segunda-feira, 12 de dezembro de 2016



Inunda-se o pandemônio de insólito vazio, na cacofonia muda e surda do sentir e do saber, a consciência inoperante se ausenta totalmente e abre espaço para que todos eles (e você sabe dos quais falamos), se arrastem para fora de suas jaulas.
Eles se contorcem em uma lentidão agonizante e suja, onde a lama cria ondulações de sombras que instantaneamente tornam o ambiente escuro e pouco convidativo, é lá que reside a pior das verdades e a razão do viver, além é claro do deleite do desespero: o desejo, a inconstância e a ilusão.
O que seria do ser vivente, seja ele qual for, se não tivesse em seu mais profundo traço de personalidade e pensamentos, o desejo? A insatisfação?
É lá que eles nascem.
É lá que se proliferam.
É lá, e tão somente lá, na alma, que se tornam reais a ponto de ferirem o ser em toda sua existência, emocional, física e psicologicamente.

Matá-los antes que eles te matem, é sua missão.

domingo, 23 de outubro de 2016

Everything that kills me makes me feel alive


-O primeiro respirou fundo enquanto o segundo tomava impulso e o terceiro marcava o tempo em seu relógio, consegue imaginar o que aconteceu depois? - Elisa pestanejou não entendendo a razão da história ter sido interrompida tão abruptamente, lhe dando uma abertura. Piscou atordoada e fez um singelo "não" com a cabeça, os olhos vermelhos denunciavam seu sono e o semblante cansado anunciava um dia cheio demais para um ser tão pequeno. - Não? Mesmo? Pois quero que imagine. Assim, terminará você a história.

A pequenina arregalou os olhos apertados após aquela afirmação absurda. Ela terminaria a história? Não era esse o trato. O acordo era sempre haver uma história antes de dormir para que o deus dos sonhos lhe desse missões fantasiosas e mágicas enquanto dormia, não que ela mesma montasse o final de algo já previamente escrito. Relutante teimou com sua mãe que apenas sorriu e fechou o livro, levando-o contra o peito.

-Cada conto pode ter um final diferente, tudo depende de quem o ouve, de quem o conta. Quando for mais velha, minha pequena, vai entender que nada na vida é eterno e tampouco concreto. Até mesmo a verdade e os sentimentos são passageiros ou questão de ponto de vista, pense no fim da jornada dos três amigos, será que houve mesmo um fim? Pense o quanto quiser e me conte depois, pode ser?

Elisa particularmente não entendeu as palavras da mãe até ser velha o suficiente e até estar totalmente sozinha.

É pra isso que serve o silêncio.
Pra suprir a gritaria desnecessária que assola o tormento incessante dos pesadelos.
É pra isso que existe o silêncio.
Pra te clarear as ideias e mostrar quem de fato está ali por você.
Abrace seu silêncio e se feche contra a gritaria ao seu redor, nada além disso importa agora.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Silêncio - Introdução

Já sentiu que o peso era denso e forte demais, e que não daria conta de se livrar dele? Ou que cada passo dado, não te levaria à lugar nenhum?
Eu já.

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Silêncio.
Olhei ao meu redor e me encontrei na mais densa escuridão. Não conseguia distinguir um palmo a minha frente, sequer minhas mãos e dedos outrora tão pálidos, obtinham qualquer relance de vislumbre no negrume que me engolia.
Abri os braços e girei em torno de mim mesma, dei uma volta inteira e então dois passos para trás, repeti o ato, dois passos para frente e tornei a fazê-lo. Aquele lugar -seja ele qual fosse-, era amplo, e isso me perturbou de formas inimagináveis. Nunca fui claustrofóbica* mas a escuridão me causava calafrios e ali, ela era tudo o que tinha.
Respirei fundo, onisciente de quem era mas inebriada no breu de minha própria vida. Como chegara até ali? O que vivi antes daquilo? Quem me é querido?
Minha garganta estava seca (assim como ainda o está), e o gosto salpicado na língua e no céu da boca era metálico. Forcei então, a voz a sair.
Nada.
Respirei fundo novamente e engoli em seco, abri a boca e deixei a língua dançar sob meus lábios rachados, circulando-os e umedecendo-os.
Tentei novamente proferir qualquer som que ainda residia em minhas cordas vocais, não sendo capaz de recordar se algum dia já havia dito qualquer palavra.
Novamente e para meu pavor, nenhum som, nem mesmo o mais baixo suspiro, saltou de mim.

Quanto tempo havia se passado desde que me dera conta da prisão em que me encontrava? Quanto tempo, se é que ali o tempo era medido, fiquei presa, nas trevas?

Já desesperada, me pus a correr. Se aquilo era uma prisão, deveriam haver paredes não é? Algum vestígio de luz, qualquer coisa que me orientasse.
E corri.
Corri até meu corpo ceder e meus joelhos pedirem arrego, corri com todas as forças até que estivesse ajoelhada no chão, sem fôlego.
Mas não encontrei nenhuma barreira.
Era como se estivesse livre e ao mesmo tempo, enjaulada. Aquilo era o tudo, mas acima disso... Era o nada.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Crônicas de Hashgan - 2 - Elementais

Independente do quão inimaginável seja a vastidão do universo, do quanto se sabe atualmente ou do quanto irá se saber a cerca dele no futuro, as leis da física prosseguem intactas, diferente da dualidade do ser que inacreditavelmente, conseguiu se extinguir em alguns seres.

 Existiu há muitíssimo tempo atrás um planeta conhecido como Terra. A Terra possuía apenas uma lua como satélite e não tinha grandes proporções, mas isso não vem ao caso, tal planeta teve dezenas de deuses em sua curta duração, folclores curiosos e lendas estranhíssimas que atualmente se restringem à histórias catalogadas no grande livro da vida. Ainda assim,  lá um dos princípios básicos da dualidade na existência do ser e de tudo que existe no universo foi perfeitamente passada aos humanos, não pode haver o masculino sem haver o feminino, o bem e o mal, a luz e a escuridão, um completa o outro, além disso, nada existe em estado puro.

Bem, tudo seria incrivelmente mais simples se não tivessem desenvolvido alguns seres especiais que se distinguiam nessa multidão mesclada, nomeado os mesmos como Elementais, feito milhares de experiências com eles em uma nave clandestina que -sempre-, repetindo, sempre, sumia dos radares. Como rastrear o que não pode ser visto ou mesmo seguido?

Quando esse pesadelo veio a tona, revelando que seres de todas as raças conhecidas estavam sumindo sem deixar vestígios e a culpa não era dos contrabandistas nem dos mercadores, a coisa ficou um pouco mais complicada. Vistorias se tornaram obrigatórias em todo e qualquer veículo espacial, mesmo pequenos cubos de apenas um ou dois tripulantes, se tornaram suspeitos nas rotas de navegação, o conselho intergaláctico tinha reuniões frequentes com os principais líderes das galáxias e decisões cada vez mais drásticas foram tomadas.

A primeira emenda definia que todo e qualquer ser deveria possuir em si um chip de rastreio, este possuiria informações sobre seu planeta natal, sexo, nascimento e obviamente, sua localização.

Claramente isso não foi bem aceito. Era uma forma de proteção? Era. Mas também era inegável que se tratava de uma forma de controlar a todos, se o caso fosse isolado, apenas um ou dois planetas talvez a repercussão não fosse tanta, mas não, a emenda era clara, o chip era obrigatório para absolutamente todas os planetas, raças civilizadas e espécies hibridas, mescladas ou qualquer ramificação diferente que não estivesse catalogada ou registrada no sistema.

A revolta a partir da primeira emenda se iniciou em questão de um piscar de olhos. Vários líderes eram contraditórios à solicitação e detinham o apoio de praticamente todo comerciante importante nas linhas de comércio.

Então, a segunda emenda foi lançada.

 Nela foram mais radicais, quem não possuísse o tal chip implantado no pulso esquerdo, seria preso, passaria por um duro interrogatório onde seus pensamentos seriam invadidos a força e vistoriados pela polícia, após constatado que não se tratavam de meliantes, seriam liberados. Quem consegue levar uma vida normal depois de ter a mente invadida por um bando de lunáticos? Pois é, isso resultou em um grande número de seres vegetativos -o que o governo ignorou prontamente.

Os contrários ao sistema por sua vez, inventaram uma identificação falsa, ilusória, que apesar de implantada no pulso como o chip original, passava as informações que eles cadastravam, ou seja, não havia rastreio a ser feito, não havia código, dados verdadeiros ou qualquer coisa capaz de identificá-los além de suas respectivas características originais.

Daí surgiu a terceira emenda.
Essa totalmente contrária a tudo que no início era o objetivo principal do chip. Ninguém mais se lembrava dos tantos que haviam desaparecido, seus nomes, seus passados, tudo havia caído no buraco negro do esquecimento perante as exigências absurdas e os métodos hediondos de tortura do conselho. A terceira emenda pregava majoritariamente que qualquer individuo (independente do que fosse), utilizando um chip falso, deveria ser morto imediatamente, assim como aqueles que não possuíam identificação alguma.

E a partir disso o conselho intergalático ou governo, como preferir, veio a ruir.
Era inaceitável que o universo vivesse sob uma ditadura, inaceitável que concordassem com tantas vidas sendo tomadas inutilmente e absurdo que eles ainda julgassem estarem corretos.

Em 915 da Era Vermelha, como ficou conhecido o período de batalha contra as autoridades intergaláticas, os líderes de todos os planetas e galáxias, presentes na setuagésima reunião no glorioso planeta dourado, foram mortos.

O terrível massacre manchou as águas douradas com todas as cores existentes, penetrou para sempre na terra reluzente, tornando-a morta, seca. E por fim, corrompeu o núcleo do planeta com suas chamas alaranjadas, deixando que o mesmo queimasse eternamente com toda a dor causada por outros.

O que ocorreu a seguir não é difícil de ser deduzido, é? Os chips foram destruídos, um novo conselho foi formado, este com o consenso e aprovação do povo e os milhares desaparecidos, citados no começo dessa narrativa? Deles nada restara senão uma velha notícia de um passado sangrento.

Como um sopro, um leve suspiro ou riso esmaecido, o assunto em si se tornara um tabu. Ninguém queria passar às novas gerações que haviam lutado e conspirado para destruir um governo opressor que os obrigava a sinalizar absolutamente tudo que faziam na vida, torturava e em seguida matava seu povo. Era algo sombrio demais para ser passado adiante e talvez a Era Vermelha tivesse de fato sido apagada, se após a morte dos guerreiros, já no fim da vida dos netos daqueles que ajudaram a destruir o conselho, os Elementais não tivessem surgido.

Eles trouxeram a tona tudo o que deveria ter morrido. O medo, a angústia, o terror, as batalhas e dessa vez, o novo governo se uniu a todo o povo, e os seres antes torturados em prol do "avanço das espécies", privados de suas vidas e famílias, passaram a ser caçados.

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What's your poison?

Agnes ergueu a cabeça devagar, retirando as maças do rosto já vermelhas das palmas de suas mãos que outrora as protegiam. Respirou fundo e ainda relutante, aspirou fundo. O ar que adentrou suas narinas e percorreu sua pele não tinha mais o aroma gostoso das flores ou a doçura do orvalho, era somente gélido e lhe fez arrepiar a espinha e emitir um pequeno som de desagrado com a garganta.
Finalmente abriu os olhos, estes tão negros quanto o céu que se estendia acima de sua cabeça. Ao menos as estrelas lhe faziam companhia naquele cruel inverno que acabara de começar.
 Buscou a lua enquanto se levantava do chão, os pés descalços ainda quentes contra a grama e o vestido de alças finas se movendo em uma nostálgica dança de sinfonia muda.
Descontente pôde constatar que era cedo demais para ter total vislumbre do céu invernal e que apesar do último raio do sol de verão ter definhado no horizonte e se apagado na névoa, tudo a sua volta teria que morrer na lentidão agonizante do frio para que retornasse à vida na gentil primavera e finalmente lhe desse a alegria do doce calor.
A menina abraçou a si mesma, rodeando-se com seus braços finos e suspirou. Suas macieiras dormiriam, seus carvalhos esconderiam o esplendor de suas densas folhagens e não haveriam flores para lhe contar as novidades do dia. O canto dos pássaros pouco a pouco se extinguiria e apenas os corvos, corajosos corvos, entoariam sua cacofonia de sons formando um coral desigual perante a sinistra melodia dos lobos.
O inverno havia chegado e mais uma vez, estava completamente sozinha.

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A pequena correu ao se dar conta de que a noite se tornava mais e mais viva a cada instante, tropeçou nas pedras que formavam o caminho sinuoso por entre as árvores até sua cabana, abriu a portinha redonda depressa ao se deparar com a mesma e se enfiou lá como um coelho se esconde na toca.
Se apressou trancando seu refúgio, fechou as trincas, apertou os cadeados e em seguida rumou para as janelas, fazendo o mesmo.
Suspirou profundamente buscando a tranquilidade que desejava possuir e o domínio sobre si do qual sua conselheira sempre a avisara ser necessário. Sentou-se diante da lareira e jogou algumas toras ali, acendendo o fogo e enfim, envolvendo o corpo com uma grande manta verde-musgo, pôde respirar aliviada.
 O crepitar das chamas consumindo a madeira não era alto o suficiente para abafar a orquestra de murmúrios e lamentações que tomava forma na névoa crescente pela terra negra. Nem mesmo tapando ambas as orelhas, Agnes pôde abafar o desespero daqueles que clamavam por vingança, por vida, do lado de fora de sua protegida cabana.
As portinholas da janela moviam-se com brutalidade e pela pequena fresta que separava a porta do chão, viam-se sombras dançantes na escuridão. Ela não estava mais sozinha, isso era um fato, contudo... Também não estava acompanhada.
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"Bradai ó homem de bem tua singela prece, proteja teu ninho e tua ninhada. Eis o anjo da Morte, anunciando tua vil chegada"

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Continuo?

terça-feira, 24 de maio de 2016

Coming Down


-Não te cansa? -Ela batia os dedos agitados e frios contra o vidro engordurado da janela do ônibus, ajeitou o óculos com a mão livre, desistindo de ler qualquer coisa em seu celular, em seguida o deixou no colo. Apoiou o queixo na mão direita e suspirou. -Viagens sempre me deixam triste.

-De forma alguma. Não acha as viagens especiais? - Amélia franziu a testa e virou o rosto para a amiga, fez um pequeno bico com os lábios e em seguida deu de ombros. - Bem, pensa comigo... A cada vez que você deixa sua casa, que você conhece novos lugares, pensamentos, pessoas, horizontes, algo em você muda. Você se expande. Todo ser humano é único Mel, expandir um universo inteiro dentro de si mesma, sonhar... Não custa nada acreditar um pouquinho, custa?

Amélia escorregou um pouco mais o corpo na poltrona desconfortável e pôs novamente os fones de ouvido. Não é que não gostasse de viajar ou que não achasse valer a pena. A nostalgia simplesmente não a fazia bem, e sabia em seu mais íntimo pensamento que as lembranças posteriormente lhe fariam algum mal, trariam a saudade ou quem sabe, a angústia.
Não gostava de admitir para si mesma mas encarar o céu a fazia pensar em todos aqueles que perdera, que deixara, e na estrada... Bem, tudo o que tinha era uma playlist incessante a qual ignorava e deixava apenas uma música tocando sempre no modo repetir, sua amiga dorminhoca e sonhadora... E o céu, este nunca a abandonaria, assim como a melancolia que trazia consigo.

-Boa noite Mara, -sussurrou por fim, já vendo a amiga tranquila no banco ao lado. Cruzou os braços e se deixou hipnotizar pelas estrelas, as folhagens das árvores densas que cortavam caminho na estrada e principalmente a escuridão que os cercava.

Aquela seria uma longa viagem.

domingo, 15 de maio de 2016

sábado, 14 de maio de 2016

Não pergunte

O pior silêncio é aquele do qual nunca se obtém qualquer resposta, aquele vazio que não te responde, não te preenche. Ele só existe, só aumenta e mesmo que se grite, por ele nada ecoa.

A pior verdade é aquela da qual sempre se foge, a que você evita a todo custo, que veste de ilusões e fantasias, mentiras bobas, sorrisos tristes. E ela sempre acaba surgindo.

Em tua suja palavra não me apeteço
Em tuas mentiras frias me aqueço
Presa num lento e constante cair
Que me prende ao inexistente
Que me faz crer, que posso sentir

Nas tuas mãos calejadas busco colo
Abraços, carinho
No teu olhar cansado, reflito a solidão
E cedo.

Cedo como cedem as raízes
Esmaeço como a quem o ácido corrói
E busco forças que não possuo.
Te levanto.
E caio no processo.

E então me refaço, nos estilhaços do que ainda sobrou
Diferente do que um dia fui, outrora gritante angustia
Agora findada agonia
Recomeço.

Trilho o caminho de pedras a mim proposto,
Afogo, voo, fujo
E então acordo, despedaço
E revivo de novo, na doce esperança
De que o passo a seguir, por completamente
Não me desfaça.



sábado, 7 de maio de 2016

'Cause I got me for life



"Aprenda a amar sua solidão, aprenda a amar a si mesmo e o tempo que passa consigo, com sua mente e suas vontades.
Aprenda a não esperar nada de ninguém, não se acostume, se adapte.
Mas não se esqueça de se amar, de se ter.
E acima de tudo, não deixe que ninguém, absolutamente ninguém
Te tire de você"

terça-feira, 19 de abril de 2016

A-L-I-V-E


Nas inconstantes linhas das marcas futuras,
Se esconde o amargo vazio da consciência,
Tudo é, enquanto não é.
No negrume eterno que se segue acima de tudo,
O asfalto quebra suas rachaduras vermelhas,
A gasolina praticamente explode na alma vazia, a consome.
Pra onde seguir quando se está perdido?

Nas inconstantes linhas do destino,
Se encontram as mais diversas sensações,
A revolta é vida e morte.
Na luz inebriante que se estende no horizonte,
A incerteza reluz com sua tentadora vaidade,
É tudo questão de ponto de vista,
Solidão.

Nas inconstantes linhas da vida,
Me perco, me despeço, me encontro, me afasto,
Me quebro e então, novamente me refaço.
No caleidoscópio colorido e eterno no qual salto sem temores,
Me abraça o vazio, me toma o tudo e sem remorsos,
Faço lentamente as pazes comigo.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Lobo

(...)

O lobo cinzento percorreu todos os caminhos à frente, guiado pelas estrelas, pela luz mutável do sol e pela lua prateada.
Ele lançou seus sonhos no horizonte longínquo e decidiu que pouca coisa realmente lhe era conhecida e resolveu listar as que atribuía maior e menor valor. No topo da lista de prioridades citou o cheiro da terra quando a chuva caí, o frio gostoso da névoa durante as madrugadas e às manhãs, os sabores e tudo aquilo que lhe dava vontade de correr. Enquanto na lista de menor valor, pôs os desejos mesquinhos de reconhecimento, as mágoas, as certezas e também as dores, mas que de certa forma, faziam parte de si e para sempre o fariam, encabeçou  a lista por fim com suas lembranças.
A partir desse momento o lobo tomou consciência da cor de sua pelugem, e a partir desse momento, o lobo entendeu o que era sua existência, sua vida e a verdadeiro deleite e delírio... Do "sentir".

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domingo, 27 de março de 2016

1. F*cking close


1. F*cking close!
1.1. Vince - A Chegada.

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     -Então, quer realmente me comprar com um galeão e meio de fogo estival? Olha bem pra mim e me diz se tenho cara de imbecil. -Diante daquela frase, Vince franziu a testa e agradeceu mentalmente ter o rosto omitido por uma máscara ou o comerciante teria acesso a sua reação de desprezo. Sim, o estava encarando e particularmente, o rekiano acreditava que só o rosto do grandalhão exemplificava que sim, ele era o maior imbecil que já encontrara naquele planeta, mas há de se dar um desconto, estava ali apenas a cerca de quarenta minutos, muitos imbecis ainda cruzariam seu caminho.
 Vince cruzou os braços e continuou em silêncio por alguns segundos, não tinha nada além de um galeão e meio de fogo estival. Não tinha nenhuma arma além de sua velha faca, nenhum animal, peça de valor ou mesmo jóias. Barganharia o próprio corpo na esperança de conseguir uma nave minúscula a fim de sair dali?
Não, seu belo corpinho era precioso demais para ser sequer cogitado naquela conversa (apesar de ter certeza que as moradoras de Hashgan adorariam ter um exemplar raro de rekiano em suas camas), humanoides ou não, seu segredo deveria ser guardado o máximo possível.
-Infelizmente não tenho mais o que te oferecer, - respirou fundo, o uniforme roubado de mecânico grudando no corpo. - Posso te fazer algum serviço que pague o preço da nave, sou um ótimo rastreador.
-Não não, - o grandalhão bufou gesticulando com as mãos em um claro sinal de nervosismo. Vince pôde ver uma gota de suor escorrendo de sua testa, a pele oleosa e clara pareceu brilhar mais. - Sem rastreadores, sem confusões por aqui. Toma de volta sua prata, não quero problemas e se você for esperto nanico, também não quer. Dá o fora daqui, talvez você encontre sua nave mais ao Sul, assim como meios de pagar por ela. - Ele empurrou o galeão e o saquinho em cima do mesmo com alguma brutalidade para os braços do dono original. -Se eu te ver pelas redondezas de novo, vou acionar os Dregs.

Vince deu de ombros, guardou novamente seu dinheiro e saiu sem dizer uma palavra. A última coisa que queria na sua cola eram Dregs, não que acreditasse que houvessem deles por ali, qual é, a capital do crime ter policiais de patente suficiente para receberem ordens diretas do conselho intergaláctico e usarem todo tipo de munição que quisessem, ali? Dregs eram montanhas de músculos sem sentimentos ou emoções, praticamente robôs de carne e sangue dourados a serem sacrificados em prol da "segurança". E toda vez que cruzara com os ditos cujos, fora em rotas clandestinas. Um planeta mercante era livre e disso ainda poderia tirar proveito.

Ao menos esperava que sim.

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sábado, 19 de março de 2016

Crystalised


Noites de inconstância
De desamor e de afastamento,
Pesadelos, solidão.
Dias de fel
Dias de mel,
Sonhos, sorrisos e luares.
No que se diferem eles,
Das noites perdidas?

Senão tão icônicos
Desiguais e errôneos
Sentimentos...
Que se mesclam na afeição
Na tolice cristalina que te envolve,
Quando me canso de você,
Quando me afasto de mim,
Tão recluso em minha própria existência irreal.

Do que se diferencia o dia e a noite
A luz e a escuridão,
Onde o tempo não é sequer cogitado? 

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Tolices,
Tolices apenas.
Distrações de uma perturbação psicótica.
Desejos,
Anseios apenas.
Vontades que se perdem entre pensamentos,

Ai daquele que sonha! 
Ai daquele que crê!
Ai ainda, daquele que sozinho padece, criando o irreal.
Não te afasta de si mesmo,
Não te deixa perder no labirinto da vida e da morte.

Onde o tempo não foi criado, nada nascerá, nada findará 
Volta, 
Esquece essas correntes
Nas quais se prende com tanto anseio
E volta.

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Não finja se equilibrar
No mais extremo alto do precipício 
De lamúrias e desilusões.
Volta você.

Há aqui apenas os esquecidos.
O que a mortalidade não pode apagar.
Aquele que sempre esteve,
Não foi criado, não será extinguido.
Volta você.
Aqui não é o seu lugar.

Se duvida que até mesmo a vida pode viver,
Que finalidade existe em meus pensamentos
Serem tomados por você?
Qual razão teria eu, aos seus sentimentos ceder?

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Se na névoa ilusória que perpetua tua máscara insólita
Nada mais há senão descrença e vazio,
Por qual motivo ainda me dá ouvidos?
Por qual razão ainda cria em todos, em mim, o mais doce
Leve e gentil
Sonhar?

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A frase retórica e cortante fora a última que ouvira saindo daquela que outrora lhe fora tão importante. Afinal, quantos amores perdidos mais teria? Como medir o que não pode ser medido? Como recuperar as sensações e os sentimentos agora perdidos? Estava vazio, mesmo que cheio. Estava perdido, mesmo que em perfeito lugar. Como poderia ele, o criador dos sonhos, ser incapaz de sonhar?

Pôs o elmo novamente e se deixou cair de braços abertos do rochedo alto que criara, perdendo-se mais uma vez em seu mundo, sua dimensão. Talvez criasse outro pesadelo, talvez visitasse novamente o Destino.

Não está morto o que pode eternamente jazer. E com estranhas eras, pode até mesmo a Morte, morrer.

domingo, 13 de março de 2016

Waiting and waiting but it's out of control

Sabe qual é o maior problema em mergulhar na fantasia, Aurora? Não é despertar dela e descobrir que nada existiu.
É afundar.
Se afogar por completo e ser tomado pela ilusão gostosa de conforto que ela trás... É se viciar a tal ponto que não se difere mais o que é real do que nunca foi, é precisar, é querer. É ansiar com todas as suas forças pela dor que nunca cessa e finalmente, é destruir todas as saídas possíveis e ficar eternamente preso naquilo que tanto causou prazer.


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Continua?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

1. F*cking close



1. F*cking close
1.2. Octávia - A delirante prisão
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Inspire.
Expire.
Inspire.
Expire.

Ela se obrigava a ver seguindo suas regras de sobrevivência, sendo elas as mais básicas possíveis. A completa escuridão que a cercava já lhe era comum aos olhos e sem dificuldade conseguia vislumbrar o que provavelmente era um criado mudo ou uma espécie de cômoda pequena, uma mesa no canto da parede, mais grande do que deveria já que ocupava um espaço considerável, e uma janela completamente vedada por tábuas velhas e pregos enferrujados.
Sabia que as tábuas eram velhas pois conseguia ouvir durante as horas (fossem elas de dias ou noites), cupins corroendo a madeira gasta, além disso, o pó criado por aquele movimento incomum que era sua única companhia no covil, irritava seu nariz.
Sabia também que os pregos eram enferrujados porque quando chovia, a água penetrava com dificuldade pela janela, o que era bem estranho dado ao fato que nem mesmo a luz penetrava ali. E ela podia sentir o aroma de ferrugem no ar.
Octávia abraçou a si mesma e se deixou deitar na jaula que a prendia. Enclausurada como uma fera, deixada de lado como um brinquedo quebrado. Então aquele era o destino de quem não cumpria as expectativas de Ernest Green? 
O silêncio não mais a incomodava, seus pensamentos haviam se tornado seus maiores carrascos e como não sabia quando receberia água ou comida (o que não vinha acontecendo com a frequência que deveria), não podia falar sozinha, gritar, cantar... Nada, não sabia quanto tempo havia se passado, se dias, semanas ou meses. O tempo e a solidão estavam sendo incríveis na árdua tarefa de enlouquecê-la, e ora quem diria... Ficar sozinha afinal seria sua ruína, ter que aguentar a si mesma e a si apenas, a mataria.

Closer


Como é difícil falar da calmaria da primavera e da tranquilidade do outono no inverno. Como se deixar levar pela doçura da leveza quando se migra de extremos entre eterno inverno e torturante verão?
A estagnação reina naquele que se recusa entre vertentes de saudade, fúria e apatia, e assim, falar da calmaria da primavera e da tranquilidade do outono, se torna algo praticamente impossível.
E nesse inverno que persegue, derruba, reclama e então toma posse, sentir-se sozinho e perdido é completamente natural. O único problema disso tudo é como escapar dos olhos sagazes do gelo cortante, ou ainda do calor sufocante que espreita a cada esquina?
Onde e unicamente onde, se escondem as portas que levam à primavera ou ao tão esperado outono? 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Moooonster

Navega traiçoeiro o veleiro do medo, em águas tão negras quanto o próprio desespero que nos corações vivos por puro deleite pavor causa. Cercado pela névoa de angústia e tristeza daquele que hoje, fazem parte do mar. Entoa sua canção de mortos, criada por milhares de vozes profundas, eternizadas em sua prisão mortuária e translúcidos, quase tanto quanto a água.
 Se por puro terror o estupor do momento o pegar desprevenido, tenha em mente, marujo amigo, de que escapatória não há... Isso é, a menos que sua fé seja suficiente para todos os males trazidos por esse infortúnio, levar.
 Há quem diga que sua tripulação de almas penadas não se restringe apenas a navegantes, que ele, ó curioso e corajoso ouvinte, é por si só uma forma de purgatório e que em sua madeira negra, apodrecida pelos algores do tempo e da água mesquinha do oceano, segue a rota da morte, perseguindo toda embarcação condenada pelo destino e levando consigo toda alma que encontrar no caminho.
 Abra seus olhos e encare a realidade dos fatos, verdade ou não, quem negaria tal conto, que de tantas vezes contado por tantas bocas, tem de tudo pra ser real?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Que descuido meu, pisar nos teus espinhos


"Se você vai tentar, vá até o fim
caso contrário, nem comece."
— Charles Bukowski.

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Essa ânsia que me invade e me toma,
Essa angústia que reclama,
É culpa de quem?
Se não há quem culpar, me diga
Explique, tente de alguma forma falar
Justifique,
Qual a razão disso
E como faço pra parar.