quinta-feira, 30 de junho de 2016

Crônicas de Hashgan - 2 - Elementais

Independente do quão inimaginável seja a vastidão do universo, do quanto se sabe atualmente ou do quanto irá se saber a cerca dele no futuro, as leis da física prosseguem intactas, diferente da dualidade do ser que inacreditavelmente, conseguiu se extinguir em alguns seres.

 Existiu há muitíssimo tempo atrás um planeta conhecido como Terra. A Terra possuía apenas uma lua como satélite e não tinha grandes proporções, mas isso não vem ao caso, tal planeta teve dezenas de deuses em sua curta duração, folclores curiosos e lendas estranhíssimas que atualmente se restringem à histórias catalogadas no grande livro da vida. Ainda assim,  lá um dos princípios básicos da dualidade na existência do ser e de tudo que existe no universo foi perfeitamente passada aos humanos, não pode haver o masculino sem haver o feminino, o bem e o mal, a luz e a escuridão, um completa o outro, além disso, nada existe em estado puro.

Bem, tudo seria incrivelmente mais simples se não tivessem desenvolvido alguns seres especiais que se distinguiam nessa multidão mesclada, nomeado os mesmos como Elementais, feito milhares de experiências com eles em uma nave clandestina que -sempre-, repetindo, sempre, sumia dos radares. Como rastrear o que não pode ser visto ou mesmo seguido?

Quando esse pesadelo veio a tona, revelando que seres de todas as raças conhecidas estavam sumindo sem deixar vestígios e a culpa não era dos contrabandistas nem dos mercadores, a coisa ficou um pouco mais complicada. Vistorias se tornaram obrigatórias em todo e qualquer veículo espacial, mesmo pequenos cubos de apenas um ou dois tripulantes, se tornaram suspeitos nas rotas de navegação, o conselho intergaláctico tinha reuniões frequentes com os principais líderes das galáxias e decisões cada vez mais drásticas foram tomadas.

A primeira emenda definia que todo e qualquer ser deveria possuir em si um chip de rastreio, este possuiria informações sobre seu planeta natal, sexo, nascimento e obviamente, sua localização.

Claramente isso não foi bem aceito. Era uma forma de proteção? Era. Mas também era inegável que se tratava de uma forma de controlar a todos, se o caso fosse isolado, apenas um ou dois planetas talvez a repercussão não fosse tanta, mas não, a emenda era clara, o chip era obrigatório para absolutamente todas os planetas, raças civilizadas e espécies hibridas, mescladas ou qualquer ramificação diferente que não estivesse catalogada ou registrada no sistema.

A revolta a partir da primeira emenda se iniciou em questão de um piscar de olhos. Vários líderes eram contraditórios à solicitação e detinham o apoio de praticamente todo comerciante importante nas linhas de comércio.

Então, a segunda emenda foi lançada.

 Nela foram mais radicais, quem não possuísse o tal chip implantado no pulso esquerdo, seria preso, passaria por um duro interrogatório onde seus pensamentos seriam invadidos a força e vistoriados pela polícia, após constatado que não se tratavam de meliantes, seriam liberados. Quem consegue levar uma vida normal depois de ter a mente invadida por um bando de lunáticos? Pois é, isso resultou em um grande número de seres vegetativos -o que o governo ignorou prontamente.

Os contrários ao sistema por sua vez, inventaram uma identificação falsa, ilusória, que apesar de implantada no pulso como o chip original, passava as informações que eles cadastravam, ou seja, não havia rastreio a ser feito, não havia código, dados verdadeiros ou qualquer coisa capaz de identificá-los além de suas respectivas características originais.

Daí surgiu a terceira emenda.
Essa totalmente contrária a tudo que no início era o objetivo principal do chip. Ninguém mais se lembrava dos tantos que haviam desaparecido, seus nomes, seus passados, tudo havia caído no buraco negro do esquecimento perante as exigências absurdas e os métodos hediondos de tortura do conselho. A terceira emenda pregava majoritariamente que qualquer individuo (independente do que fosse), utilizando um chip falso, deveria ser morto imediatamente, assim como aqueles que não possuíam identificação alguma.

E a partir disso o conselho intergalático ou governo, como preferir, veio a ruir.
Era inaceitável que o universo vivesse sob uma ditadura, inaceitável que concordassem com tantas vidas sendo tomadas inutilmente e absurdo que eles ainda julgassem estarem corretos.

Em 915 da Era Vermelha, como ficou conhecido o período de batalha contra as autoridades intergaláticas, os líderes de todos os planetas e galáxias, presentes na setuagésima reunião no glorioso planeta dourado, foram mortos.

O terrível massacre manchou as águas douradas com todas as cores existentes, penetrou para sempre na terra reluzente, tornando-a morta, seca. E por fim, corrompeu o núcleo do planeta com suas chamas alaranjadas, deixando que o mesmo queimasse eternamente com toda a dor causada por outros.

O que ocorreu a seguir não é difícil de ser deduzido, é? Os chips foram destruídos, um novo conselho foi formado, este com o consenso e aprovação do povo e os milhares desaparecidos, citados no começo dessa narrativa? Deles nada restara senão uma velha notícia de um passado sangrento.

Como um sopro, um leve suspiro ou riso esmaecido, o assunto em si se tornara um tabu. Ninguém queria passar às novas gerações que haviam lutado e conspirado para destruir um governo opressor que os obrigava a sinalizar absolutamente tudo que faziam na vida, torturava e em seguida matava seu povo. Era algo sombrio demais para ser passado adiante e talvez a Era Vermelha tivesse de fato sido apagada, se após a morte dos guerreiros, já no fim da vida dos netos daqueles que ajudaram a destruir o conselho, os Elementais não tivessem surgido.

Eles trouxeram a tona tudo o que deveria ter morrido. O medo, a angústia, o terror, as batalhas e dessa vez, o novo governo se uniu a todo o povo, e os seres antes torturados em prol do "avanço das espécies", privados de suas vidas e famílias, passaram a ser caçados.

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