domingo, 22 de novembro de 2015

Torch


Por qual razão renega teu eu?
Por qual motivo, me diga
Se esconde em tantas máscaras de marfim e madeira,
Que só te fazem ferir ainda mais?

Por qual razão renega teu sentir?
Teu pensar?
Por qual motivo oprime tua própria liberdade,
Esconde de si mesmo as sensações, o amar?

Por qual razão tinge de negro o rubro,
Mata as cores com essa brancura que não te pertence,
Se pinta de bom ou mal, vilão ou mocinho
Quando na profundidade vasta dos teus olhos, posso ver o pedido de socorro?

O que te faz pensar que não seria aceito?
O que em ti, tanto a si mesmo renega?
O que em mim, sua natureza lupina
Solitária, esguia e rude
Tanto fascina?

Driven like the snow


Refletidos nas janelas d'sua alma,
Em seus ternos e pacatos espelhos d'água,
Lanço meus encantos e feitiços,
Em cristais que quicam na transparência perturbadora,
Da sua inquieta consciência. 
Fosse apenas o deleite do licor,
O delírio do ópio ou o aroma do incenso.
Fosse apenas bem ou mal,
Sem um meio termo, sem um mesclado desigual.
Fosse apenas você, e não fosse também o eu
Que na mais doce e pungente amargura se banha,
Não haveria sentido em lutar,
Não haveria pois, uma razão por mais infantil que fosse
De em você, a loucura criar.


Flood II


No seu caminhar rebelde e enfurecido,
Me sinto perdido, atordoado.
Confuso, diria até mesmo curioso,
Sobre uma natureza indomável em um ser tão contraditório.

No seu olhar rodeado pelo negrume grudento da maquiagem que diz repudiar, 
Nos seus cabelos coloridos, desfocados, quebradiços,
Curtos ou compridos.

Na disfunção inteira que é seu corpo desnudo ou coberto, limpo, tatuado, de pintinhas, lisos ou não,
 E na confusão que é sua presença
Estranha, diferente, austera, rude e inconsequente.
Me sinto cada vez mais enojado, até qual ponto sua ignorância pode chegar?

Preso no mistério que te leva a ser assim, julgo abruptamente. 
O que se passa nos labirintos sujos da sua mente? Qual a razão pra tanta fúria?
Brota a risada, brota o asco.
Brota o cansaço e até mesmo o repúdio.

Se fosse apenas o visual,
Se fosse apenas a atitude,
Mas são também os pensamentos,
São também as palavras, ações e gestos.

Tudo em você é uma incógnita.
Se para bem ou para mal, 
De si mesma e do geral,
Cabe ao talvez responder, me resigno agora
Para minha própria paz, deixo de te ver,
Viro o rosto.

Deixo que o mundo se encarregue de saciar sua revolta,
De amenizar sua ira,
Ou de te tornar, de repente
Mais consciente, já que no atual você não é nem de longe
Um alguém com uma razão real.

Não digo não lutar por seus direitos,
Mas não faz sentido.
Se odeiam todas as rosas, se em uma
E apenas um, se ferir nos espinhos?

Pra que se intitular? 
Pra que se revoltar com algo assim, quando há tanto mais pra se mudar na humanidade? 
Como é que dizem mesmo? Esse título vulgar que ostenta no peito com tanto glamour, 
Esse ódio aos outros sem razão, essa generalização escrota de quem não tem educação?
Ah, é mesmo, é somente essa bobagem toda de se chamar...
Feminista.

1959


Imaculadas asas de anjo,
Que se abrem inquietas e se movem,
Tão plenas e majestosas
Na amplidão celeste.

Que de tão sutis e leves,
Desfazem a névoa e nuvens adentram.
Imaculadas asas de anjo,
Que paraísos perpetuam, que luz pela luz, criam.

Imaculadas asas de anjo,
De onde penas soltas brotam como o mais puro cristal,
E de lá se desfazem como poeira no ar,
Como mágica.

As imaculadas asas de anjos,
Em sorrisos e lágrimas infiéis,
Abrangem no universo como se nada fossem,
E desaparecem conforme a melodia do destino ecoa.

Abrasam-se nas chamas crepitantes da angústia, do viver
E não mais podem ser vistas.

Agora, maculadas asas de anjo
Por sonhos tão distantes da realidade,
Por desejos tão longínquos e por vezes mesquinhos,
Por sentimentos que jamais deveriam sentir.

Maculadas as asas dos anjos,
Que sem livre arbítrio,
Nos invejam, admiram e
Nos cobrem de preces e calentos, ao dormir.
  

Dominion


Outrora se pôs a madressilva.
Tão agarrada em pensamentos infantis,
Que mal entendia seu próprio sufocar.
Na ânsia de ser a melhor e mais bela,
A mais adorada, amada e admirada 
Tornou-se fútil, oh, tão abobada...
Carente e desolada.
Outrora se pôs a madressilva.
E nem mesmo foi capaz de entender,
O motivo que causara sua infame queda.
Depois de ter em suas pétalas dezenas de digitais,
Marcas de tantos que sequer de fato conhecia,
Se pôs a madressilva.
Se pôs a chorar e pedir clemência,
Cedeu ao esquecimento que tanto almejava,
E em seu reino de fantasia, de princesas e fadas
A escuridão não foi capaz de fazer nela, surgir a consciência. 
Outrora e quem sabe mesmo agora,
Se põe a madressilva.
Minutos depois se ergue, erra novamente todos os erros
Que sua beleza e estupidez causa.
Outrora, agora e quem sabe daqui algumas horas
Vai se pôr a madressilva.
Com seus olhos chorosos, pele marcada,
Voz machucada e coração partido,
Buscando o amor da forma errada,
Buscando ser a rainha, a melhor, a maior,
Quando tudo o que deveria querer,
Era ser verdadeiramente capaz de sentir.
Clamo pra que se afaste de mim,
Enquanto a abraço devagar e me deixo sentir por ela,
Sabendo que dentro de si, ela continua incessantemente 
Buscando ser apenas, de todas
A mais bela.


quinta-feira, 5 de novembro de 2015


Que o resguardo após o ocorrido, dure bem menos do que o merecido.
Que a melancolia se desfaça por completo em novos horizontes,
E que tudo, tudo se refaça na infinita ampulheta do tempo.

Adelaide


Me apague.
Me delete da sua memória,
Me tire da sua lista de contatos,
Desapegue.
Se esqueça.
Se esqueça de todo e qualquer carinho,
Das frases, dos sorrisos e das besteiras.
Esqueça as desavenças.
Me apague. 
Não me odeie, me esqueça.
E faça com que assim,
Eu também te esqueça.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Whoooa! : Parte 1 - Hospitais infernais

"Odeio hospitais"
        Você com toda a certeza já ouviu algum comentário do tipo, talvez ele tenha vindo até mesmo de você e venhamos e convenhamos, hospitais são realmente uma droga. Depois de várias etapas burocráticas entre fazer fichas, responder perguntas idiotas para atualizar seu cadastro, esperar pelo atendimento médico e finalmente a medicação, existe uma longa brecha temporal que parece durar séculos e essa brecha é como uma fenda, um buraco entre as dimensões da paciência, do sono, da estagnação e finalmente... Da coragem. É como se vinte minutos demorassem anos e tudo citado anteriormente (principalmente a paciência) fossem sugados pelo buraco negro dos corredores, piso e teto perfeitamente brancos e impecáveis.
      "Impecável", esse é outro detalhe que me desanima. Não é como se a clínica, as cadeiras, o bebedouro, as torneiras, as maçanetas, corrimão e até mesmo o balcão de atendimento, fossem limpos. Muito pelo contrário, se fôssemos calcular a quantidade de gente que frequenta hospitais tanto públicos quanto particulares diariamente, levando em consideração que dois entre cinco indivíduos tem o mesmo vírus/problema, ainda teríamos uma taxa alarmante de infecção evidente! É assustador! 
       Então se você me perguntar por qual motivo estou sentada em um corredor comprido, de braços e pernas cruzadas, movendo um dos pés no ritmo de uma batida que só existe na minha cabeça, bem, o motivo é claro: eu sou do tipo que odeia hospitais e não estou aqui por querer. Diria obrigação se não estivesse realmente precisando tomar o bendito sorinho pra regular minha pressão. O que nos leva a outro tópico de ódio aparente: cólicas. Se você é um homem ou uma garota que nunca sentiu cólicas na vida, (talvez você tenha uma leve ideia) mas nunca vai entender de fato como você é sortudo (ou sortuda). 
       A cólica é o mal de todos os séculos, a origem de todo o desgosto, mau humor e rugas. Ela surge do nada, vem como um golpe duro no pé da barriga e simplesmente cria vida! Ela se propaga em fisgadas latentes pelas laterais e região central do ventre, fazendo todo o seu corpinho se retorcer de dor e desejar uma morte rápida e piedosa.
       Acha que fui dramática? Muito bem, pode me chamar de Drama Queen, não é como se eu me importasse, meu irmão adora me chamar disso e adotou a ofensa como apelido. Ele inclusive poderia facilmente ser apelidado de Mestre dos Imbecis, mas não quero propagar mais ódio e rancor, até porque não vale muito a pena falar do meu irmão, ele é inútil, quebra tudo em que suas mãos tocam, sua voz é irritante e eu juro que não entendo como esse bosta conseguiu uma namorada. Certo, falei demais. O ponto é, ter um irmão mais velho bosta não ajuda em nada, torna sua vida mais complicada e infernal mas pode ser divertido as vezes, tipo... Muito raramente, quase nunca.
      Ouço meu nome ser chamado na enfermaria e me levanto depressa, a tontura me pega desprevenida e vejo tudo ao meu redor girando depressa como num brinquedo frenético do parque de diversões da cidade vizinha, fecho os olhos e levo as mãos até a testa, respiro fundo duas, três, cinco vezes ou mais e finalmente caminho até a portinhola branca aberta. Meus olhos não conseguem distinguir ou ainda formar uma imagem clara, tudo o que vejo é a silhueta da enfermeira de pé, preparando algo (provavelmente meu soro) e vários pontinhos coloridos num negrume estupendo me roubando a sanidade.
- Está sozinha, meu bem? - ela pergunta, sua voz é firme apesar de tranquila. - Pode se deitar, você vai ficar sonolenta durante o processo, seria bom que alguém viesse te buscar.
- Não precisa, moro aqui perto. - emendo sem muita vontade de conversar e me deito, sinto a língua grudando no céu da boca, fecho os olhos enquanto ela procura uma veia, enfia a agulha e se despede, saindo da sala e me deixando ali, mofando, quase morta, mais branca do que porcelana e tão drogada quanto uma barata depois de um belo jato de veneno.
       Quanto tempo passei naquele estado semi-vegetativo, pseudo-zumbi e drogada? Não faço ideia. Mas quando acordei com a gritaria desumana que mais parecia a torcida do Corinthians vs a do Palmeiras dentro da clínica, pude ver que o soro já estava seco e o sangue subira por parte do canudo de silicone. Pisco atordoada, o gosto amargo na boca seca e tudo piscando, espera... Piscando? Isso não é efeito colateral do soro, tem algo errado no hospital, eu estou completamente sozinha e a gritaria parece cada vez mais próxima. De repente um hospital nunca tinha parecido tanto com o inferno.



Whoooa!


Sentiu o golpe duro da lateral do próprio rosto chocar-se contra o azulejo branco da sala, tão logo caiu, pôs ambas as mãos no mesmo e impulsionou o corpo para cima, chutando com força o ar na uma tentativa inútil de afastar seu agressor. Cogitou a hipótese de gritar por socorro mas quem a ouviria no tumulto que se seguia no hospital naquele momento? Quem iria em seu auxilio e necessitado socorro, quando todos ali precisavam ser salvos?
 Diziam que toda sua vida passava diante de seus olhos conforme a hora da morte se aproximava, ora, então aquela não deveria ser a sua hora, já que tudo que via era sangue e horror. Por mais irônica que fosse toda aquela situação, Helena não pôde evitar sorrir de lado, evitava filmes de terror a todo custo principalmente por culpa de coisas do tipo, e agora, querendo ou não, teria que passar por cima de seu medo se quisesse sair dali viva.
 Quem diria que os mortos se rebelariam na droga do carnaval?

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N/A:
E foi-se a introdução, não, eu não planejei escrever absolutamente NADA pro Halloween desse ano. Só que ano passado eu misturei:
-Psicopatia;
-Licantropos;

E
-Zumbis.
Em um único projeto de três partes, e você provavelmente já leu ele aqui como "Mr." ou "Mr. Creeeg". Em resumo, eu sempre acabo extrapolando os prazos e escrevendo alguma coisa... É o caso desse mini-mini projeto. Claramente serão zumbis clássicos do tipo Night of the living Dead e uma misturinha com drama (drama queen, oi) e humor ácido (o que venho tentando incorporar com algum custo). Eeeenfim, não esperem algo bem feito, nem esperem que isso seja finalizado.
That's all folks.

Lobelia


Na incerteza do teu sorriso vacilante,
Encontro brechas que me incentivam a fuga.
No aconchego ineficaz da solidão bruta,
Encontro o caminho de volta até tudo aquilo que reneguei em fúria.
E por mais que a turva verdade se exalte,
Em frases entrecortadas,
No choro exasperado,
Desesperados em um labirinto de irrealidade,
A procissão dos inescrupulosos prossegue, intacta,
Conosco de mãos dadas, guiando a frieza do mármore que nos humaniza.
Eis que na vã esperança deturpada e perversa,
Na inocência cativa da pureza inaudita,
Os estilhaços se esquecem e o caleidoscópio se refaz,
Inteiro, quebradiço e semelhante,
Vitral aconchegante, amor ofuscante,
Se na incerteza do teu sorriso tudo definha e se recria,
Deveria eu, em minha rebelde poesia
Salientar quantos espelhos d'água mais, 
Teremos que pisotear até que finalmente
Um de nós, cansados e exaustos
Venha a se afogar?

domingo, 1 de novembro de 2015

Espinhos (Spin-Off): Parte 2


"A alma imersa em delícias jamais pode ser imaculada"
- William Blake 

   
      As chamas crepitavam inquietas em um misto do fogo rubro com o negrume do tecido na ponta da tocha presa à parede. O cheiro não mais incomodava, quando jovem fumara alguns cigarros de palha e dera umas raras baforadas em cachimbos e charutos, o fazia quando a ocasião assim dela exigia. Mas ali, presa naquele cubículo minúsculo, tendo por companhia os ratos que percorriam os esgotos londrinos e aquela maldita chama que nunca se apagava, nunca consumia por completo a madeira que a alimentava, estava completamente sozinha com seus demônios internos.
       Estava mais do que claro que o Duque aprendera alguns bons truques de mágica no curto tempo humano que se passara desde seu último encontro com a mesma, aliás, cria em seu ínfimo pensamento que o Duque pesquisara incansavelmente e nutrira demasiada curiosidade para o sobrenatural, em principal, sua espécie. Essa era a única explicação plausível para que o homem outrora tão ignorante em seus desejos mundanos, tivesse tamanho conhecimento em magia.
         Sâmela se contentou em analisar pela décima quinta vez as paredes íngremes de pedras irregulares onde o musgo crescia com tanto vigor, o teto fosco onde rachaduras se aglomeravam, assemelhando-se a um amontoado de veias na circulação sanguínea ou mesmo à mente de um homem conforme pensava. Sorriu de lado, virando-se em sua posição humilhante e fetal para então tocar com a ponta do indicador uma das barras engorduradas, de pintura corroída porém ainda firmes e suspirou, se não lhe falhava a memória, estava presa já há alguns meses. O que planejava o velho Duque? Não terminaria o feitiço que começara e finalmente, a mataria?
         Pois a criatura lembrava-se claramente de seu primeiro encontro com o ambicioso velho, na época, rapazote. Tão moço que nem mesmo calças compridas usava. Ainda assim, ternos treze anos e já burlava as regras do pai, fumando, bebericando vinhos e água ardente, entrando escondido em cabarés, fugindo... É, deveria ter imaginado que este Amo em especial lhe daria dor de cabeça, mas não, naquela época mesmo ela só se importava em quanto diversão conseguiria para si, brincando de mestre dos bonecos, adquirindo quantas marionetes pudesse dar conta... Realizava seus desejos e desgraçava suas vidas, tudo para fugir do tédio.
        O desejo do Duque fora simples, o pagamento contudo nunca fora estipulado. Ele pedira com clareza e uma voz firme de tom ainda infantil que fora quase cômico. Seu querer se resumia em riquezas, tanto ouro e jóias que nunca poderia contar (por mais criados que tivesse para ajudá-lo na tarefa), queria sentir-se como um sultão. Quando uma moeda se perdesse (sendo dada por pagamento, caridade ou perda comum), cinco mais deveriam surgir em seu lugar e assim seus bolsos nunca ficariam vazios.
        Sâmela riu de toda aquela riqueza que o menino queria possuir e concordou, em seguida, o pequeno provavelmente descrente, cruzara os braços rente ao peito e erguera o queixo, ainda mais confiante e pedira que nenhuma doença pudesse acometê-lo em vida, que armas quaisquer fossem, não pudessem feri-lo e que todos os seus inimigos, por mais insignificantes que fossem, se rendessem a seu poder.
        O monstro gargalhou, impondo que aquele desejo estava além de suas capacidades. Poderia livrá-lo de doenças? Poderia. Poderia fazer com que seu corpo de carne mole e ossos fracos se tornasse mais forte do que mármore? Ora, poderia. Mas não detinha ela, poder sobre o destino para demandar que os inimigos do Duquezinho se tornassem submissos ao seu bel prazer, e além disso, isso tiraria toda a graça da coisa. Tamanho poder não pertencia nem mesmo aos velhos deuses que na destruição entre ruínas e desespero reinavam, quando nem mesmo a terra era terra ou o céu era céu, tamanho poder de possuir e mandar sobre os outros, era algo pertencente apenas ao maior criador e nesse assunto, Sâmela preferia nem mesmo tocar.
       O pequeno concordou então de forma que pelo menos a saúde e a força lhe fosse garantida. O demônio que naquele tempo usava face oriental de cabelos compridos e olhos cortados, apenas sorriu e concordou.        
       Dizendo ao pequeno que ele pagaria o preço que ela por capricho próprio decidisse quando a hora ditada pelo destino fosse, e ele a esperaria na noite de todos os santos, assim que o sol tristonho se escondesse no horizonte londrino, ele deveria chamá-la três vezes, chamá-la em sussurros durante o festival das bruxas e então, o pagamento seria decidido.
      Fora tudo tão rápido! Lembrava-se do cheiro amargo da bebida que empesteava o local, da música circense vulgar e de todos os sorrisos dos artistas. Fora numa noite de circo, sim, uma noite fria e escura onde a lua pouco clareava. Se pudesse voltar no tempo, voltaria e jamais teria feito um acordo com aquele maldito rapazote. Se pudesse, jamais teria ido cobrar-lhe a dívida, maldito fosse, com toda a certeza ele sabia que o único temor de um imortal, a única coisa que pode fazê-lo enlouquecer, dormir e definhar... É o tédio, a inércia e finalmente a mesmice.
   
Aquela falta de diversão, de novidades, aquela escuridão que me rodeava, não há incerteza em tamanho sofrimento o qual sob mim recaia! Ai de mim! Pobre criatura nas entranhas da terra enjaulada... Ai de mim, que de toda a magia fui feita e por uso inapropriado dela, terei ainda meu fim.
 Ai de mim, pois no açoite que se seguia minha vã existência, ouvi passos ressoando no piso rachado, o Duque vinha aí.