afundar por completo na água fria e ficar em silêncio ainda é um dos meus motivos de maior deleite. Hoje não tenho mais acesso à pequena lagoa que me povoou a infância, não tenho mais tempo livre pra ficar horas e horas fitando o vento passando pelas folhas das árvores e criando uma lenta dança, ou mesmo, disponibilidade pra sentir o cheiro gostoso das flores no orvalho da manhã. Nada disso me pertence mais, ainda assim não é como se não guardasse tais lembranças em um cantinho especial de mim. Na verdade, em dias como esse, esse pequeno refúgio é tudo o que me impede de surtar e fugir do que minha vida se tornou.
 Saio da piscina apressada ao ouvir pela terceira vez o toque insistente do celular, jogo a toalha rosa felpuda sobre a cabeça e sem cuidado algum tento secar meus cabelos o máximo que posso nos meus segundos restantes de liberdade.

-Fala, - o descontentamento na voz é evidente e apesar de ter tido um longo e culminante passado com a garota do outro lado da linha, sei que nada de bom pode vir de uma ligação dela. - Não precisa caçar as palavras, fale o que precisa e desligue, Regina. -Ouço um suspiro depois de uma longa pausa e o silêncio prossegue, ergo a mão livre e massageio as têmporas, a forma como ela conseguia bagunçar e estragar meu dia em questão de minutos era impressionante, talvez devesse premiá-la como "chata não convencional do ano". -Olha... Se você não queria conversar, por qual motivo me ligou?

-Liza, você não acha que já ficou tempo de mais distante? - Respiro fundo, dessa vez o silêncio vem da minha parte, a voz dela não mudou quase nada apesar da idade, esperava que aos dezessete ela já tivesse perdido o timbre infantil que tinha, ledo engano. - Nós sentimos sua falta.

-Isso é tudo? -Deixo a rispidez na voz o mais clara possível. Não é como se não gostasse de ter contato com a família, certo, é sim. Evito a todo custo, sempre que posso, sempre que não posso e se topo com algum deles, não finjo que gosto. Existem famílias e famílias por aí, talvez a do vizinho seja bacana, talvez a do padeiro seja divertida e carinhosa mas a minha é o que podemos chamar de... Tóxica. -Não me ligue a menos que uma tragédia aconteça, capiche? - desligo e jogo o celular dentro da bolsa.

No clube tudo continua tranquilo. A aula de natação em outra piscina continua, algumas crianças estão discutindo, mães fofocando... Tudo normal. Agora o problema sou eu. O único ponto e foco de negatividade em todo aquele azul profundo e pacato, sou eu e isso é tudo culpa de uma droga de ligação! Mal posso acreditar no quanto isso ainda me afeta, droga, eu cresci, tenho um trabalho, me formei, tenho meu apartamento confortável e meu aquário lotado de peixes. Minha vida está em perfeita ordem, eu não tenho mais vinculo algum com esses demônios, então por que eles insistem tanto em ressurgir das sombras?
Sou tomada por pensamentos em grande maioria de raiva e ressentimento enquanto me visto e deixo o clube, dois quarteirões depois, já no meu apartamento, ouço o celular tocando de novo e pra minha surpresa outro fantasma do passado resolveu me atormentar. Esse com certeza pior do que o anterior, tomo fôlego e me jogo no sofá sem cuidado algum, vamos ao bombardeio.

-Sim, mãe?
-... Eliza, o que você disse pra sua irmã? - Já estava pronta pra responder com quatro pedras na mão, não fosse seu tom de voz, não fosse o fato dela estar arfando e do ar parecer lhe faltar a cada palavra dita. Estava pronta pra ser o mais ignorante e bruta o possível e começar uma briga feia, se não notasse que ela estava chorando. Quanto tempo se passara desde a ligação de Regina? Quinze minutos? Talvez menos. Ainda assim eu podia ouvir claramente o som do desespero presente na voz da minha mãe. -O que você disse pra sua irmã, Eliza?! - ela tornou a repetir, dessa vez mais alto com mais fúria.
-Nada demais, o que foi? Tá chorando? Quem morreu? -ri, me arrependendo amargamente em seguida. A resposta não veio da minha mãe, mas do meu pai.

Após um grito seguido por uma espécie de choro ou lamentação absurdamente alto que me fez afastar o celular da orelha por alguns segundos, a voz grossa e inconfundivelmente fria do meu pai fez com que até mesmo o tempo a minha volta parasse.

-Você tem no máximo um dia pra chegar aqui e resolver um terço da merda que você fez... Regina está morta e a culpa é sua.

domingo, 11 de outubro de 2015

Sssh


Tô carente.
Tô carente de você.
Da alienação gostosa que você me causa,
Cada vez que me preenche com sua dúvida
Em tese sútil, sempre curiosa.

Tô cansado.
Cansado de ceder e esperar de mais,
De quem sempre será de menos.
Tô cansado de confiar, cansado de acreditar.

Mas tô aqui.
Tô sedento, tô revoltado, tô e não tô.
Sou e não sou.
A confusão que me toma vai além de você,
Mas tem seu nome como raiz principal.

Tô exausto ao meu modo,
Mesmo que o ritmo ainda me embale,
Mesmo que a música ainda me tome,
Mesmo que algo em mim, ainda reclame.

Entenda meu pedido de socorro,
Afaste-se ao menor comando,
Se for pra ser menor do que o nada,
Não o seja.
Não fique.
Não diga.
Se de todo o resto me afasto, não se iluda...
De você, também estou farto.

Minha carência brota da saudade,
Da incompreensão, do vazio
E principalmente do "não" estampado na sua boca
Que enquanto beija a minha, deseja muitas, muitas outras.

What's my name?


"Baby you're a challenge, lets explore your talent"

É um desafio te classificar,
Escolher uma palavra que seja,
Uma denominação simples, pra alguém como você,
Tão complexo, que mal entende o que realmente deseja.

É questão de puro jogo de cintura,
Disputa acirrada de sinuca,
Goles e mais goles da mais pura e inconsequente,
Notória e diversificada... Música.

E é difícil entender, decifrar, analisar
E por fim, falar
Quando tudo em você é um enigma,
Um quebra-cabeças misterioso que não abre brechas.

E é difícil como amiga, estender a mão
Socorrer, dar mesmo sem querer, o braço a torcer
Quando toda a admiração parece emaranhada, 
Perdida, usada.

Espero que ame,
Espero que seja amado.
Espero que cante, que dance.
Mas acima disso, minha amizade das mais queridas...
Eu espero sinceramente que não se arrependa e que sem mais delongas,
Viva.


Indulgente sensação prepotente de inércia gratuita


Me inebria os sentidos,
Me venda os olhos
E faz instantaneamente falhar a língua,
Cada vez que topo contigo.

Logo eu que mal me calo,
Logo eu, tão solenemente eu,
Que pouco espero desse tal sentimento,
Popularmente tido como raro (e ralo).

Se por desacato,
Indulgência ou simplesmente,
Arrogância do dito cruel destino,
Nossos caminhos se cruzam, por que então não fala comigo?

O que te prende?
O que te limita?
O que em você, meu impensado amor
Como palavra final, teus pensamentos dita?

O que em seu olhar recluso,
Vacilante e culpado,
Ainda em mim encanta?
O que em você,
Soldado, bandido,
Covarde, astuto, oprimido
É capaz de despertar meu mais profundo interesse?

O que em você, tão frio e vago... Você,
O impede de em mim, sua presença findar?
O que em você, distante de qualquer lugar onde eu poderia estar,
Faz com que sem querer,
Eu venha a te amar?

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Don't you dare


Você me frustra.
Me irrita de formas inimagináveis
E me dá uma puta,
Tremenda e fodida
Ânsia de vômito.

Você me cansa,
Me deixa exausta
E só de mencionar seu nome numa conversa,
Já formo em mim, sem querer,
Uma careta.

Existem limites pra ser imbecil, sabia?
Existem limites pra ser cuzão e acima disso
Limites pra ser um bosta.

Claro que você extrapola todos
E ainda me perguntam
Por qual motivo,
Qual razão,
Qual mistério do destino,
Me faz ironizar tudo que o sai da sua boca.

--
Não, isso não foi um poema, foi a minha vontade de te bater. <3 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Kiss, kiss and kiss, and kiss, and kiss

É o teu cheiro que me pega desprevenida, 
Teu gosto,
Teus lábios,
Teu rosto.

É a tua voz que me embala e arrepia,
Tuas mãos macias,
Teu abraço quente.
É você, e só você pra todo o sempre.

É a sensação gostosa
Que me invade a cada frase.
É a saudade ardilosa,
Entre teimosias manhosas.

É tudo isso e mais,
Pra provar que sim:
Eu te amo mais.

É o fato de pensar em você
A cada minuto,
Cada segundo
Cada hora dos meus dias.

É sonhar,
É querer,
É desejar,
É sentir.
Tudo por você.

After you

Quando canso de mim,
Quando canso de você.
Quando canso de nós,
Quando canso de crer.

Me desfaço das pinturas,
Escondo os retratos.
Mudo os móveis de lugar,
Altero até mesmo o modo de falar.

Só não consigo mexer mesmo,
É no pensar,
É no sentir.
Esses aí que tento inutilmente mudar,
Parecem que a cada dia aprendem mais a lutar,
Para enfim,
O "eu" que tento esquecer,
De vez enraizar.

Tem dias que canso.
Dias e noites de exaustão,
De necessidade,
De revolta.

E então tudo volta,
A realidade despenca,
Como um golpe duro da própria crença.

Nada mudou.
Do melhor pra pior,
Nada mudou.
Do sorriso até o descaso,
Tudo inalterado.

Por isso hoje,
Me mascaro.
Tinjo de cores meus lábios,
Mudo o penteado,
Arrumo outro tipo de papo.

Hoje cansei de mim,
Hoje cansei de ser,
Exercer, fazer, crer
Hoje,
E quem sabe daqui um ou dois dias,
Não serei eu, não serei você,
Afinal de contas,
Serei quem eu quiser ser.



Medicine

Banhado em todo aquele rosa decadente,
Te vi cercado pelo cheiro pungente,
Adocicado e de gosto amargo,
Um sabor cítrico, doente.

 A fonte se desdobra,
Inquieta ela regurgita.
Inquieta, tão solene e sozinha,
Ela segue.