quinta-feira, 30 de junho de 2016

What's your poison?

Agnes ergueu a cabeça devagar, retirando as maças do rosto já vermelhas das palmas de suas mãos que outrora as protegiam. Respirou fundo e ainda relutante, aspirou fundo. O ar que adentrou suas narinas e percorreu sua pele não tinha mais o aroma gostoso das flores ou a doçura do orvalho, era somente gélido e lhe fez arrepiar a espinha e emitir um pequeno som de desagrado com a garganta.
Finalmente abriu os olhos, estes tão negros quanto o céu que se estendia acima de sua cabeça. Ao menos as estrelas lhe faziam companhia naquele cruel inverno que acabara de começar.
 Buscou a lua enquanto se levantava do chão, os pés descalços ainda quentes contra a grama e o vestido de alças finas se movendo em uma nostálgica dança de sinfonia muda.
Descontente pôde constatar que era cedo demais para ter total vislumbre do céu invernal e que apesar do último raio do sol de verão ter definhado no horizonte e se apagado na névoa, tudo a sua volta teria que morrer na lentidão agonizante do frio para que retornasse à vida na gentil primavera e finalmente lhe desse a alegria do doce calor.
A menina abraçou a si mesma, rodeando-se com seus braços finos e suspirou. Suas macieiras dormiriam, seus carvalhos esconderiam o esplendor de suas densas folhagens e não haveriam flores para lhe contar as novidades do dia. O canto dos pássaros pouco a pouco se extinguiria e apenas os corvos, corajosos corvos, entoariam sua cacofonia de sons formando um coral desigual perante a sinistra melodia dos lobos.
O inverno havia chegado e mais uma vez, estava completamente sozinha.

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A pequena correu ao se dar conta de que a noite se tornava mais e mais viva a cada instante, tropeçou nas pedras que formavam o caminho sinuoso por entre as árvores até sua cabana, abriu a portinha redonda depressa ao se deparar com a mesma e se enfiou lá como um coelho se esconde na toca.
Se apressou trancando seu refúgio, fechou as trincas, apertou os cadeados e em seguida rumou para as janelas, fazendo o mesmo.
Suspirou profundamente buscando a tranquilidade que desejava possuir e o domínio sobre si do qual sua conselheira sempre a avisara ser necessário. Sentou-se diante da lareira e jogou algumas toras ali, acendendo o fogo e enfim, envolvendo o corpo com uma grande manta verde-musgo, pôde respirar aliviada.
 O crepitar das chamas consumindo a madeira não era alto o suficiente para abafar a orquestra de murmúrios e lamentações que tomava forma na névoa crescente pela terra negra. Nem mesmo tapando ambas as orelhas, Agnes pôde abafar o desespero daqueles que clamavam por vingança, por vida, do lado de fora de sua protegida cabana.
As portinholas da janela moviam-se com brutalidade e pela pequena fresta que separava a porta do chão, viam-se sombras dançantes na escuridão. Ela não estava mais sozinha, isso era um fato, contudo... Também não estava acompanhada.
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"Bradai ó homem de bem tua singela prece, proteja teu ninho e tua ninhada. Eis o anjo da Morte, anunciando tua vil chegada"

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Continuo?

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